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China e Índia: dois gigantes condenados a se relacionarem

A influência que China e Índia exercem ao seu redor é tão grande, a gravidade que geram é tão imensa, que elas inevitavelmente condicionam-se uma à outra
Eduardo García Granado
O presidente chinês, Xi Jinping, e o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, durante encontro dos líderes do BRICS em 2017. (Foto: Presidential Press and Information Office / Kremlin)

O monge budista Xuanzang visitou, no século VII, a cidade de Nalanda, hoje localizada no estado indiano de Bihar. A fama desse Ch’an religioso colaborou muito para que algumas de suas reflexões sobrevivessem à passagem do tempo. A maneira mais comum de se referir à Índia na China naquela época era provavelmente Tianzhu, embora Xuanzang tenha concordado em usar Yìndù (印度), um nome que permanece válido até hoje. “Todos os seres vivos giram infinitamente na roda da transmigração durante a longa noite da ignorância, sem nenhuma estrela para guiá-los. […] A luz brilhante dos homens santos e sábios, que guia o mundo como o brilho da lua, tornou este país ilustre e, por isso, ele é chamado de Yìndù. […] A lua tem muitos nomes, e este é um deles”. Ele disse sem rodeios: a Índia é a lua brilhante do mundo.

A influência do budismo, nascido das entranhas da Índia, em toda a história chinesa, é inquestionável. E, embora esse histórico possa levar alguém a pensar o contrário, as relações entre os dois estados nas últimas décadas não foram nada tranquilas, estando mergulhadas em uma mistura escorregadia de conveniência e desconfiança.

A virtude é um elemento central do pensamento confucionista que se estende à sua própria visão do mundo e das relações entre os países. A máxima “Xiu shen, qi jia, zhi guo, ping tianxia“, ou “cultivar o eu, regular a família, governar o estado e harmonizar o mundo” aparece no livro Grande Aprendizado (Dà xuě) como uma máxima: todas as pessoas, todos os países e, em geral, todos os assuntos podem favorecer a harmonia global. É justamente a harmonia no sistema-mundo um dos elementos confucionistas que o Partido Comunista Chinês vem resgatando para sua atuação desde antes da liderança de Jiang Zemin (1993-2003). Vangloriar-se de Confúcio parece mais amável do que se vangloriar da energia nuclear.

Há um ponto em comum com o governo de Narendra Modi. A Índia tem cerca de 150 ogivas nucleares, um pouco menos da metade do que a República Popular da China. Mais importante ainda, um pouco menos do que o Paquistão. O primeiro teste de uma arma nuclear de fissão da Índia foi em 1974: seu nome, “Buda Sorridente”. O da China, em 1964, foi chamado simplesmente de “596”. Embora essa comparação seja meramente anedótica, ela está ligada a duas maneiras diferentes de operar em escala internacional. Enquanto a China oferece ao resto do mundo o que ela define como relações win-win (muitas vezes ignorando seu próprio tamanho e poder), o governo do chaiwalla Modi decidiu levar Bollywood, Ayurveda e muita ioga como seu estandarte.

O elefante e o dragão

Em 2015, a ONU celebrou o Dia Internacional da Ioga após uma intensa campanha do recém empossado primeiro-ministro indiano. Essa prática parece ser tão relevante para seu governo que foi a ponta de lança de seu primeiro discurso na Assembleia Geral da ONU em 2014, uma encenação que apenas deu a entender o que seria a espinha dorsal de seu projeto político: o nacionalismo hindu ou Hindutva. “A ioga não se trata apenas de exercícios, mas de uma forma de descobrir o senso de identidade consigo mesmo, com o mundo e com a natureza”, disse ele. É justamente o enaltecimento dessa identidade hindu como um objeto totalizante que permite conter, por meio da negação, as diversas formas de ser indiano, que se chocam com o esforço de muitos governos, desde Gandhi, para amalgamar as diferenças e transformar essa pluralidade na “Marca Índia”. Fora das fronteiras da Índia, Modi se esforça para mostrar o lado amigável e inclusivo do hinduísmo, sem deixar de dificultar o acesso à cidadania da população não-hindu.

Se a imagem que um país oferece aos outros é importante, a cautela e as reservas com que ele olha para o exterior são ainda mais importantes. Em grande parte dos círculos de pensamento político da China, é possível perceber a desconfiança que muitos governos e sociedades ocidentais têm por parte do projeto do PCCh. Acredita-se que, por meio de “valores universais”, “forças ocidentais hostis” buscam distorcer o curso do país e sua reforma.

Em 2014, Xi Jinping propôs que o PCCh aderisse ao conceito de “Visão Geral da Segurança Nacional”. “Observando a segurança do povo como meta; a segurança política como princípio fundamental; a segurança econômica como base; a segurança militar, cultural e social como garantia; e a promoção da segurança internacional como fonte de apoio, forjaremos o caminho da segurança nacional com características chinesas.” O conceito de “características chinesas” não é menos importante. Nesse caso, a segurança nacional inclui a noção de segurança ideológica. Ou seja, uma situação em que a ideologia dominante está relativamente segura e livre de ameaças internas e externas.

E se na China ficou explícita a vontade de garantir o socialismo com suas próprias características como guia para a nação, na Índia o governo do partido Bharatiya Janata (BJP) abandonou sua moderação inicial e tentou erigir o Hindutva (nacionalismo hindu) como ideologia de Estado. Essa radicalização coincide com a vitória de Modi em 2019, que lhe deu 303 dos 545 deputados na Lok Sabha (Parlamento). Na verdade, o Hindutva tem suas raízes no período colonial britânico ou Raj (1858-1947). Intelectuais como Madhavrao Golwalkar acreditavam que os dias gloriosos da civilização hindu haviam sido “contaminados” principalmente pelas invasões cristã, muçulmana e britânica. Golwalkar e outros fundaram o Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS) em 1925, uma organização da qual o próprio Modi era membro, que possibilitou sua ascensão, de um vendedor de chá a governador do complexo estado de Bukharaat (2001-2014) e que ele mesmo emprega agora como uma força de choque não-oficial.

A marca das ideias fundamentais do RSS no governo de Modi é evidente em sua visão da população muçulmana como um inimigo “poluidor”, internamente, ao excluí-la da identidade indiana, e externamente, ao colocar o conflito com a República Islâmica do Paquistão no centro de sua política externa. Crucial para o sempre tenso equilíbrio nuclear, militar e de propaganda entre o próprio Paquistão e o estado indiano é o desejo da China de aumentar o tamanho de sua esfera de influência na região, especialmente desde que a segunda revolução do PCCh, liderada por Deng Xiaoping, Hu Yaobang, Zhao Ziyang e outros setores do partido, catapultou o crescimento econômico do dragão.

As políticas externas dos dois gigantes asiáticos se cruzam em muitos pontos pela própria inércia. A influência que ambos os países exercem ao seu redor é tão grande, a gravidade que geram é tão imensa, que eles inevitavelmente condicionam-se um ao outro. Apesar da divergência ideológica inicial, o Paquistão, desde sua fundação em 1947, via com bons olhos a possibilidade da China crescer em tamanho e poder para servir de contrapeso à Índia. Em 1956, Zhou Enlai e Huseyn S. Suhrawardy assinaram o Tratado de Amizade Sino-Paquistanês, um passo fundamental em um relacionamento próximo que se manteve até os dias atuais.

A divisão do Raj britânico deu origem ao que ainda hoje é uma das fronteiras mais tensas do mundo: a fronteira indo-paquistanesa. As batalhas “dançantes” que frequentemente ocorrem entre as forças armadas de um lado e do outro, sob os aplausos dos torcedores nacionais que comparecem à linha divisória dos países, podem confundir uma pessoa de fora, mas o conflito parece tão comum quanto o pani puri nas ruas de Delhi. E, é claro, a presença da China no conflito é sentida. Na prática, ela apoia o Paquistão na questão da Caxemira, enquanto o Paquistão está do lado do PCCh em Taiwan, no conflito do Tibete e nas questões de Xinjiang.

Nesse idílio, o elemento militar é fundamental. Como o próprio Ministério das Relações Exteriores do Paquistão reconhece em seu site, “a colaboração na área de defesa forma a espinha dorsal do relacionamento. […] A cooperação engloba intercâmbios militares de alto nível, conversas estruturadas sobre defesa e segurança, exercícios conjuntos, treinamento de pessoal nas instituições da outra parte, produção conjunta de defesa e comércio de defesa”. Por outro lado, o comércio entre os dois países é extenso e contínuo, o que não é insignificante. O fato da China ser a maior parceira comercial do Paquistão não é uma grande surpresa. Afinal de contas, ela é um importante parceiro comercial de muitos países em desenvolvimento, por meio de seus investimentos em infraestrutura. Um garante o investimento e a energia de que precisa, enquanto o outro obtém uma porta de entrada privilegiada para o mercado islâmico. Entretanto, ser o principal parceiro comercial de um de seus vizinhos enquanto ele está em um cabo de guerra com outro mais poderoso dificulta a coexistência regional. A China tenta ser neutra de acordo com sua doutrina de relações internacionais, mas seus laços estreitos com o Paquistão dificultam seu relacionamento com a Índia.

Por outro lado, Mao dizia que tudo é dialética. Ou seja, todo fenômeno tem seu oposto por meio do qual sua existência é explicada. Acontece que a Índia também influencia, por meio de sua política externa, questões que estão arraigadas na sociedade chinesa há décadas. Em 1951, a China concluiu a anexação do Tibete após derrotar seu fraco e solitário exército, acabando com o que havia sido o território “tampão” entre ela e a Índia por séculos. Desde então, o exemplo da Região Autônoma do Tibete reforçou na Índia o receio em relação ao que eles veem como uma essência expansionista que acompanha a China. Popular na Índia, embora difícil de analisar, é a noção dos “cinco dedos”. De acordo com essa crença, Mao e, consequentemente, o Partido Comunista Chinês, teriam uma vontade expansionista que alcançaria os territórios de Ladakh, Nepal, Sikkim, Butão e Arunachal Pradesh. Apesar do alto grau de especulação em torno dessa convicção, ela fornece percepções interessantes sobre como a Índia percebe a China.

Em tibetano, a China é chamada de “Gyanak”, que pode ser traduzido como “Terra Sinistra” ou “Terra Profana”, enquanto a Índia é chamada de “Gyakar”, “Terra Sagrada” ou “Terra Branca”. Em 1959, após a dissolução do governo tibetano local por Pequim e o exílio do 14º Dalai Lama na Índia sob a proteção da CIA, o líder do budismo tibetano formou um governo no exílio que perdura até hoje. Entretanto, o grande volume da influência chinesa no planeta torna extremamente difícil para os tibetanos mobilizarem Estados – mas não celebridades – para sua causa.

Nem mesmo a Índia apoia explicitamente a iniciativa secessionista, embora ofereça refúgio a monges e migrantes. Estima-se que 100 mil tibetanos vivam no exílio sob a proteção do elefante asiático. O governo chinês, como se pode imaginar, não vê com bons olhos essa ação, que se tornou uma política de Estado. Se há algo que caracteriza os países socialistas, é sua ânsia de rejeitar a interferência de terceiros estados, especialmente no caso do PCCh. Esse fato, juntamente com a ligação sino-paquistanesa mencionada anteriormente, sobrecarrega ainda mais o equilíbrio precário que existe em vários pontos da fronteira entre as duas potências.

Hindi Chini bhai bhai

Jawaharlal Nehru foi o primeiro-ministro da Índia desde a independência em 1947 até sua morte, em 1964. A cultura popular nacional atribui a ele o slogan “Hindi Chini bhai bhai“, que pode ser traduzido como “Índia e China são irmãs”. Sua posição contra as reivindicações territoriais do país vizinho, inicialmente ingênua e mais tarde fracassada, fez com que sua figura histórica fosse rotulada como morna. Atualmente, alguns setores da sociedade indiana ainda veem Nehru como um presidente que permitiu que a China avançasse militarmente nos territórios indianos para completar seu “esforço de libertação” na Ásia.

Às vezes, é mais fácil declarar grandes amizades do que mantê-las, uma abordagem que é reforçada quando se observa o desenvolvimento histórico das relações sino-indianas. O nacionalismo de dois países outrora coloniais que hoje ocupam a posição de, no mínimo, potências regionais, inevitavelmente levou a choques de interesses. Já se foram os anos do “Hindi Chini bhai bhai“, se é que essa ideia tinha alguma profundidade. A linha McMahon, traçada em bases arbitrárias e coloniais pelo Reino Unido, continua sendo a fronteira oficial entre os dois estados até hoje. Os territórios de Aksai Chin e Arunachal Pradesh testemunharam a guerra sino-chinesa de 1962 e, desde então, pequenos focos de conflito se desenvolveram ali e em áreas como Ladakh. Embora durante décadas após a guerra houvesse uma realidade de paz tensionada na fronteira, desde 2013 a disputa se intensificou tremendamente.

Coincidindo com a ascensão de Xi Jinping e Narendra Modi às lideranças das duas nações, houve uma escalada de tensão que finalmente levou às escaramuças de 2020. O fato dos dois estados terem concordado em não usar armas de fogo na fronteira não torna a eclosão da violência absolutamente impossível, como pôde ser visto em vários pontos em Ladakh e Sikkim, mas parece limitar as possibilidades de escalada para um conflito armado. O estabelecimento de acampamentos em ambos os lados da divisão dificulta o nexo e afeta a política interna dos dois países. Na Índia, de fato, certas facções nacionalistas – especialmente no Twitter e em outras mídias sociais – começaram a se referir ao primeiro-ministro como “ModiXi”, em um trocadilho de três pontos: “ModiXina”, “ModiXi Jinping” e “Modiji”, sendo “ji” um slogan carinhoso, geralmente usado em um tom sarcástico idêntico ao usado às vezes para se referir a Nehru(ji).

Em suma, a influência que a China e a Índia exercem no Leste Asiático, no Sudeste Asiático e na Ásia Central é tão grande quanto as relações entre as duas são decisivas: de fato, há muitos atores secundários que dependem particularmente das decisões que um tome em relação ao outro, como é o caso do Paquistão ou da Coreia do Norte. Além disso, parece que uma parte crucial da legitimidade de um governo, especialmente do lado indiano, como Modi está experimentando em primeira mão, é extraída do tipo de laços que ele cria com seu país vizinho.

(*) Texto de Eduardo García Granado

(*) Tradução de Raul Chiliani

El Salto El Salto é um meio de comunicação social autogerido, horizontal e associativo espanhol.

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