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Pablo Marçal: não se deve subestimar o candidato coach

Postura agressiva de Pablo Marçal é virtude: os que buscam enfrentá-lo devem ser mais combativos, não reafirmar a própria respeitabilidade frente seu despreparo

Pedro Marin
Pablo Marçal mostra uma carteira de trabalho para Guilherme Boulos durante debate. (Foto: Youtube / Reprodução)

Até aqui, o favorito nas eleições municipais de São Paulo, de acordo com as pesquisas de opinião, é o atual prefeito Ricardo Nunes (MDB), com 23% dos eleitores dizendo que votariam nele segundo a última pesquisa Datafolha. Logo atrás vem Guilherme Boulos (PSOL), com 22%, e José Luiz Datena (PSDB), com 12%. Arrisco dizer, no entanto, que o atual quarto colocado, Pablo Marçal (PRTB), também com 12%, crescerá consideravelmente até 6 de outubro, podendo chegar inclusive ao segundo turno.

Poucos pareciam levar o candidato a sério, apontado-o no máximo como uma cunha de Bolsonaro para negociar seu apoio a Nunes e, depois de sua candidatura ser mantida, como um possível “desidratador” do atual prefeito. Isso apesar de ter sido o 11º deputado federal mais votado por São Paulo nas últimas eleições, com 243 mil votos – perdeu a vaga para Paulo Teixeira (PT) porque sua candidatura foi indeferida por falta de documentos. Para que se tenha dimensão de sua força, São Paulo conta com 70 deputados na Câmara, e Marçal ficou a frente de figuras como Guilherme Derrite (12º), Marina Silva (13º), Marco Feliciano (18º), Rosângela Moro (19º), Delegado da Cunha (25º), Jilmar Tatto (32º), Sônia Guajajara (34º) e Luiza Erundina (50º). Só por esse histórico, Marçal não deveria ser desprezado.

Mas ao contrário das eleições à Câmara Federal, as eleições à prefeitura oferecem o terreno preferido de Pablo: palcos bem iluminados. Nesta disputa, Marçal, que fez fama e dinheiro como coach e influenciador nas redes sociais, prometendo “mudanças de mentalidade” e encarnando um protótipo de ubermensch, não é um entre centenas num pleito fragmentário no qual dezenas serão eleitos; mas um entre dez, dos quais poucos têm acesso às câmeras e microfones dos debates e somente um será vencedor. Não por acaso, foi após o primeiro debate dos candidatos à prefeitura, na Band, que o amplo desprezo pelo candidato se converteu em desespero.

Bem adaptado ao posto de centro das atenções, Pablo Marçal deixou completamente de lado os princípios marqueteiros do bom político – o comportado, o respeitável, o sério e o técnico – e trouxe aos debates, até agora, o polemismo agressivo e a megalomania das redes. Nas redes, o resultado já foi medido: segundo o Datafolha, houve um aumento de 1204% nas menções ao seu nome após o debate; tendência observada também pela Quaest, segundo a qual as menções a Marçal foram majoritariamente positivas (58%). Mesmo as menções negativas o ajudam: enquanto muitos buscam chamar a atenção para o seu “despreparo” e sua “agressividade”, outros tantos passam a conhecer o candidato, até então o quarto mais conhecido do eleitor, com 62% dos pesquisados dizendo conhecê-lo, bem atrás de Datena (96%), Nunes (84%) e Boulos (82%).

É certo que a popularidade na rede não necessariamente se converte em votos nas urnas. As coisas não são tão simples. Mas o que importa na relação entre política e redes, ao menos nesse caso, não é simplesmente o impacto que elas podem ter sobre a vida real em termos de quanto um candidato é conhecido ou aplaudido. É o impacto que elas já têm sobre a vida real em termos de sociabilidade, e quão de acordo com a sociabilidade o candidato em questão está.

Como Debord adiantou em seu “A sociedade do espetáculo”, a hegemonia do espetáculo provoca alterações profundas no modo de vida do homem, do consumo à produção, chegando a alterar mesmo a sua relação com o tempo. Hoje, a mediação do tempo pelo espetáculo-consumo é tal que todo nosso curto espaço de lazer há de ser preenchido com o “passar o tempo”, e a única forma de “passar o tempo” se tornou consumir: não há mais o que fazer com nosso tempo livre neste mundo em que as redes permitem a produção local de produtos distribuídos universalmente e a eternidade de momentos passageiros transformados em produtos. Mais do que isso: não é só que não temos mais o que fazer do que consumir; o tempo não gasto nisso parece tempo perdido, tempo morto; uma demonstração final de que viver, hoje, é consumir. Ocorre que, ao mesmo tempo em que o ócio é a morte em vida e o lazer é tanto produção quanto consumo, o acesso ao mercado está, literalmente, em nossos bolsos; nosso relógio biológico é acompanhado dessas pequenas bigornas brilhosas que cabem nas palmas das mãos. Em tempos em que as trombetas apocalípticas se anunciam numa Inteligência Artificial, deveríamos nos perguntar até mesmo em que medida essas bigornas são nossas extensões, e em que medida nós somos extensões delas.

Marçal não é o primeiro a compreender que esse tempo espetacular é um produtor massivo de niilismo: de jovens – pobres ou ricos – que creem não ter tempo a perder e velhos – ricos ou pobres – que estão convencidos de que viveram perdendo tempo; todos bem dispostos, por tal convicção na falta de tempo, a procurar na política soluções fáceis – soluções consumíveis, tal qual as que os distanciam da morte à medida que lhes permitem “passar o tempo” que supõem não ter. Marçal oferece isso: é o candidato que não depende de um grande dispêndio, de uma vida militante ou de um cálculo racional, e que, ainda assim, melhor incorpora o espírito da mudança. A crença de que ele é o homem que matará os problemas no peito não é, literalmente, para os que o apoiarão, mais que uma crença; uma crença que, como tal, não precisa de provas e até as dispensa; uma crença, no entanto, que não exige nada em troca, ao passo que é empolgante. 

Assim, Marçal não é um fenômeno único: o candidato performa um “tipo-ideal” baseado em Nayib Bukele, o atual presidente salvadorenho. É dali que advém sua inspiração: se constrói como um candidato “duro e combativo”, que “fala a verdade”  e tem propostas ousadas e até absurdas – no caso de Bukele, estabelecer o bitcoin como moeda nacional ou construir prisões de segurança máxima em massa; no caso de Marçal, “faróis em que se pode virar à direita”, teleféricos, bolsões de estacionamentos como soluções para o problema do transporte ou mutirões de construção para tirar as pessoas dos “campos de concentração” que são as favelas paulistanas – o dinheiro para “a maior revolução habitacional que a Terra já viu”, diz ele, existe, e se faltar, ele achará, seja no estrangeiro ou até mesmo na sua própria poupança. Isso se combina com a construção de alguém “bem-sucedido” e “antenado”, que fez sua vida a partir da internet – origem de Marçal e aspecto fundamental da persona política de Bukele. Até mesmo o boné de Bukele ele adotou, adicionando, na sua versão, um “M” bordado, que tenta usar como uma espécie de hashtag: “faz o M” – slogan propagado na internet, mas já repetido nas ruas.

Todo candidato é um produto; e na prateleira paulistana, hoje, Marçal é ao mesmo tempo o mais condizente com a sociabilidade real e o mais interessante deles. Mas, para além dessa adaptabilidade perfeita aos tempos espetaculares, não se deve deixar de considerar como o candidato consegue transferir o enorme poder midiático que tem para a vida real. Assim como muitos consideravam, com razão, que Datena era um nome forte por suas décadas na TV, não se deve ignorar a força que Marçal construiu na internet – em suas próprias redes, se oferecendo como coach, mas especialmente nas redes de outros influenciadores, dos campos os mais diversos, aos quais teve acesso precisamente a partir dessa persona. Marçal fez um movimento interessante na sua trajetória, entendendo a tendência fragmentária da internet para, a partir de sua própria “bolha” de coach, entrar em outras antes de se tornar candidato. Para além de sua própria e limitada base, ele conquistou o apoio de empresários, de funkeiros, de gamers, de fisiculturistas, de religiosos, etc., porque antes de se lançar como candidato “frequentou” os espaços virtuais dessas pessoas; entendeu que o eleitor, no tempo do hiperconsumo, é multifacetado: pode ser da classe A ou D, católico ou evangélico, homem ou mulher, jovem ou idoso, tal qual nas classificações eleitorais tradicionais; mas também ser gamer, ou funkeiro, ou rato de academia, ou aficionado por carros, etc. Para além das classificações sociológicas, o homem no tempo do hiperconsumo acelerado é também definido pelo o que consome ou busca consumir. O candidato-coach provavelmente definiria a tática com um de seus termos preferidos: fez “networking”. Em suas palavras: “por que networking? Porque todo mundo tem um campo de energia. Eu capturo campos de energia e começo a explodir minha energia”.

Muito além dos amplos “grupos de consumo” que explorou a partir da internet, Marçal oferece ainda dois afetos-chave a quem nasceu do lado errado da vida e da cidade: combatividade e esperança. São dois simulacros, é óbvio, mas em meio a candidatos perfeitamente esquadrinhados pelos marqueteiros para parecerem solenemente sérios e naturalmente bons, as paródias de Marçal parecem muito mais reais. Quando a vida é dura, bom-mocismo demais parece estupidez ou hipocrisia: a combatividade de Pablo nos debates não é tão violenta quanto a vida rotineira; o comportamento ajustado, típico dos candidatos tradicionais, é que é celestial. E quando a vida é dura, o que se tem é a esperança de que as coisas melhorem: mas essa “melhora” é, na imaginação de quem a espera, muito concreta. Os terrenos na lua vendidos por Marçal não são menos concretos do que uma “boa gestão”, um “olhar para os pobres” ou um “compromisso de vida” – mas são certamente mais envolventes. A compreensão da política ou da vida como uma “guerra” e a necessidade de manter o moral elevado por meio da “esperança de mudar” é oferecida por Marçal tanto quanto por qualquer igreja neopentecostal na esquina mais próxima: como se pode constatar, são coisas populares. 

A estrada até outubro é longa, e haverá muitas pedras no caminho e também muitas cascas de banana, mas se nossa medida for estas primeiras semanas de debates e campanha, não será impressionante se Marçal acabar indo ao segundo turno no lugar do atual prefeito. E mesmo que este não seja o caso, mesmo que seja derrotado nesta eleição, a virtú que Marçal revela agora não é desprezível para qualquer outra disputa ou a qualquer outro cargo.

Para enfrentá-lo, e a outros congêneres que certamente aparecerão, a chave não é se adaptar às lógica das redes, nem buscar uma diferenciação pela “respeitabilidade” e “seriedade”, mas sim oferecer esperanças concretas mais profundas e uma combatividade ainda mais decidida e sem que sejam simulacros.

(*) Pedro Marin é editor-chefe da Revista Opera. É autor de “Aproximações sucessivas – o Partido Fardado nos governos Bolsonaro e Lula III (Escritos: 2019-2023)”.

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