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Lênin na América

A moda atual de empregar as ferramentas do leninismo em busca de fantasias reacionárias baseia-se em uma compreensão grosseira e superficial das ideias de Lênin

Dylan Riley
Lênin em 1920. (Foto: Pavel Semyonovich Zhukov / Domínio Público)
Lênin em 1920. (Foto: Pavel Semyonovich Zhukov / Domínio Público)

Como devemos nos relacionar com a tradição leninista? Como extrair sua verdade? A base do sucesso de Lênin foi a perfeita adaptação de sua estratégia política ao terreno histórico da Rússia czarista, com sua estrutura agrária ainda quase feudal, seu Estado absolutista e sua burguesia submissa. Mas os bolcheviques erroneamente tiraram dessa experiência a conclusão de que haviam descoberto uma fórmula geral para a transformação revolucionária: um partido de quadros revolucionários em tempo integral com o objetivo de tomar o poder estatal. 

Essa generalização era, evidentemente, uma distorção, pois Lênin era um pensador político altamente sofisticado, que compreendia a importância de vincular o projeto socialista ao movimento democrático contra a autocracia czarista. Mas, após a revolução, instalou-se um certo esquematismo, especialmente com a criação da Internacional Comunista e a exigência de que todos os partidos filiados aderissem aos seus 21 pontos. Isso forçou um processo doentio de divisão que enfraqueceu gravemente o movimento socialista internacional. (Essa não foi a única razão para sua fraqueza: a invasão do jovem Estado socialista pelas forças armadas do imperialismo o forçou à defensiva; a social-democracia antibolchevique também desempenhou seu próprio papel deletério).

Podemos abordar a questão de como nos relacionar com o leninismo considerando como Gramsci se relacionava com ela. Gramsci foi um leninista comprometido, mas ficou famoso por saudar a vitória bolchevique como uma revolução não apenas contra o capital, mas contra O Capital. Nos Cadernos do Cárcere, ele superou a involução tecnocrática do leninismo, no sentido de que percebeu sua verdade mais profunda, ao mesmo tempo em que descartou sua carapaça histórica contingente. Ele fez isso em um código construído como uma série de alusões a Maquiavel e Bodin.

Bodin, aponta Gramsci, era apenas superficialmente antimaquiaveliano; na realidade, como o florentino, ele foi o fundador da scienza politica (ciência política), mas na França, onde a questão não era a fundação do Estado, e sim as condições de consenso a uma ordem política existente. Tanto Maquiavel quanto Bodin eram maquiavelianos, no sentido de que cada um tentava levar adiante uma estratégia política concebida para o terreno histórico em que lutava. Praticar uma política abertamente “maquiavélica” na França do século XVI seria um anacronismo histórico. Ou, para usar os termos de outra das alusões favoritas de Gramsci, um maquiavelismo explícito na França do século XVI levaria a um desastre “cadornista”: um desperdício de tropas através de um assalto direto às trincheiras.

Gramsci estava refletindo sobre o problema fundamental para todo o seu pensamento na prisão: qual era a estratégia revolucionária adequada para o Ocidente? Para Gramsci, seguir o exemplo de Lênin no Ocidente era precisamente romper com o leninismo no sentido fetichizado; partido de massas, não partido de quadros e, acima de tudo, uma relação produtiva e criativa com a cultura política revolucionária nacional-democrática específica em que se opera.

A direita americana não aprendeu essa lição. A moda atual entre pessoas como Steve Bannon, Christopher Rufo, etc., de empregar as ferramentas do leninismo em busca de suas fantasias reacionárias baseia-se em uma compreensão grosseira e superficial das ideias de Lênin. 

Eles são como o Malaparte da Tecnica del colpo di Stato (Técnica do Golpe de Estado): veem o leninismo como uma tecnologia política atemporal e, portanto, não conseguem compreender que uma estratégia leninista adequada em uma democracia capitalista desenvolvida deve romper com o próprio leninismo. Eles não percebem que Lênin, na América, aparecerá sob a forma jeffersoniana. O Lênin americano utilizará as ideias de autodeterminação, liberdade e independência. Ele atacará o Estado hamiltoniano subordinado às finanças e, cada vez mais, a comitiva de Trump. Ele elogiará a dignidade do trabalho independente, de alguma forma laminando uma ideologia de simples produção de mercadorias, a um projeto socialista. Acima de tudo, ele será o desmascarador da “corrupção”, que deve, no entanto, ser transformada em um conceito social, em vez de um slogan jornalístico. A esquerda consegue ver isso? Mais depende dessa questão do que de praticamente qualquer outra neste momento histórico.

(*) Tradução de Raul Chiliani

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