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Sempre que vou a um centro de “ajuda” dos EUA em Gaza, sei que posso não voltar

“Estou diante de uma escolha impossível: morrer lentamente de fome em Gaza ou arriscar minha vida num ‘centro de ajuda’ de Israel por uma chance de sobreviver”

Hassan Herzallah
Deslocamento forçado de moradores da Faixa de Gaza em janeiro de 2025. (Foto: Jaber Jehad Badwan / Wikimedia Commons)
Deslocamento forçado de moradores da Faixa de Gaza em janeiro de 2025. (Foto: Jaber Jehad Badwan / Wikimedia Commons)

Eram 4h da manhã. O ar estava denso com a neblina e mal podíamos enxergar poucos metros à nossa frente. Caminhei ao lado do meu amigo Ahmad em direção ao centro de distribuição de ajuda controlado por israelenses e americanos, administrado pela chamada Fundação Humanitária de Gaza. Parecia que estávamos marchando em direção à nossa própria morte, mas não tínhamos outra opção. Nossas barracas não tinham comida. Saímos apenas porque ouvimos dizer que o ponto de distribuição americano poderia abrir ao amanhecer. Todos diziam para chegar cedo – “Talvez você consiga algo”. Mesmo que a chance fosse mínima, era melhor do que ficar sentado e morrer de fome. Ahmad e eu fomos com nada além da última gota de força que nos restava.

Estávamos sentados longe do som de tiros aleatórios, mas mesmo assim não estávamos seguros. Uma bala poderia acabar comigo, e ninguém iria achar o corpo.

Ahmad perguntou de repente: “Você acha que a Terceira Guerra Mundial pode começar?”

Eu ri amargamente. “Você acha que ainda não começou?”

De repente, um drone quadricóptero anunciou pelo alto-falante: “O centro não abrirá hoje”. Fiquei arrasado. Cada passo dado para chegar até ali foi um risco, e agora estávamos indo embora de mãos vazias. Os olhos de Ahmad ardiam de raiva, estava visivelmente mais chateado do que eu. “Vou ficar, talvez eles abram mais tarde”, disse ele. Ofereci-me para dividir meus três quilos de farinha e, depois de alguma persuasão, ele concordou. Mas quando chegamos às nossas tendas – depois de caminhar no frio e na escuridão por mais de um quilômetro –, soubemos que o centro havia reaberto.

“Eu te disse!”, gritou ele.

Quando cheguei à tenda, minha mãe, como sempre, não perguntou se eu tinha trazido alguma coisa. Que eu tenha voltado vivo era tudo o que importava para ela.

Naquele dia, cozinhamos o último arroz que tínhamos. Uma das minhas tarefas nesta guerra é acender o fogo, mas até isso traz seu próprio tipo de sofrimento. Não há mais açúcar em Gaza, mas eu tive que fazer chá para meu pai mesmo assim. Bebemos, apesar de ter gosto de cinzas.

 Leia também – Gaza: se não é genocídio, é guerra total 

Ahmad gritou: “Olhe para cima”.

Mísseis iranianos cruzavam o céu. “Talvez a Terceira Guerra Mundial esteja realmente começando”, ele sussurrou. “Se isso não é uma guerra mundial, o que é?”, pensei.

Na manhã seguinte, tivemos que sair novamente. O local em al-‘Alam poderia abrir. Após a oração do Fajr, Ahmad ligou. Eu sabia que era a hora. Entrei na escuridão, indo em direção ao ponto de distribuição em al-‘Alam.

Quando chegamos, já estava lotado de pessoas desesperadas. O exército já estava abrindo fogo em todas as direções, tiros ecoavam de drones e tanques rugiam à distância, mas continuamos andando. Alguns se esconderam atrás de dunas de areia, segurando facas ou paus para se proteger de saqueadores.

“O portão está aberto!”, gritou alguém, e o caos se instalou. Centenas correram – homens, mulheres, crianças.

Eu também corri, perdendo Ahmad de vista. A poeira e o medo nos engoliram. E então, mais tiros.

Pessoas caíram. Por que atirar em nós depois de abrir o portão?

Finalmente cheguei ao centro de assistência, peguei o que pude e me afastei para respirar. O lugar parecia uma jaula. Havia cercas de metal e mercenários americanos armados nos observando. Não parecia ajuda. Parecia humilhação.

Ao sair, procurei por Ahmad, gritando seu nome – mas ele havia desaparecido. Um homem sussurrou para mim que Ahmad tinha chegado tarde demais e não conseguiu pegar nada. Ele tinha uma família para alimentar. Um momento depois, ele se ofereceu para ajudar a carregar minha bolsa em troca de um pouco de comida.

Havia algo em seus olhos – como se ele não tivesse sempre vivido assim. Assim como eu e outros tantos palestinos, ele tinha uma vida antes de tudo isso.

Eu dei um pouco do que peguei para ele. Durante todo o caminho de volta, só conseguia pensar: “onde estaria Ahmad? Será que ele está bem?”

Quando cheguei, minha família não perguntou o que eu tinha trazido – eles estavam apenas felizes por eu estar vivo. Mas eu não conseguia descansar. Fiquei pensando em Ahmad. Troquei de roupa e saí para procurá-lo. Nossos celulares ainda estavam carregando. Fui até a barraca dele, gritando por seu nome.

Sua mãe, Um Ahmad, apareceu, confusa. “Vocês não saíram juntos?”, perguntou. Contei o que tinha acontecido e vi o medo em seu olhar.

Me dirigi para o hospital mais próximo. No momento em que entrei, meu coração afundou: pessoas feridas por toda parte, sangue, silêncio.

Continuei chamando pelo nome de Ahmad. Foi então que vi Yousef, seu amigo, que agora transporta as pessoas em troca de um pouco de comida. “Ahmad levou um tiro na cabeça”, sussurrou baixinho. “Ele está na UTI.” Eu não conseguia respirar. Meu primo me entregou um telefone.

“É sua mãe”, disse ele.

Mas não era. Era Um Ahmad. Sua voz tremia de esperança.

“Sinto muito… Ahmad foi baleado. Ele está no hospital.”

A ligação caiu. Minutos depois, um médico saiu, exausto. “Ele está em estado crítico. Precisa ser levado para fora de Gaza com urgência.”

Ahmad não estava pedindo muito – apenas uma chance de alimentar sua família e escapar do monstro da fome que nos devorava há meses.

Na manhã seguinte, apenas meu alarme tocou. Ahmad não ligou. Lá fora, ouvi a multidão – pessoas correndo novamente em direção ao novo centro de ajuda em al-‘Alam.

Parte de mim dizia para ir. Outra parte dizia para ficar. Acabei decidindo ficar – não conseguiria enfrentar tudo aquilo novamente depois do que aconteceu.

Eu estava preso entre duas escolhas impossíveis: morte lenta por fome ou arriscar minha vida pela chance de sobreviver. Já sobrevivemos à fome antes, mas nunca a um tipo de fome que abdicou da nossa humanidade. Me lembro de quando ainda éramos vistos como pessoas.

Ainda não voltei – não desde aquele dia. Ainda ouço os tiros na minha cabeça. Ainda vejo o rosto de Ahmad antes de ele cair. Mas a fome não se importa – ela volta todas as manhãs.

E um dia, em breve, talvez eu tenha que fazer aquela viagem mortal novamente.

(*) Hassan Herzallah é um produtor de vídeos e escritor de Gaza. Ele é um estudante de Tradução Inglesa na Universidade Islâmica de Gaza.

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