A questão militar é um dos elementos fundamentais da formação social brasileira. A natureza do arranjo militar que se constituiu no país, as matrizes ideológicas que o atravessaram e o momento histórico do seu surgimento, combinados às especificidades da nossa geografia, moldaram decisivamente a trajetória e a face do Brasil contemporâneo.
Durante o período colonial e grande parte do Império, as Forças Armadas ergueram-se como a única instituição de abrangência genuinamente nacional. Dotadas de uma estrutura centralizada, conseguiram projetar sua presença e autoridade até os territórios mais distantes e negligenciados pelo poder central. Esse processo permitiu que a corporação militar nascesse e se consolidasse ao longo da história assumindo o papel e a função de um verdadeiro partido político.
Compreender a instituição militar é, em larga medida, compreender as estruturas do próprio país. Se em anos recentes prevaleceu a ilusão de que a tutela e a intervenção militar na política eram problemas superados, os anos recentes demonstraram o contrário. Encarar a questão militar hoje é uma questão premente e incontornável para quem deseja pensar qualquer transformação estrutural no Brasil.
A seleção de obras a seguir oferece chaves essenciais de leitura para analisar a trajetória, a ideologia e o peso político das Forças Armadas na história brasileira.
História Militar do Brasil
Autor: Nelson Werneck Sodré
Editora: Expressão Popular (2ª edição, 2010; 1ª edição pela Civilização Brasileira em 1965)
Páginas: 575 páginas
Publicada originalmente há seis décadas, em 1965, a obra de Nelson Werneck Sodré permanece como o clássico incontornável e o trabalho mais abrangente da historiografia militar brasileira. Diferente da fragmentação que caracteriza boa parte da produção acadêmica contemporânea, o livro é fruto de um esforço de totalidade: o autor reconstitui o desenvolvimento do país a partir da formação e da evolução das suas estruturas armadas.
Com 575 páginas e a escrita característica de Sodré, densa e elegante, a obra exige uma leitura atenta, mas entrega ao leitor uma interpretação orgânica e integrada da questão militar. Cabe o registro crítico de que Sodré, ao escrever o texto no calor do golpe de 1964, analisa em determinados momentos o papel político do Exército sob matizes mais positivos do que caberia. Ainda assim, o volume representa o tipo de esforço intelectual monumental ao qual Sodré se dedicou ao longo da vida e continua sendo a leitura de partida indispensável para o tema.
Soldados da Pátria: História do Exército Brasileiro (1889-1937)
Autor: Frank D. McCann
Editora: Companhia das Letras (2007)
Páginas: 706 páginas
Com mais de 700 páginas, este clássico do brasilianista Frank McCann oferece um mapeamento minucioso e exaustivo da construção do Exército Republicano, cobrindo o arco histórico que vai da Proclamação da República até a instauração do Estado Novo em 1937. O volume destaca-se pelo rigor e pela densidade de sua pesquisa historiográfica – cujo levantamento de fontes e notas ao final da obra compõe um precioso material de consulta por si só.
McCann expõe com clareza a natureza do intervencionismo militar e o ambiente doutrinário da corporação, atravessado por valores conservadores e reacionários. A obra demonstra como o desenvolvimento das Forças Armadas no período foi marcado por intensas disputas e faccionismos internos que, embora nem sempre respondessem a alinhamentos ideológicos puros, convergiam para um mesmo projeto de controle e interpretação autoritária do Brasil.
Castello: a marcha para a ditadura
Autor: Lira Neto
Editora: Companhia das Letras (2021)
Nesta biografia do General Humberto de Alencar Castello Branco, Lira Neto utiliza a trajetória do primeiro presidente do regime militar para reconstituir o próprio processo de articulação da ditadura instaurada em 1964. Fiel ao seu estilo de escrita fluida e marcante, o autor ilumina a história política do país por meio da reconstituição biográfica da sua figura central.
Com apurado tino historiográfico, a narrativa demonstra como a escalada rumo ao golpe não resultou de mero acaso ou de uma sucessão desordenada de eventos. Tampouco foi o desdobramento de uma conspiração perfeita e sem fissuras. O livro evidencia o cálculo estratégico de atores políticos e militares que, no calor dos acontecimentos, operaram de forma coordenada para viabilizar o fechamento do regime e a consolidação do poder autoritário.
Utopia autoritária brasileira: como os militares ameaçam a democracia brasileira desde o nascimento da República até hoje
Autor: Carlos Fico
Editora: Crítica / Planeta (2025)
Páginas: 448 páginas
A obra do historiador Carlos Fico examina a recorrência das intervenções militares na política brasileira, percorrendo as crises e golpes desde o fim do Império e a deposição de D. Pedro II até o golpe de 1964. O livro ganha relevância adicional por ter sido elaborado à luz dos acontecimentos recentes da história do país, após as gestões de Temer e Bolsonaro, momento em que o meio militar reemergiu de forma explícita na cena política nacional.
Com 448 páginas, o volume distingue-se por um tom claro, didático e direto, sem abrir mão da densidade analítica. É a recomendação ideal para o leitor que busca compreender a linha de continuidade dos pronunciamentos e tutelas militares ao longo da República através de uma síntese acessível e bem fundamentada.
Forças Armadas e política no Brasil
Autor: José Murilo de Carvalho
Editora: Todavia (2019; publicado originalmente pela Zahar em 2005)
Assinado por um dos historiadores mais influentes do país, o livro reúne ensaios que analisam o protagonismo e a intervenção das Forças Armadas na vida política nacional. Diferente das obras de caráter narrativo ou estritamente cronológico, este volume organiza-se como uma coletânea de artigos analíticos sobre aspectos pontuais e decisivos da corporação.
José Murilo de Carvalho aborda desde a presença e o papel dos negros nas fileiras do Exército até a formação da República sob a tutela militar, passando por ensaios sobre a era Vargas, a articulação do golpe de 1964 e a atuação dos fardados durante a Assembleia Constituinte de 1987-1988. Pela brevidade e independência dos capítulos, o livro funciona como um excelente panorama temático, ideal tanto para quem busca uma introdução ágil e diversificada quanto para quem quer examinar episódios específicos do intervencionismo no Brasil.
Fuerzas Armadas y Estado de Excepción en América Latina
Autor: Mario Esteban Carranza
Editora: Siglo XXI Editores (1978)
Idioma: Espanhol (Sem tradução para o português)
Laureada com o Prêmio de Ensaio da Siglo XXI em 1978, esta obra de Mário Esteban Carranza avança para o terreno da sociologia política e da teoria do Estado para examinar o papel das Forças Armadas no ciclo de golpes e ditaduras que assolaram a América Latina entre as décadas de 1960 e 1980. Com foco analítico central no contexto argentino, o livro expande suas conclusões para compreender o fenômeno militar em âmbito continental.
O grande mérito do trabalho de Carranza reside na forma como articula a intervenção das Forças Armadas à dinâmica das classes sociais. Fortemente influenciado pela teoria de Nicos Poulantzas sobre a crise no “bloco de poder”, o autor afasta-se de leituras simplistas para demonstrar que as classes dominantes não formam um bloco monolítico, sendo atravessadas por contradições e disputas internas sobre quem hegemoniza o aparelho estatal – o que corresponde à realidade de inúmeras intervenções das Forças Armadas na história brasileira.
Sob essa perspectiva, o livro oferece uma das respostas mais densas e sofisticadas para a clássica controvérsia sobre a natureza dessas ditaduras – se seriam estritamente militares, empresarial-militares ou civil-militares. Carranza demonstra que os regimes de exceção na região não responderam a um mero mandato automático dos interesses gerais da burguesia, mas emergiram como arranjos complexos para arbitrar e recompor as frações do bloco dominante em momentos de crise profunda. É uma leitura indispensável de teoria política para entender a função estrutural dos fardados no capitalismo latino-americano.
Vida e Morte do Partido Fardado
Autor: Oliveiros S. Ferreira
Editora: Editora Senac São Paulo (2000)
Neste livro fundamental, Oliveiros S. Ferreira desenvolve e esmiúça de forma sistemática a categoria analítica de “Partido Fardado” – conceito que já vinha trabalhando em obras anteriores, como Forças Armadas para quê?, e em sua trajetória como jornalista e articulista. A obra mapeia como essa corporação politizada se estruturou, emergiu e atuou no cenário nacional ao longo de quase dois séculos, desde o início do século 19 até o término do regime militar.
Oliveiros S. Ferreira figura entre os analistas mais afiados da questão militar na história do país. Ainda que sua produção não tenha a dimensão historiográfica monumental de um Nelson Werneck Sodré, o autor destaca-se pela precisão com que apreende o funcionamento prático da intervenção armada na política. Suas categorias conceituais capturam a essência do fenômeno e revelam o caráter repetitivo das investidas tutelares dos fardados ao longo da história brasileira.
Embora o autor conclua o livro decretando o fim e a morte do “Partido Fardado” – uma tese que o tempo e os acontecimentos recentes do país se encarregaram de desmentir –, a obra oferece um ferramental teórico indispensável para pensar o papel político das Forças Armadas no Brasil.
Organização e Poder: Análise do Discurso Anticomunista do Exército Brasileiro
Autor: Roberto Martins Ferreira
Editora: Annablume (2005)
Trata-se de um livro curto, mas de notável densidade teórica e analítica. Sem apresentar uma leitura truncada ou inacessível, Roberto Martins Ferreira realiza um exame preciso sobre os mecanismos institucionais e ideológicos que alçaram o anticomunismo à condição de elemento estrutural da doutrina militar no Brasil.
O autor identifica a reação ao Levante Comunista de 1935 como o momento fundamental dessa consolidação, mas avança para além da conjuntura política da época. O livro demonstra como o mito anticomunista foi deliberadamente alimentado e perpetuado ao longo do tempo por meio de regramentos internos, rituais, homenagens corporativas e uma construção de memória que conferiu a episódios específicos um peso desproporcional à sua dimensão histórica real.
Além de esmiuçar a engrenagem desse discurso, a obra revela uma conclusão fundamental: embora o anticomunismo tenha se tornado o principal pretexto e vetor do intervencionismo militar ao longo do século XX, ele não constituiu sua condição prévia nem necessária. As Forças Armadas já atuavam como força de intervenção e tutela na política brasileira muito antes de adotarem o anticomunismo como sua bandeira de guerra.
O Cadete e o Capitão: a vida de Jair Bolsonaro no quartel
Autor: Luís Maklouf Carvalho
Editora: Todavia (2019)
Lançado no primeiro ano da presidência de Jair Bolsonaro, o livro do jornalista Luís Maklouf Carvalho é uma obra documental precisa sobre a trajetória militar do ex-presidente. Sem a pretensão de ser um ensaio teórico ou um tratado sociológico de fôlego, o volume destaca-se pelo rigor na reconstituição dos passos de Bolsonaro, desde seus anos como cadete na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) até sua migração para a política eleitoral.
Com base em vasta documentação e processos militares, Maklouf ilumina como o então jovem oficial atuou, entre o final dos anos 1970 e os anos 1980, num cálculo deliberado para projetar seu nome publicamente e ingressar na cena política. O livro expõe as contradições do episódio que culminou no seu desligamento do Exército – em meio a planos de atentados por reajuste salarial – e demonstra como aquela figura de baixa patente acabou servindo de válvula de escape corporativa para setores das Forças Armadas acuados pelo avanço da Redemocratização.
Trata-se de um registro fundamental para compreender as origens do fenômeno bolsonarista e a própria história recente do país. A investigação minuciosa de Maklouf, jornalista falecido em 2020 e que deixou uma contribuição memorável à imprensa brasileira, revela o percurso de uma figura marginal na hierarquia militar que se metamorfoseou em liderança política de massa.
Como se faz um militar? a formação inicial na Academia Militar das Agulhas Negras (1995-2012)
Autora: Ana Penido
Editora: Alameda (2023)
Todo oficial de carreira do Exército Brasileiro passa, compulsoriamente, pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Elaborado por Ana Penido, uma das mais destacadas cientistas políticas e pesquisadoras da questão militar na academia brasileira contemporânea, este livro aborda um dos pontos mais sensíveis e debatidos do tema: a formação dos quadros de comando da Força Terrestre.
A obra realiza um minucioso trabalho de análise documental sobre como os cadetes são socializados ao longo de sua trajetória na AMAN. Penido esmiúça sob quais concepções ideológicas, matrizes doutrinárias e dinâmicas de “espírito de corpo” esses jovens são moldados. Trata-se de um estudo fundamental para compreender por que o oficialato do Exército pensa e atua da forma como atua, oferecendo diagnósticos e insumos indispensáveis para quem deseja debater, por exemplo, a reformulação do ensino militar no Brasil.



































