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O que está acontecendo em Mianmar?

Desde o golpe militar de 2021, a guerra civil em Mianmar se intensifica, com algo entre 150 a 300 mil pessoas envolvidas na revolução mais prolongada do mundo

Kay Young
Vilarejo de Kyauktaw, no estado de Rakhine, após bombardeio pela Força Aérea do Mianmar (MAF) em 12 de janeiro de 2025. (Foto: Chun Nrein/MPA/Wikimedia Commons)
Vilarejo de Kyauktaw, no estado de Rakhine, após bombardeio pela Força Aérea do Mianmar (MAF) em 12 de janeiro de 2025. (Foto: Chun Nrein/MPA/Wikimedia Commons)

Desde o golpe de 2021, a guerra civil em Mianmar tem se intensificado, atingindo sua fase mais violenta em décadas, numa escalada impressionante. Entre 60 e 200 grupos armados estão atualmente ativos, com um total de 150 mil a 300 mil indivíduos envolvidos na revolução mais prolongada do mundo. Esses insurgentes variam de pequenos grupos ideologicamente alinhados, como o comunista Exército Popular de Libertação, a fundamentalistas cristãos batistas como os Free Burma Rangers e exércitos narco-etnonacionalistas como o Exército Unido do Estado Wa. Há vários mapas que mostram uma divisão nítida entre o território controlado pelo regime e as zonas rebeldes, mas a realidade é muito mais confusa. O poder muda a cada hora: facções sobrepostas cobram impostos, administram e lutam pelas mesmas aldeias, campos e colinas, criando uma paisagem fragmentada de autoridades concorrentes; um duopólio da violência.

As Forças Armadas (o Tatmadaw) não apenas governam Mianmar; elas são donas do país. Essa relação foi descrita de forma célebre pelo intelectual comunista birmanês Thakin Soe como um sistema capitalista militar-burocrático: a fusão, a partir da junta militar, entre o poder estatal e o capital monopolista. Por meio de conglomerados como a Myanmar Economic Holdings Limited, os militares monopolizam indústrias que vão da madeira ao setor bancário, transformando soldados em acionistas e generais em chefes corporativos. Esse sistema, em que o lucro depende da coerção e não da concorrência, devastou a economia. Os trabalhadores são confrontados com salários em colapso e inflação de 300% nos produtos básicos, enquanto a junta e seus parceiros estrangeiros, os bancos de Cingapura, os comerciantes de gás tailandeses e os traficantes de armas russos, etc., continuam subtraindo as riquezas do país.

A eleição em 2016 do governo da Liga Nacional (NLD), de Aung San Suu Kyi, sugeriu brevemente a possibilidade de uma reforma, mas o império econômico do Tatmadaw permaneceu praticamente inconteste. A violência contra as minorias étnicas – o genocídio dos rohingya, as campanhas militares contra os kachin e os karen – prosseguiu sem cessar. A NLD, completamente incapaz de desafiar o sistema da junta, concentrou-se em atrair investimentos estrangeiros, enquanto em 2019 a própria Suu Kyi defendeu os militares em Haia.

No entanto, parece que, apesar da relativa passividade da NLD, seu governo ainda assim era muito para o Tatmadaw suportar, e um golpe foi desencadeado em 2021, lançando o país no caos em que se encontra atualmente. O Movimento de Desobediência Civil, lançado após o golpe, desencadeou uma greve geral sem precedentes liderada por sindicatos, paralisando as fontes de receita da junta. Enquanto isso, organizações armadas étnicas com décadas de existência, como o Exército de Independência Kachin, o Exército de Libertação Nacional Karen e forças mais recentes, como as Forças de Defesa Popular (PDFs), em grande parte bamar, intensificaram as ofensivas, tomando cidades e postos fronteiriços em todo o país.

O que distingue esta fase do conflito é a frágil convergência da resistência urbana, aliada às insurreições rurais/étnicas. No norte do estado de Shan, a Aliança da Irmandade (Exército de Libertação Nacional Ta’ang, Exército da Aliança Democrática Nacional de Mianmar e Exército de Arakan) derrotou as forças da junta, cortando redes comerciais essenciais. Na Zona Seca central (Dry Zone), os PDFs, em grande parte de etnia bamar, operam como milícias descentralizadas, combinando táticas de guerrilha com o autogoverno local nos momentos em que o Tatmadaw não se faz presente. No entanto, entre esses muitos grupos existe uma aliança instável: o Governo de Unidade Nacional (NUG), dominado pela NLD exilada de Suu Kyi, tem sido completamente incapaz de centralizar o comando, enquanto os líderes das minorias étnicas permanecem desconfiados, priorizando sua autonomia em detrimento de um programa revolucionário unificado. O mesmo se aplica a muitas das distintas milícias das Forças de Defesa do Povo, que recebem pouco ou nenhum apoio deste suposto governo no exílio, recorrendo em vez disso ao financiamento coletivo e à fabricação de armas caseiras.

As potências estrangeiras adaptam-se ao caos. A China protege as suas apostas, equilibrando as relações com a junta e os grupos armados étnicos para proteger os seus projetos de infraestruturas e a sua fronteira sul. A Rússia e o Paquistão fornecem armas ao Tatmadaw, a Tailândia lucra com a mão de obra migrante e o comércio fronteiriço, e as sanções ocidentais não conseguem abalar as fontes de financiamento da junta. Os bancos de Cingapura ainda processam os lucros militares, e empresas indianas compram gás proveniente da junta.

Ao longo das sete décadas desta guerra, o Tatmadaw foi repetidamente descrito como estando à beira do colapso. Sua estratégia de queimar aldeias, bombardear escolas e bloquear a ajuda humanitária apenas aprofundou a resistência. Hoje, o Tatmadaw pode realmente estar enfraquecendo, com o aumento das deserções e o colapso da moeda, mas ele já sobreviveu a crises anteriores. Enquanto isso, a oposição fragmentada carece de uma visão unificada. O Governo de Unidade Nacional se mantém apegado a um retorno da política pré-golpe, enquanto muitas facções de minorias étnicas exigem federalismo sem uma alternativa econômica. Como argumentou Thakin Soe, um sistema construído sobre a exploração militarizada não pode ser reformado, ele deve ser destruído. E, como nos disse recentemente um soldado da Força de Defesa Nacional Karen na linha de frente: “Perdemos tudo, nossa casa, nosso trabalho e nossos sonhos. Temos que lutar (contra) os militares da Birmânia”. O que acontecerá a seguir dependerá da possibilidade dos trabalhadores, camponeses e combatentes étnicos de Mianmar conseguirem transformar a resistência localizada em um desafio decisivo à ordem capitalista militar-burocrática, ou, caso contrário, a fragmentação prolongará a guerra para sua oitava década.

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