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Um imposto sobre 3 mil bilionários poderia salvar 30 milhões de vidas até 2030

Não cobrar imposto é morte: estudo publicado na The Lancet mostra que uma alíquota de 1% aplicada sobre os super-ricos significaria evitar a morte de 15 milhões de pessoas

Yago Álvarez Barba
São Paulo (SP), 02/11/2023 - Movimento em Dia de Finados no Cemitério São Luiz, em São Paulo. (Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil)
São Paulo (SP), 02/11/2023 – Movimento em Dia de Finados no Cemitério São Luiz, em São Paulo. (Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil)

Desde que Donald Trump assumiu a Casa Branca pela segunda vez, as políticas externas dos Estados Unidos não se limitam mais a assassinar ou capturar ilegalmente líderes de outros países ou bombardear nações. O presidente republicano, em parceria com Elon Musk e seu órgão criado para cortar gastos públicos (DOGE), realizou um movimento um tanto mais discreto para a opinião pública internacional, mas que está custando e causará milhões de mortes: o fechamento da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), a maior agência governamental de cooperação do mundo, e o drástico corte na ajuda internacional aos países do Sul que era canalizada por meio desse órgão institucional. De acordo com um estudo publicado em julho de 2025 na The Lancet, os cortes do governo Trump na USAID causarão 14 milhões de mortes adicionais até 2030. Não se trata de uma questão exclusivamente norte-americana. O Reino Unido, a Alemanha, a França e o Japão também reduziram seus orçamentos de cooperação pela primeira vez na história.

Diante desse futuro desolador, que pode se agravar devido à crise alimentar e energética que alguns países estão enfrentando por causa dos efeitos diretos da guerra no Irã e do bloqueio do Estreito de Ormuz, bem como da crise climática, muitas vozes internacionais e organismos têm proposto medidas fiscais para amenizar as consequências dessa redução no fluxo de ajuda aos países que mais precisam. Agora, um recente estudo liderado pela organização catalã Institut de Salut Global (ISGlobal), publicado em 7 de setembro na revista The Lancet sob o título “Políticas de redistribuição de riqueza para mitigar o impacto da redução do financiamento da ajuda ao desenvolvimento: uma avaliação retrospectiva e uma análise prospectiva até 2030″, apresentou números concretos sobre as vidas que poderiam ser salvas por meio da implementação de dez medidas tributárias diferentes e sobre como essa riqueza deveria ser distribuída para reduzir os efeitos fatais da redução da ajuda internacional e da cooperação.

Entre as dez opções analisadas, um imposto sobre grandes fortunas é o que mais vidas poderia salvar. A medida tributária analisa a proposta do economista francês Gabriel Zucman, que atualmente está sendo estudada e debatida nas reuniões do G20 e em diversos parlamentos, de tributar fortunas que ultrapassem um bilhão de dólares. Seriam estabelecidas alíquotas mínimas e, caso esses bilionários já paguem esse imposto em seu país de residência, eles não teriam que arcar com ele.

A análise apresenta três tipos de resultados para três alíquotas diferentes. De acordo com o artigo publicado na revista The Lancet, uma alíquota de 1% arrecadaria cerca de 90 bilhões de dólares por ano e poderia evitar a perda de 15,1 milhões de vidas até 2030. Com um aumento para 2%, a arrecadação subiria para 217,5 bilhões e o número de vidas salvas chegaria a 23 milhões. Um imposto de 3% aplicado a apenas cerca de 3 mil bilionários poderia gerar 343,5 bilhões de dólares por ano em receita tributária, o que evitaria 29,5 milhões de mortes, sendo 3,5 milhões de crianças menores de cinco anos.

A segunda opção que poderia salvar mais vidas é o Imposto sobre Transações Financeiras (ITP), também conhecido como Taxa Tobin. Esse imposto, concebido como uma forma de desincentivar a especulação financeira de curto prazo, demonstra seu grande poder de arrecadação e de salvar vidas nos países que viram sua ajuda internacional ser reduzida. De acordo com o estudo, um imposto sobre transações financeiras poderia arrecadar 234 bilhões de dólares por ano e evitar 24,5 milhões de mortes até 2030, incluindo 2,9 milhões de crianças menores de cinco anos.

O terceiro imposto no ranking de salvamento de vidas é outro que o próprio Trump já sabotou neste mandato: a alíquota mínima global para as grandes multinacionais com faturamento superior a 750 milhões de euros. Essa alíquota mínima já está em vigor em cerca de 45 países, após a assinatura do acordo por 147 países no âmbito da OCDE. Mas Trump, logo após retomar o controle da Casa Branca, tentou bloquear o acordo e enfraquecê-lo por meio de ameaças até conseguir que ele não afetasse as empresas americanas. De acordo com o estudo, sua implementação completa poderia arrecadar 173 bilhões de dólares por ano e está associada à prevenção de 20,1 milhões de mortes até 2030, das quais 2,3 milhões correspondem a crianças menores de cinco anos.

Se o imposto mínimo sobre as multinacionais está entrando em vigor, a próxima medida analisada não visa gerar um novo tipo de receita, mas sim redirecionar para o desenvolvimento os pagamentos de juros que os países mais pobres já destinam aos seus credores. Ou seja, que o custo da dívida, que dobrou para muitos países do Sul na última década, não seja pago aos credores, mas sim revertido para os próprios países devedores. O estudo apresenta dois cenários: destinar 100% dos juros pagos a credores oficiais, o que representaria uma economia de 74 bilhões de dólares por ano, com 12,8 milhões de mortes evitadas, ou combinar 50% desses pagamentos com 25% dos juros pagos a credores privados. Essa segunda opção poderia resultar em um montante de 120 bilhões de dólares, evitando 17,7 milhões de mortes, das quais 2,3 milhões de crianças menores de cinco anos.

O imposto sobre as emissões de carbono também vem sendo debatido há anos em muitos parlamentos e já teve seu resultado na União Europeia. Além de desincentivar o uso de combustíveis fósseis, esse tipo de tributação ambiental poderia ter um enorme poder de arrecadação se fosse implementado de forma global e coordenada. De acordo com o estudo, um imposto global sobre o carbono poderia arrecadar 102,2 bilhões de dólares por ano e evitar 16,6 milhões de mortes até 2030, incluindo 2,2 milhões de crianças menores de cinco anos.

A mais recente tributação visa um dos mercados mais prósperos dos últimos anos, mas que, por sua natureza, tende a escapar mais dos olhos das autoridades fiscais: as criptomoedas. O estudo avalia duas versões: uma alíquota de 3% aplicada exclusivamente aos 10 mil maiores detentores de criptoativos arrecadaria 32,6 bilhões de dólares e evitaria 6,6 milhões de mortes. Uma segunda proposta, mais abrangente, alinhada às estimativas do FMI, arrecadaria 100 bilhões de dólares anualmente e evitaria 16,4 milhões de mortes.

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