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Grande coincidência: julgamento de Netanyahu é adiado após Israel bombardear Síria

Primeiro Irã, agora Síria: para analistas, Netanyahu busca escalar guerras com objetivo de se manter no poder – e fora da prisão

Brett Wilkins
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, em 23 de janeiro de 2014. (Foto: Jolanda Flubacher / World Economic Forum)
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, em 23 de janeiro de 2014. (Foto: Jolanda Flubacher / World Economic Forum)

O depoimento do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu durante seu julgamento por corrupção foi interrompido na última quarta-feira (16) quando ataques aéreos israelenses atingiram Damasco, capital da Síria, a despeito dos esforços consideráveis dos dirigentes do país para amenizar as tensões com Israel.

A Al Jazeera informou que os ataques israelenses tiveram como alvo a sede do Ministério da Defesa sírio e as imediações do Palácio Presidencial sírio, matando pelo menos uma pessoa e ferindo outras 18 em uma escalada dramática que se seguiu à ameaça de Israel de intervir nos confrontos entre as forças governamentais e militantes drusos na cidade de Suwayda, no sul do país, e arredores. Existem aproximadamente 700 mil drusos — uma religião abraâmica descendente de um ramo do islamismo xiita — na Síria, 250 mil no Líbano e 145 mil em Israel.

O ministro da Defesa israelense, Israel Katz, disse na rede social X que “as advertências para Damasco terminaram — agora virão golpes dolorosos”.

As Forças de Defesa de Israel (IDF) “continuarão a operar com força em Suwayda para destruir as forças que atacaram os drusos até sua retirada completa”, acrescentou Katz.

O Ministério do Interior sírio anunciou posteriormente um acordo de cessar-fogo para Suwayda. O líder religioso druso Sheikh Yousef Jarbou confirmou o acordo “para interromper completamente todas as operações militares em Suwayda por todas as partes” e “integrar totalmente Suwayda ao Estado sírio”.

A Síria é o terceiro país bombardeado por Israel nas últimas 24 horas. Ataques aéreos das Forças de Defesa de Israel (IDF) contra o grupo de resistência Hezbollah, incluindo um em um campo que abrigava refugiados sírios, mataram 12 pessoas no leste do Líbano na terça-feira (15), em meio à aniquilação de Gaza que já dura 21 meses e deixou mais de 211.000 palestinos mortos, feridos ou desaparecidos, de acordo com o Ministério da Saúde de Gaza. Os ataques também seguem o bombardeio não provocado de Israel e dos EUA no Irã no mês passado, incluindo instalações nucleares civis do país.

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O momento dos ataques de quarta-feira chamou a atenção, especialmente considerando os esforços meticulosos do presidente sírio Ahmed al-Sharaa para evitar o conflito com Israel. Isso incluiu não retaliar as centenas de ataques aéreos israelenses na Síria desde o ano passado, cortar o fornecimento de armas ao Hezbollah e expressar disposição para negociar um acordo de paz com Israel – com quem Damasco está tecnicamente em guerra desde 1948.

A postura conciliatória de al-Sharaa – que em 2012 criou a Frente Al-Nusra, apoiada pela Al-Qaeda, para combater e, em última instância, derrubar o regime dinástico do ex-presidente sírio Bashar al-Assad – levou o governo Trump a suspender sanções de longa data contra Damasco. O governo dos EUA também removeu o Hayat Tahrir al-Sham, um grupo dissidente da Frente Al-Nusra anteriormente liderado por al-Sharaa, de sua lista de organizações terroristas estrangeiras.

Como foi o caso do bombardeio de Israel ao Irã em junho e da suposta obstrução de um acordo para encerrar a guerra de Gaza e garantir o retorno de reféns israelenses e outros reféns mantidos pelo Hamas, vários observadores acusaram Netanyahu de bombardear mais um país em uma tentativa de permanecer no poder, evitando um acerto de contas em seus três casos por supostos crimes de suborno, fraude e quebra de confiança. Se for condenado, o primeiro-ministro poderia pegar até dez anos de prisão.

“Israel poderia encerrar a guerra em Gaza, sentar-se à mesa com a Síria e a Arábia Saudita e até mesmo resolver suas questões com a Turquia por meio dos canais diretos que já possui”, escreveu Ragıp Soylu, chefe do escritório do Middle East Eye na Turquia, no X. “Mas Netanyahu prefere distrair seu público do julgamento por corrupção, mantendo Israel em guerra perpétua com seus vizinhos.”

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Outros acusaram Netanyahu de ordenar o ataque à Síria em uma tentativa de impedir que o Shas, partido político judeu ultraortodoxo de extrema direita, deixasse seu governo.

“Não funcionou. O Shas está saindo de qualquer maneira”, observou o acadêmico israelense-americano Shaiel Ben-Ephraim no X. “Ninguém acredita nele e ele está disposto a matar pessoas em todos os lugares para conseguir o que quer.”

Netanyahu – que, além de seu julgamento criminal no país, também é procurado pelo Tribunal Penal Internacional por supostos crimes contra a humanidade e crimes de guerra em Gaza – nega qualquer corrupção.

Em tom que ecoa sua própria descrição dos esforços para responsabilizá-lo nos Estados Unidos, o presidente americano Donald Trump chamou os processos contra Netanyahu de “caça às bruxas” e pediu que fossem arquivados. Em uma demonstração incomum de apoio, o embaixador dos EUA em Israel, Mike Huckabee, compareceu à sessão de quarta-feira do julgamento de Netanyahu no Tribunal Distrital de Tel Aviv.

“Todo esse julgamento é errado”, afirmou Huckabee, segundo o Axios.

Netanyahu é acusado de aceitar mais de 200 mil dólares em presentes de empresários ricos e de uma troca de favores em que ele concedeu a um gigante das telecomunicações centenas de milhões de dólares em isenções regulatórias em troca de cobertura midiática favorável.

(*) Brett Wilkins é redator do Common Dreams.

Common Dreams O Common Dreams é um veículo de notícias independente, sustentado pelos leitores, criado em 1997 como um novo modelo de mídia.

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