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A desistorização do tempo

Cessada a percepção do tempo como história, o que resta é a cultura como evasão da realidade, portanto como consumo

Frei Betto
Para o professor Milton Santos, o nosso projeto de sociedade está, hoje, ancorado em bens finitos, quando deveria ancorar-se em bens infinitos. Se os bens são finitos e o desejo infinito, a antinomia causa frustração para quem centra neles a razão de seu existir. Centrado em bens finitos, o desejo não encontra satisfação. E acrescento, à luz da teologia: o apetite do desejo é infinito porque tem gula de Deus. (Foto: Jonathan McIntosh / Wikimedia Commons)
Para o professor Milton Santos, o nosso projeto de sociedade está, hoje, ancorado em bens finitos, quando deveria ancorar-se em bens infinitos. Se os bens são finitos e o desejo infinito, a antinomia causa frustração para quem centra neles a razão de seu existir. Centrado em bens finitos, o desejo não encontra satisfação. E acrescento, à luz da teologia: o apetite do desejo é infinito porque tem gula de Deus. (Foto: Jonathan McIntosh / Wikimedia Commons)

Enfrenta-se, hoje, um processo de desistorização do tempo. Nessa crise da passagem da modernidade para a pós-modernidade, surge a dificuldade de consolidar valores como, por exemplo, a ética. Não existe projeção, prospecção, estratégia, sem a concepção do tempo como história. Esta é seguramente uma das melhores heranças recebidas pelo Ocidente. Sofre agora o risco de descaracterizar-se. Os gregos imaginavam um tempo cíclico. As coisas acontecem e se repetem. E comungavam a ideia do destino implacável. Algo anterior e superior a mim traça os rumos de minha vida. E esse poder é inelutável. 

Foram os persas os primeiros a perceber o tempo como história. E os hebreus nos transmitiram, através do Primeiro Testamento, essa ideia-forte de que tempo é história. Entre os grandes pilares da cultura contemporânea, abraçaram o tempo como história três judeus: Jesus, Marx e Freud. Jesus (Vide meu Jesus Militante – o evangelho de Marcos e o projeto político do Reino de Deus. Petrópolis, Vozes, 2024) via o tempo histórico como construção do Reino de Deus, e traçou um arco entre o princípio, o Paraíso, e o fim, a escatologia, o Apocalipse. Graças a essa herança judaica, a visão cristã imprime historicidade ao tempo. Marx ensinou a compreender melhor os vários modos de produção ao resgatar suas histórias. E Freud, ao mapear os desequilíbrios de uma pessoa, recupera a trajetória dela, inclusive garimpando-lhe os porões do inconsciente.

Quando se percebe o tempo como história, tem-se o varal onde pendurar valores. A vida ganha sentido. E este é o bem maior que todos procuram: um sentido que dê razão à existência e, assim, nos faça felizes.

Para o professor Milton Santos, o nosso projeto de sociedade está, hoje, ancorado em bens finitos, quando deveria ancorar-se em bens infinitos. Se os bens são finitos e o desejo infinito, a antinomia causa frustração para quem centra neles a razão de seu existir. Centrado em bens finitos, o desejo não encontra satisfação. E acrescento, à luz da teologia: o apetite do desejo é infinito porque tem gula de Deus.

Os bens da dignidade, da ética, da liberdade são infinitos, como a paz e o amor. Sem valor de mercado. Não podem ser adquiridos na esquina. Contudo, tentam nos vender simulacros. A publicidade sabe que todos buscam a felicidade. Sem poder oferecê-la, tenta convencer-nos ser o resultado da soma de prazeres. O projeto de vida baseia-se no ter e não no ser. 

Cessada a percepção do tempo como história, falta o fio de prumo dos valores e, portanto, corre-se o risco de perda de sentido. Na dinâmica do pensamento único, impõe-se a ideia de que esse modelo de sociedade capitalista neoliberal é o ideal. O que resulta dessa perspectiva? A perenização do presente: quer nos convencer que daqui a 200 ou 500 anos haverá shopping center, mercado, Bolsa de Valores, competitividade, porque ninguém ousa imaginar algo diferente. Quando muito, haverá inovações científicas e tecnológicas.

Ora, quem conhece a história sabe que Alexandre Magno sonhou com a expansão perene de seu império. Os césares romanos ambicionaram o mesmo. A Igreja, no período medieval, acreditou haver chegado ao Reino de Deus na Terra. Hitler ousou chamar o seu projeto de Terceiro Reich, o reino definitivo da sua conquista, e deu no que deu… Stalin enveredou pela mesma senda na União Soviética. Eis uma grande asneira: a pretensão de perenizar um momento histórico. 

O que preocupa em nosso momento histórico é não haver uma proposta, consistente e convincente, contraposta ao modelo neoliberal. Somos seres visceralmente vocacionados ao sonho. Somos o único animal que não pode deixar de sonhar, devido à nossa incompletude e à nossa liberdade. Uma vaca encontra-se na sua plenitude bovina, feliz; o cachorro na sua plenitude canina, precisa só de ração diária, um carinho e fala consigo ao nos fitar: “Coitados, eles têm de fazer reuniões, discutir política, consumir notícias, enfrentar problemas familiares”. A samambaia necessita de muito pouco para ser feliz, sombra e água fresca. 

Nós não. Marcados pela carência, a nossa completude só se realiza no sonho, no amor ou na mística. O sonho pode ser um projeto político, um objetivo profissional, uma vocação artística. Vocacionados à transcendência, não nos bastamos. 

A perda da dimensão histórica do tempo ameaça o verdadeiro caráter da cultura. Quanto mais consciência e densidade espiritual uma pessoa tem, menos consumista tende a ser. Porém, cada vez mais a cultura é atrelada ao consumismo. Perde o valor como fator de humanização para virar mero entretenimento. Há uma máquina publicitária desinteressada em formar cidadãos, e sim consumidores. A ponto de se estender isso à infância. 

Vivemos, pois, em uma situação em que a vida volta a ter dimensão cíclica, não histórica, o que torna difícil estender o varal para dependurar os valores. O sonho como utopia ou projeto passa a ser quase anomalia. “Você tem de aceitar essa sociedade tal como ela se apresenta”, insiste o pensamento único. 

A perenização do presente induz à síndrome da juventude eterna. Já que o presente é perenizado, também a nossa existência deve ser. Malha-se o corpo, mas não o espírito. Hoje, ficar velho é falta de educação; engordar então, nem se fala… 

Minha geração – a dos idos de 1968 – vive agora em desconforto. Tantos sonhos e sacrifícios, cantos e passeatas, e o olhar altivo do Che iluminando nossos ideais, para resultar em filhos que se drogam, detestam política e, de academias, só conhecem as de exercícios físicos. Para alguns, o culto do corpo compensa a atrofia do cérebro. Queríamos mudar o mundo e criar o homem e a mulher novos; lutamos pelo fim da ditadura e fomos às ruas em festa pelo advento da democracia; derrubamos Collor como corrupto, repudiamos Bolsonaro como aspirante a ditador e, no entanto, o Haiti é aqui e Gaza fica ali na esquina, nenhum preso pelo massacre do Carandiru; não nascem flores à porta da Candelária, e sangram corações em Vigário Geral, nos complexos da Penha e do Alemão e Eldorado dos Carajás. E tantas vítimas de balas “perdidas”…

A morte da modernidade merece missa de sétimo dia? Não seria estranho que os jornais publicassem este anúncio fúnebre: “Os senhores Derrida, Lyotard, Deleuze, Baudrillard, Vattimo e Lipovetsky convidam para o féretro de Descartes, Locke, Kant, Hegel e Marx”. Os pais da modernidade nos deixaram de herança a confiança nas possibilidades da razão e nos ensinaram a situar o sujeito humano no centro do pensamento e a acreditar que a razão sem dogmas e donos construiria uma sociedade livre e justa. E nós, estudantes militantes da rua Maria Antônia, em São Paulo, ou do restaurante Calabouço, no Rio, soberbos filhos diletos da razão moderna, nos abrigamos confortavelmente em sistemas unitários, concepções totalizantes e ideologias sagradas, crentes que a filosofia nos redimiria dos males deste mundo, cujo futuro era mera questão de geometria política.

Foram Baudelaire e Gautier que, em 1864, falaram pela primeira vez em pós-modernidade. Aferrados à razão, não nos demos conta de que é “a imperfeição da inteligência” (Tomás de Aquino). Pouco afeitos ao delírio e à poesia, não prestamos atenção à crítica romântica da modernidade – Byron, Rimbaud, Burckhardt, Nietzsche e Jarry. Agora, olhamos em volta e o que vemos? As ruínas do Muro de Berlim, a Estátua da Liberdade tendo o mesmo efeito no Planeta que o Cristo do Corcovado na vida cristã dos cariocas, o desencanto com a política, a ascensão da direita, o ceticismo frente aos valores. Somos invadidos pela incerteza, a consciência fragmentária, o sincretismo do olhar, a disseminação, a ruptura e a dispersão. O evento soa mais importante que a história, e o detalhe sobrepuja a fundamentação. 

Não há doutrina especulativa que resista diante do massacre de sem-tetos, da impunidade dos assassinos de sem-terras. Hegel equivocou-se. Nem todo real é racional e vice-versa. Trabalhadores lutaram pela derrubada do socialismo no Leste europeu e pela eleição de Trump em 2024; EUA, Reino Unido, França e Alemanha, outrora pátrias de exilados, restringem a entrada de refugiados estrangeiros. As democracias funcionam para as elites e o povo não se manifesta. 

O pós-moderno aparece na moda, na estética, no estilo de vida. É a cultura de evasão da realidade. De fato, não estamos satisfeitos com a miséria circundante, a filha gasta mais em canetas emagrecedoras que em livros, e causa profunda decepção saber que no Brasil a impunidade é mais forte que a lei. Ainda assim, relutamos frente à decisão de nos engajar para promover mudanças. Recuamos do social ao privado e, rasgadas antigas bandeiras, nossos ideais transformam-se em gravatas estampadas. Como canta Belchior, “Ainda somos os mesmos / E vivemos / Como os nossos pais.” Já não há esperança de um futuro muito diferente. Muitos consideram anacrônico propagar a tese da conquista de uma sociedade onde todos tenham iguais direitos e oportunidades.

Agora predominam o efêmero, o individual, o subjetivo e o estético. Resta-nos captar fragmentos do real e aceitar que o saber é uma construção coletiva. Nosso processo de conhecimento se caracteriza pela indeterminação, descontinuidade e pluralismo. A desconfiança da razão nos impele ao esotérico, ao espiritualismo de efeito imediato, ao hedonismo consumista, em progressiva americanização de hábitos e costumes. Estamos em pleno naufrágio ou, como predisse Heidegger, caminhamos por veredas perdidas. 

Esse momento de sombras e impasses deixa o vácuo que também na vida social é imediatamente preenchido por forças adversas. Não haveria narcotraficantes se não houvesse viciados com seus corações esburacados pela ausência de afeto, de perspectivas, de realização profissional, e com suas mentes atrofiadas pela falta de qualidade no ensino, de livros acessíveis ao bolso e de educação artística. Mas quando o governo de um país sonega verbas necessárias à Educação, paga mal aos professores, não exige que a TV – uma concessão pública – contribua para elevar o nível cultural da população, como estranhar que em uma geração deserdada não sejam nítidos os limites entre polícia e bandido, corrupto e profissional realizado, direito à vida e risco de morte?

Sem o resgate da ética, da cidadania e das esperanças libertárias, e do Estado-síndico dos interesses da maioria, não haverá justiça, exceto aquela que o mais forte faz com as próprias mãos, ainda que a redigir leis discricionárias. 

 (*) Frei Betto é escritor, autor de Jesus Rebelde – Mateus, o Evangelho da Ruptura. Petrópolis, Vozes, 2024.

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