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“Cristofobia” no Chile?

A ameaça da "cristofobia" é somente a face mais infantil e despolitizada de um macartismo que nunca deixou totalmente a Pátria Grande.

A ameaça da “cristofobia” é somente a face mais infantil e despolitizada de um macartismo que nunca deixou totalmente a Pátria Grande. Por André Kanasiro | Revista Opera
Barricada em Santiago, 2019. (Foto: John Englart)

No dia 18 de outubro, a uma semana do Plebiscito por uma nova Constituição aprovado por maioria no último domingo, milhares de chilenos saíram às ruas de Santiago para comemorar o aniversário do início da eclosão social que colocou o neoliberalismo chileno nas cordas.

Essas manifestações foram motivo de escândalo no meio cristão brasileiro, já que duas igrejas — a Igreja de San Francisco de Borja, também conhecida como Igreja Institucional dos Carabineros, e a Parroquia de la Asunción — foram incendiadas durante os protestos, dando novo fôlego às acusações de “cristofobia” bolsonaristas e servindo como espantalho aos que temem os ventos da agitação social. Mas a ameaça da cristofobia é somente a face mais infantil e despolitizada de um macartismo que nunca deixou totalmente a Pátria Grande, e que hoje recupera seu furor para preservar os privilégios daqueles que raspam as migalhas do império norte-americano enquanto traem seu povo. Entender o que realmente aconteceu com tais igrejas no dia 18, portanto, é também entender o que jaz por trás da histeria conservadora.

A quem interessa queimar Jesus Cristo?

Acusar os manifestantes chilenos de cristofobia pressupõe um ódio generalizado ao cristianismo e a tudo que este representa. Esse pressuposto por si só demonstra a ignorância ou falta de caráter dos acusadores: mais de 90% da população chilena se declara cristã, e desde o ano passado muitas igrejas têm participado ativamente dos protestos pelo país. Caso houvesse um movimento antirreligioso e cristofóbico inerente às manifestações, ele seria uma minoria insignificante frente à maioria esmagadora de cristãos no Chile que saem às ruas. Para encontrar a cristofobia, então, basta identificar o movimento intolerante que reivindica o ataque às duas igrejas — afinal, seria de se esperar que uma ação direta tão significativa fosse seguida da declaração de um movimento, que reivindicasse a autoria imputando-lhe o significado desejado.

Curiosamente, nenhum movimento reivindicou os ataques. Caso o fizesse, poderíamos abrir o debate e discutir o quão válida é a destruição de patrimônios históricos em nome de uma estética decolonial ou antirreligiosa — e boa parte da esquerda, eu incluso, condenaria tais práticas. Mas como não é esse o caso, toda a discussão em torno da validade de tais atos torna-se supérflua, um artigo de fé. Não há programa político a ser condenado em incêndios misteriosos.

Há, por outro lado, a possibilidade de que pelo menos um dos ataques tenha sido uma provocação de agentes infiltrados. Um membro da Armada chilena (Marinha) foi preso com mais quatro pessoas nos arredores da Igreja dos Carabineros no momento do incêndio, enquanto o resto da manifestação se concentrava na praça Baquedano. O governo chileno, que se apressou em declarar que o marino não estava agindo sob ordens oficiais, se apressou igualmente em aliviar sua pena: sua punição é somente a obrigatoriedade de comparecer bimestralmente em juízo, enquanto centenas de manifestantes continuam em prisão preventiva. Tudo isso poucos dias após a exposição de outro carabinero infiltrado em movimentos sociais que incentivava ações diretas e ataques aos próprios carabineros, e, é claro, a dias do Plebiscito.

As distorções idólatras da imagem de Cristo

Ainda menos interessante aos nossos pastores reacionários é levar em consideração a história dessas igrejas. Clamam cristofobia porque enxergam nelas a imagem de Cristo; mas os carabineros, aos quais a Igreja de San Francisco de Borja foi entregue em plena ditadura militar, estiveram profundamente envolvidos na repressão pinochetista, que deixou mais de 3.000 mortos e desaparecidos e torturou 38.000 pessoas. Nos protestos do ano passado, os carabineros torturaram e trataram cruelmente centenas de manifestantes, além de terem participado em quase 200 casos de violência sexual, estupros e pelo menos seis homicídios. A Parroquia de la Asunción, por sua vez, foi um centro clandestino de tortura durante a ditadura militar.

Como já foi dito acima, considerar o histórico desses espaços não implica apoio à sua destruição. Mas é sintomático que nossos líderes religiosos se escandalizem com a destruição de tamanhos símbolos da repressão chilena — que se voltou com bastante brutalidade contra religiosos no passado, como também se volta hoje — enquanto silenciam frente à destruição das verdadeiras imagens de Cristo: nossos irmãos chilenos, criados à imagem e semelhança de Deus, vêm há décadas sendo torturados e assassinados por se levantarem contra um sistema que os endivida e os mantém na miséria. “Quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes,” disse Jesus. Nossos pastores, por outro lado, preferem esquecer os pequeninos e bajular os grandiosos; preferem dançar o baile dos gurus neoliberais, que pregam o Chile como exemplo de sucesso, e ignorar as pilhas de corpos sobre as quais brota o dinheiro. A cristofobia já existe há décadas, mas suas fogueiras não cheiram a madeira e cimento, e sim a carne queimada: é o culto a Mamon, ao neoliberalismo, que sacrifica os filhos de Deus nos altares do capital. E esses altares, sim, esmagaremos, até que não sobre fogo para queimar ou ídolo para adorar.

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