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O problema não é um general

Demissão do general Gonçalves Dias do GSI mostra que é um erro supor que problema militar seja questão de “politização” e de desvios individuais de generais.
Demissão do general Gonçalves Dias do GSI mostra que é um erro supor que problema militar seja questão de “politização” e de desvios individuais de generais. Por Pedro Marin | Revista Opera
O general Gonçalves Dias, então ministro-chefe do GSI, no Palácio do Planalto durante os atos golpistas do 8 de janeiro. (Foto: Reprodução/CNN Brasil)

Na última quarta-feira (19), o general Gonçalves Dias, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) do governo Lula, pediu demissão, após imagens do circuito interno do Palácio do Planalto divulgadas pela CNN Brasil o mostrarem na antessala do gabinete do presidente da República durante os atos golpistas do dia 8 de janeiro. Nas imagens, Dias chega ao terceiro andar, confere as salas e, encontrando alguns golpistas, aparentemente os orienta a se retirarem para o segundo andar.

Isto é: quanto a Dias, as imagens fundamentalmente não mostraram nada comprometedor. Ressalte-se: situação bastante distinta da de outros membros do GSI que, apesar de aparecerem colaborando estreitamente com os golpistas, tiveram seus rostos censurados no vazamento das gravações, licença que não foi dada ao general. Mais um fato relevante: no dia em que os vídeos foram divulgados, Dias deveria prestar esclarecimentos sobre o 8 de janeiro na Comissão de Segurança Pública da Câmara dos Deputados. Com a divulgação das imagens, cancelou sua ida à comissão alegando problemas de saúde. A Comissão de Segurança Pública é a mesma que tem sido usada como tenda de circo por deputados da extrema-direita. O modus operandi de convocar membros do governo para tentar apedrejá-los se repetiu com o ministro da Justiça, Flávio Dino, no dia 11 de abril, e com o ministro de Direitos Humanos, Silvio Almeida, no dia 12.

Às perguntas, portanto: 1 – Quem vazou os vídeos à CNN Brasil? 2 – Os vídeos já foram vazados à CNN Brasil com os rosto de membros do GSI censurados ou, como diz a emissora, foram eles quem optaram por “não identificar os militares do GSI”? Porque há essa diferenciação entre o ex-ministro-chefe do GSI – que tem seu rosto exposto nas imagens, embora elas não o mostrem colaborando com os golpistas – e outros membros do GSI – que têm seus rostos borrados, embora estejam sem dúvidas colaborando com os vândalos? 3 – O que explica que as imagens tenham sido divulgadas, convenientemente, no dia em que o ex-ministro-chefe do GSI prestaria esclarecimentos na Câmara?

A sucessão de coincidências deixa óbvio que o vazamento de imagens foi coordenado com a ida de Dias à Câmara. Que ele apareça de rosto limpo, enquanto os subordinados do ex-ministro-chefe do GSI de Bolsonaro, Augusto Heleno, tenham seus rostos censurados, evidencia que quem quer que tenha vazado as imagens tinha Gonçalves Dias como alvo tanto quanto tinha tais subordinados do GSI como amigos – ou companheiros. O quebra-cabeças, nada complexo, é completado pela pressão da oposição no Parlamento, que há meses vem sugerindo que o 8 de janeiro consistiu em algum tipo de armação petista e exigindo a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar esta hipótese – ou, melhor dito; para que a CPI sirva como mais uma tenda de circo para a tropa de choque de extrema-direita no Congresso fazer sua balbúrdia costumeira.

Constatar o óbvio não significa, de forma alguma, uma defesa de Gonçalves Dias. O agora ex-ministro-chefe do GSI poderia até ter a confiança de Lula, por ter trabalhado ao seu lado durante seus dois primeiros mandatos. Não a deste articulista. Sempre insistimos que, tratando-se de generais, a confiança cega é uma armadilha, e que a medida mais básica de segurança é a desconfiança permanente. Razões abundam: primeira, a história já demonstrou, em casos bastantes distintos, de Deodoro da Fonseca e D. Pedro II, passando por Vargas e Dutra, Amaury Kruel e Jango, Pinochet e Allende, que muitas vezes é no general que mais se confia que a senha do golpismo surge.

Segunda: se é verdade que houve no passado militares progressistas, nacionalistas, comunistas, legalistas e democratas – o arquétipo do “bom militar” tornou-se o marechal Henrique Teixeira Lott, e hoje há quem procure este arquétipo em todos os cantos da caserna  –, também é verdadeiro que todos foram perseguidos, aniquilados e extirpados das Forças Armadas após o golpe de 1964. A reorganização interna das Forças Armadas a partir de 1964 excluiu qualquer elemento avançado de seus quadros superiores, assim como limpou a caserna de qualquer pendor efetivamente nacionalista, consolidando em seu lugar a Doutrina Golbery, na qual o comunismo reaparece como questão de segurança interna e internacional e a tese do alinhamento automático aos EUA toma forma no campo da “segurança hemisférica”. Não está em questão se há, ainda hoje, militares valorosos nas Forças Armadas – a questão é, entre os que o são, quais são suas chances de subirem até generalato numa instituição que tomou o anticomunismo mais paranóico e a colaboração com o imperialismo como doutrina oficial.

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Por fim, a terceira razão: mesmo nos fatos históricos citados no primeiro caso, como na eventualidade de militares comprometidos com o povo ascenderem ao generalato hoje, o fundamental para explicar a inclinação ao golpismo não é a explicação fácil da “traição”. Há de se compreender que, nas Forças Armadas, o peso do “espírito de corpo” e da decisão conjunta tomam um grau raramente visto nas organizações civis em geral – que tendem a valorizar, se não o individualismo, de certo a individualidade. Assim, pouco importava se Deodoro era aliado de D. Pedro, se Dutra efetivamente era aliado de Vargas, se Kruel não queria embarcar no golpe ou se Pinochet tivesse tido, em algum momento, uma posição antigolpista: todos seriam inevitavelmente arrastados, acima de tudo, pela lealdade mútua estabelecida dentro do órgão militar – lealdade esta que no geral está acima das convicções pessoais mais íntimas. O que Keegan chamou de “tribalismo” entre os militares e Oliveiros Ferreira apontou como um dos valores constitutivos da “honra militar” não é só um valor típico dos militares por razões culturais – pelo contrário, torna-se valor típico, cultural, por razões bem objetivas. Dois generais isolados num grupo de dez, por poucos que sejam, mantêm ainda um controle sobre um número considerável de tropas – mantêm, portanto, um poder considerável. Por outro lado, três estúpidos soldados no meio de cem, por poucos que sejam, carregam ainda armamentos capazes de causar bastante estrago. Esse vínculo, que toma caráter cultural e afetivo, tem por trás de si, portanto, a mais objetiva das razões: o fato de que um homem armado é capaz de matar, e que os soldados, coletivamente, são aqueles que, como indivíduos, fizeram um juramento de fidelidade à morte. Que estes homens que, individualmente, são capazes de matar, se tornem coletivamente uma máquina de matar: este é o sentido da “solidariedade militar” – que não por acaso não se estende aos cidadãos “paisanos”, os civis; aqueles incapazes de matar e que não pactuaram a própria morte.

Isso tudo para reafirmar que o problema da ocupação das Forças Armadas da cena política não é uma questão resumível a indivíduos desviados de suas funções: diz respeito ao papel concedido à própria corporação armada no Estado, e ao desejo desta corporação de tomar as rédeas deste Estado. Nesse sentido, vale relembrar, como temos insistido, que o grave no que tange o 8 de janeiro e as Forças Armadas não são eventuais participações, colaborações ou anuências de militares com os golpistas, mas a colaboração ativa, muito anterior – de novembro de 2022 – das três Forças, quando emitiram nota em defesa da manutenção dos atos golpistas em frente aos quartéis do Exército.

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Ali não falavam os três comandantes como indivíduos – o da Marinha, do Exército e da Aeronáutica –; mas sim a própria Marinha, o próprio Exército, e a própria Aeronáutica, como instituições armadas. Que tenha sido nota emitida pelas três Forças confere à nota um segundo aspecto: que, além das três Forças individualmente, quem falavam eram os militares como comunidade.

Ver as coisas desta forma implica dizer que o problema das Forças Armadas na política não será resolvido internamente, nas próprias Forças Armadas; que não basta mudar alguns militares de cargo, “despolitizar” as Forças ou promover algumas alterações institucionais; que é inútil e perigoso trocar comandantes golpistas por outros, que fazem discursos legalistas com o mesmo objetivo dos primeiros; enfim, que estas forças haverão de ser confrontadas pelo mesmo Estado e povo que buscam tutelar e confrontar. Ver o problema de outra forma – como um desvio de alguns vários militares e seus comandantes – é o que permitiu não só que o 8 de janeiro se realizasse sob um chefe do GSI que tinha a confiança do presidente, mas não o controle sobre seus liderados, mas também que este chefe do GSI tenha se demitido, meses após o 8 de janeiro, por um vazamento que tem todas as digitais destes mesmos subordinados.

Jogado nas sombras após o 8 de janeiro, lustrado pelas belas palavras do comandante Tomás Miguel Paiva, decretado coisa do passado pelas “boas relações” entre governo e militares, o Partido Fardado parece ter acabado de retornar à cena, ainda um tanto incógnito, para derrubar um general. O governo seguirá tratando os militares como indivíduos, procurando desesperadamente os “bons frutos” na macieira podre? Seguirá insistindo na necessidade de uma dita “despolitização” das Forças Armadas, enquanto ignora a “militarização” da política? Apostará no Deodoro, no Dutra, no Kruel, ou no Pinochet da vez, no “homem de confiança”, crendo ter encontrado um Lott? Ou reconhecerá o óbvio: que não haveria colaboração de ninguém do GSI com golpistas, e provavelmente nenhum vazamento de imagens, se não houvesse mais GSI?

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