Qual é a relação entre as interpretações do capitalismo feitas por Marx e Weber? Muito já foi escrito no intuito de sintetizar ou contrapor os dois grandes analistas do capitalismo. A discussão gira em torno de uma série de contrastes já bastante explorados: mercados ou produção, classes ou estamentos e, é claro, o mais conhecido de todos: a conduta de vida determinada pela religião versus a força motriz das relações de propriedade. De forma quase unânime, essas diferenças são apresentadas como substantivas: uma disputa teórica entre explicações causais alternativas. Mas, de alguma forma, essa abordagem não vai ao cerne da questão.
O contraste entre os dois não reside principalmente em suas afirmações sobre as origens do capitalismo. Nenhum dos dois, no fim das contas, foi capaz de oferecer uma explicação geral convincente. Isso não quer dizer que seus trabalhos sejam dispensáveis, pois ambos possuíam uma virtude lamentavelmente rara – a capacidade de transmitir o quão surpreendente e estranho é o capitalismo como sistema de produção e troca e, assim, transformar em um problema a ser resolvido o que tem sido o contexto da existência humana por algumas centenas de anos. Suas falhas explicativas devem, portanto, ser consideradas entre as mais frutíferas da história das ciências humanas.
De qualquer forma, a questão principal reside em outro lugar: em seus pontos de vista ou perspectivas. Lukács talvez tenha sido quem melhor compreendeu isso. Em sua explicação, Weber tipificou o ponto de vista da burguesia, no sentido de que sua análise do capitalismo mostrou exatamente até onde se poderia chegar — acabou sendo muito longe — partindo da perspectiva da empresa. Em que condições os proprietários poderiam calcular seus lucros esperados com o maior grau de precisão? O ponto de partida de Marx era diferente. Ele começou perguntando em que condições os valores de uso apareceriam, de modo geral, como mercadorias. No entanto, os dois chegaram a uma conclusão semelhante. Uma pré-condição do capitalismo — seria errado dizer “causa”, dadas as formas enormemente variadas pelas quais o resultado foi alcançado — é o trabalho assalariado. Para Weber, isso se devia ao fato de que somente o trabalho assalariado permitia que o custo da força de trabalho fosse calculado com precisão. Para Marx, o trabalho assalariado servia como uma forma abreviada de designar todo o sistema de relações de propriedade no qual uma classe detém o monopólio social sobre a propriedade dos principais meios de produção, enquanto outra classe não possui nada além de sua capacidade de trabalhar.
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O que se segue é que a diferença essencial entre Marx e Weber diz respeito aos seus respectivos “ângulos de visão”. Marx abordou o capitalismo do ponto de vista do trabalho assalariado; Weber, do ponto de vista dos proprietários do capital. É nesse sentido conceitual-epistemológico, e não em um sentido biográfico, que Weber foi um pensador burguês e Marx um pensador proletário. Há aqui uma lição geral: os pontos de vista são conquistas político-epistemológicas, não expressões imediatas do ser social. Não são atitudes ou opiniões, mas perspectivas conscientemente determinadas que revelam ao cegar e cegam ao revelar.
A aposta lukácsiana era de que os dois poderiam ser sintetizados em termos marxistas, por meio das categorias de imediatismo e mediação. Weber, segundo Lukács, havia compreendido a experiência imediata do capitalismo para todos os seus agentes sociais. Mas a capacidade de elevar essa experiência à reflexão consciente dependia da posição de classe a partir da qual o processo de mediação se desenrolava. A burguesia poderia tomar consciência de sua própria posição social sem alcançar uma compreensão do caráter historicamente específico do capitalismo como estrutura de classes. De fato, quanto mais avançasse no esclarecimento de seus interesses, mais o mundo apareceria como uma estrutura dada dentro da qual a ação individual se desenrola. Para a burguesia, a conquista da consciência de classe, nesse sentido, criava obstáculos à compreensão da história. O proletariado, por outro lado, não poderia chegar a uma compreensão adequada de seus interesses sem compreender a história como uma história de estruturas de classe; assim, para a classe trabalhadora, havia uma relação íntima entre a compreensão histórica e a consciência de classe.
Nota bene; muitas das objeções feitas a Lukács, por exemplo, de que o proletariado muitas vezes não tem consciência de classe, são em grande parte irrelevantes. A questão não é que uma posição de classe proletária, por meio de algum processo biográfico, conduza a uma compreensão da história, mas sim que, se o proletariado quiser agir como classe, ele deve alcançar tal compreensão: uma questão inteiramente diferente. Em vez de “superar Hegel”, isso pode ser melhor compreendido como uma brilhante — e ainda amplamente inexplorada — Einkesselung (subsunção) de Weber.








































