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A Groenlândia não está à venda: a Doutrina Donroe de Trump e o imperialismo dos EUA

Para além da retórica imobiliária, a ambição de Trump de controlar Groenlândia representa um projeto de subordinação militar total do Hemisfério Ocidental

Vijay Prashad
A campanha de Donald Trump para colocar a Groenlândia sob o controle dos Estados Unidos tem sido frequentemente encarada como mera fanfarronice. Isso é um equívoco. (Foto: Daniel Torok / White House)
A campanha de Donald Trump para colocar a Groenlândia sob o controle dos Estados Unidos tem sido frequentemente encarada como mera fanfarronice. Isso é um equívoco. (Foto: Daniel Torok / White House)

A campanha de Donald Trump para colocar a Groenlândia sob o controle dos Estados Unidos tem sido frequentemente encarada como mera fanfarronice. Isso é um equívoco. Por trás da retórica de um simples negócio imobiliário, esconde-se uma tentativa séria de reviver um antigo princípio imperial: o de que Washington pode decidir o futuro político e econômico de todo o Hemisfério Ocidental. A Groenlândia, estrategicamente localizada entre a América do Norte e a Europa, tornou-se um teste para essa reivindicação — e um teste para saber se a soberania de uma pequena nação indígena tem valor quando entra em conflito com as ambições de uma grande potência.

Trump sugeriu a compra da Groenlândia durante seu primeiro mandato, em 2019. Após sua reeleição, a proposta tornou-se mais agressiva. Em dezembro de 2024, ele declarou que a “propriedade e o controle” dos EUA sobre a Groenlândia eram uma “necessidade absoluta”. Em 7 de janeiro de 2025, ele se recusou a descartar a coerção militar ou econômica contra a Groenlândia e o Canal do Panamá, afirmando: “Precisamos da Groenlândia por motivos de segurança nacional”. Posteriormente, ele insistiu que os Estados Unidos obteriam a ilha “de uma forma ou de outra”. A alegação misturava vários argumentos: a Groenlândia é vital para a defesa antimísseis, a Rússia e a China ameaçam o Ártico, os depósitos de terras raras da Groenlândia têm valor estratégico e os groenlandeses supostamente acolheriam o domínio dos EUA.

A última afirmação era comprovadamente falsa. Uma pesquisa realizada em janeiro de 2025, conduzida tanto em groenlandês quanto em dinamarquês, revelou que 85% da população da Groenlândia se opunha a deixar o reino dinamarquês para se juntar aos Estados Unidos, enquanto apenas 6% apoiavam essa ideia. No entanto, a mesma pesquisa mostrou que a maioria era a favor de uma eventual independência. Essa distinção é fundamental. O desejo dos groenlandeses de pôr fim à tutela colonial dinamarquesa não pode ser convertido em consentimento para a anexação pelos EUA.

Uma relação militar sem anexação

O argumento securitário a favor do domínio dos EUA é enganoso, pois Washington já desfruta de amplos direitos militares na Groenlândia. Essa relação teve início durante a Segunda Guerra Mundial. Com a Dinamarca ocupada pela Alemanha nazista, seu embaixador em Washington assinou um acordo de 1941 que permitia aos Estados Unidos defender a Groenlândia e construir instalações no local. A Dinamarca buscou a retirada dos EUA após a guerra, mas a estratégia da Guerra Fria prevaleceu.

O Acordo de Defesa da Groenlândia de 1951, celebrado no âmbito do Tratado do Atlântico Norte, autorizou os Estados Unidos a estabelecer e operar “áreas de defesa”. Isso possibilitou a rápida construção da Base Aérea de Thule – renomeada como Base Espacial de Pituffik em 2023 – em um local estratégico para as rotas aéreas e de mísseis mais curtas entre a União Soviética e a América do Norte. No auge da Guerra Fria, os EUA operavam inúmeras instalações por toda a Groenlândia. Hoje, Pituffik, a base militar mais setentrional de Washington, desempenha funções de alerta contra mísseis, defesa antimísseis e vigilância espacial.

O acordo oferece a Washington ampla liberdade operacional. Uma emenda de 2004 — o Acordo de Igaliku —reconheceu o governo autônomo da Groenlândia, tornou Pituffik a única área de defesa existente e exigiu consulta prévia antes de mudanças significativas ou da criação de novas áreas de defesa. Ele também estabeleceu cooperação em questões econômicas, técnicas e ambientais. Em outras palavras, se os Estados Unidos considerarem que são necessários mais radares, portos, aeródromos ou pessoal, já existe um mecanismo legal para negociá-los com a Dinamarca e a Groenlândia. A soberania, portanto, não é um requisito militar.

A história das bases também explica por que “segurança” não é uma palavra neutra na Groenlândia. Em 1953, as autoridades dinamarquesas ordenaram que 116 inughuits — 27 famílias — deixassem a recém-fundada Qaanaaq, enquanto os demais se mudaram para assentamentos em outras partes do distrito. O Camp Century foi construído sob o gelo entre 1959 e 1960 e estava ligado à proposta secreta do Projeto Iceworm para uma extensa rede de bases de lançamento de mísseis nucleares.

Em 1968, um B-52 dos EUA transportando quatro bombas de hidrogênio sofreu um acidente no gelo marinho da Base Aérea de Thule, causando contaminação por plutônio e outras substâncias. O acidente expôs a inconsistência entre a política declarada publicamente pela Dinamarca contra armas nucleares em território dinamarquês em tempos de paz e as autorizações secretas do governo dinamarquês para que os EUA armazenassem armas nucleares na Groenlândia. As instalações abandonadas deixaram combustível, resíduos e outros tipos de poluição. A cobertura jornalística groenlandesa continua a questionar quem arcará com os custos das futuras limpezas. A relação militar protegia os interesses estratégicos dos EUA, enquanto seus custos humanos e ambientais eram suportados de forma desproporcional pelos groenlandeses.

A Groenlândia deixou formalmente de ser uma colônia em 1953, conquistou autonomia interna em 1979 e ampliou seu autogoverno em 2009. A Lei do Autogoverno reconhece os groenlandeses como um povo com direito à autodeterminação e abre caminho para a independência. Washington reabriu seu consulado em Nuuk em 2020, e a cooperação cresceu nas áreas de comércio, educação, mineração e pesquisa. Os governos da Groenlândia (de Kuupik Kleist a Jens-Frederik Nielsen) têm acolhido as relações econômicas com Washington, mas rejeitam a tendência de Washington de querer cada vez mais da ilha para suas necessidades militares.

De Monroe a Donroe

A exigência de Trump em relação à Groenlândia faz parte de uma política hemisférica mais ampla. A Doutrina de Monroe, de 1823, advertiu as potências europeias contra novas intervenções coloniais nas Américas. Apresentada como anticolonial, ela evoluiu para uma reivindicação de supremacia dos EUA. O corolário de Theodore Roosevelt, de 1904, afirmou o direito de intervenção na América Latina, fornecendo cobertura ideológica para ocupações, mudanças de regime e controle sobre ativos estratégicos.

Os apoiadores de Trump rebatizaram a sua mais recente versão de “Doutrina Donroe”. O rótulo vincula a pressão sobre a Groenlândia às exigências relativas ao Canal do Panamá, às ameaças contra Cuba e a Colômbia, às reivindicações sobre o Canadá e à intervenção dos EUA na Venezuela. No final de 2025, a Casa Branca proclamou formalmente um Corolário de Trump à Doutrina Monroe, afirmando a liderança dos EUA em todo o “nosso hemisfério”. A Groenlândia é arrastada para essa esfera porque, geograficamente, faz parte da América do Norte, embora esteja politicamente ligada à Dinamarca e seu povo inuíte possua seu próprio direito à autodeterminação. Essa doutrina contém uma contradição reveladora. Trump denuncia o controle europeu sobre a Groenlândia como um anacronismo, ao mesmo tempo em que exige que a ilha seja transferida para os Estados Unidos. O colonialismo não é abolido; apenas o colonizador proposto muda. As referências de Trump a minerais, rotas marítimas e geografia militar reduzem a Groenlândia a um ativo e seus 56 mil habitantes a um obstáculo em uma transação entre potências.

Uma crise dentro da aliança ocidental

As ameaças de Trump produziram uma ruptura extraordinária entre os Estados Unidos e a Europa. A Dinamarca não é um adversário, mas um aliado da OTAN cujas tropas lutaram ao lado de soldados americanos no Afeganistão. A ameaça de tomar território de um aliado à força ataca a própria premissa da aliança. A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, alertou que um ataque dos EUA a outro país da OTAN significaria o fim da ordem de segurança do pós-guerra. Os governos europeus se uniram em torno do princípio de que as fronteiras não podem ser alteradas por coerção — princípio que invocam contra a Rússia na Ucrânia.

A crise expôs a dependência da Europa. A OTAN não dispõe de um procedimento adequado para defender um membro contra seu membro mais forte. Os Estados europeus dependem fortemente do poder militar dos EUA, ao mesmo tempo em que lhes é pedido que resistam à coerção dos EUA. Copenhague respondeu com diplomacia cautelosa, aumento dos gastos militares no Ártico e a insistência de que as decisões cabem à Groenlândia e à Dinamarca. França, Alemanha, os países nórdicos e a União Europeia expressaram solidariedade, mas o episódio intensificou os apelos por autonomia estratégica europeia. Também prejudicou a pretensão de Washington de liderar uma aliança de democracias contra o revisionismo autoritário.

Em 18 de setembro de 2026, Trump anunciou um acordo de segurança trilateral em fase de finalização após meses de negociação, reivindicando “controle permanente” sobre a segurança da Groenlândia. Os líderes dinamarqueses e groenlandeses descreveram o acordo de forma mais restrita: uma expansão da cooperação militar com os EUA que preserva a soberania e a autodeterminação da Groenlândia. O texto completo ainda precisa ser assinado e aprovado. Se essa versão se confirmar, o resultado confirma o que já era evidente desde o início: os Estados Unidos poderiam obter acordos de segurança adicionais sem precisar se apropriar da Groenlândia. No entanto, a pressão que precedeu o acordo continua sendo um alerta sobre negociações conduzidas sob ameaças.

A Groenlândia fala por si mesma

A resposta da Groenlândia combinou rejeição, unidade e complexidade política. Kalaallit Nunaat — o nome groenlandês para o país — tornou-se o centro das declarações de que a Groenlândia pertence ao seu povo e não está à venda. Em março de 2025, grandes manifestações em Nuuk, Sisimiut e Qaanaaq marcharam sob a bandeira vermelha e branca de Erfalasorput. Os manifestantes exigiram que Trump respeitasse os inuítes, seu país e sua nacionalidade. Os partidos políticos da Groenlândia, apesar das profundas divergências sobre o ritmo e os termos econômicos da independência, condenaram conjuntamente a pressão externa. O Parlamento proibiu doações políticas estrangeiras e anônimas, defendendo explicitamente a integridade da democracia groenlandesa em meio ao interesse das grandes potências.

O colonialismo dinamarquês deixou feridas profundas: assimilação forçada, engenharia social, desenvolvimento desigual e decisões tomadas em Copenhague sobre as terras e o povo da Groenlândia (toda a quarta temporada da popular série de televisão Borgen, em 2022, girou em torno de um conflito entre Copenhague e Nuuk sobre a descoberta de um novo campo de petróleo, com envolvimento da China e da Rússia). Muitos groenlandeses desejam a independência, e alguns veem o crescente interesse dos EUA como uma alavanca para atrair investimentos e estabelecer uma relação mais igualitária com a Dinamarca.

A Groenlândia revela o verdadeiro conteúdo da Doutrina Donroe: uma afirmação do século XXI de que a geografia confere a Washington direitos superiores sobre os povos vizinhos. A resposta da Groenlândia é igualmente moderna e universal. A localização estratégica não anula a soberania popular, os minerais não apagam a identidade nacional, e nenhuma grande potência adquire um país simplesmente por declarar que precisa dele.

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