Pesquisar
,

Duas canções guerrilheiras

Assassinadas pelas ditaduras argentina e brasileira, as vidas das guerrilheiras Marie Anne Erize e Soledad Barret não desapareceram: ficaram eternamente marcadas em duas canções

Pedro Marin
As guerrilheiras Marie Anne Erize e Soledad Barret. (Foto: Reprodução)
As guerrilheiras Marie Anne Erize e Soledad Barret. (Foto: Reprodução)

No ano de 1978, sob a ditadura recém-inaugurada de Jorge Rafael Videla, a Argentina sediaria a Copa do Mundo de Futebol. Ao contrário dos exilados que tentavam organizar um boicote ao mundial, a organização guerrilheira Montoneros tomou a diretiva de aproveitar o evento para realizar ações de propaganda armada e “desnudar” a Argentina dos milicos, sob o mote “Argentina campeã, Videla ao paredão”.

O meio escolhido pela direção dos Montoneros na Europa para enviar as instruções sobre as ações a seus companheiros na Argentina foi curioso: um disco de vinil. O lado A do disco tocava, além das instruções sobre o mundial, uma análise de conjuntura, gravadas na voz do poeta Juan Gelman.

No lado B, no entanto, chegava uma música até então desconhecida, na voz do cantor catalão Juan Manuel Serrat. Aquela seria a única gravação de “La Montonera”, a canção clandestina que conta a história de uma guerrilheira que, com “suas mãos de enxugar suor”, suas “mãos de parir ternura”, pintava nas paredes o lema montonero: Luche y Vuelve!

Há várias versões sobre a figura que inspirou a canção: segundo uma delas, Serrat teria escrito os versos para uma amiga chamada Alicia, membro dos Montoneros, que teria sido assassinada pela Aliança Anticomunista Argentina, a Triple A. Numa segunda versão da história, a música fora escrita para Marie Anne Erize Tisseau, uma jovem argentina de pais franceses que, com uma impressionante carreira de modelo, miss argentina e capa de revista, era disputada aos tapas para os comerciais de cigarro e companhias de aviação na Argentina. A vida de modelo, porém, não interessava a Marie; era só um trabalho no mundo platinado, que a sustenta para realizar seu verdadeiro trabalho, no mundo real, de lama, junto aos pobres. Ela se organiza nos bairros populares argentinos, levando comida e roupas aos moradores e alfabetizando crianças, enquanto mantém sua carreira como modelo. Aos 20 anos, em 1972, ela se aproxima dos Montoneros após uma viagem a Paris, e, de volta à Argentina, passa a trabalhar ao lado do padre Carlos Mugica, membro do Movimento de Sacerdotes para o Terceiro Mundo. 

A situação política argentina, porém, se degenera rapidamente com a morte de Perón, em 1974. Marie se muda para Mendoza no ano seguinte, ao lado de seu companheiro, que é detido em 1976. A ex-modelo então se refugia em San Juan, e já não se chama Marie; adota os codinomes “Lucía” ou “Sofía”. O golpe vem em março, obrigando Marie a mais uma mudança clandestina. Em outubro viaja a Buenos Aires; na cidade, no dia 15, vai até uma loja de bicicletas, e o que sucede, nas palavras da jornalista Susana Ceballos, é que “três homens a cercam de forma ameaçadora. O dono da loja tenta ajudá-la, mas eles lhe dão um soco na nuca que a derruba, enquanto o intimidam com uma arma na mão. Ela grita, se debate, perde os óculos e um sapato. Eles a colocam em um carro Ford Falcon. A noite escura começa, o amanhecer nunca chegará. Marie-Anne continua desaparecida. A justiça agiu 35 anos depois. Determinou que os responsáveis por seu sequestro, estupro e desaparecimento são Daniel Vic, Jorge Olivera, Osvaldo Martel, Carlos Malatto e Eduardo Cardozo, que escolheram ser estupradores e assassinos antes de serem homens.”

Não há dúvidas sobre a inspiração de nossa segunda canção, tema que se liga naturalmente à história de Marie. No ano em que os Montoneros se preparavam para a Copa, o poeta Mario Benedetti e o cantor Daniel Viglietti uniram o poema “Muerte de Soledad Barret” e a composição “Soledad” em uma gravação a duas vozes.

Soledad Barret, neta do famoso escritor anarquista Rafael Barret, nasceu no Paraguai, filha de Alex Rafael Barret, membro do Partido Comunista daquele país, e Deolinda Viedma Ortiz. Viveu entre a Argentina e o Uruguai na juventude, em função da perseguição contra sua família, e se aproximou do Partido Comunista do Uruguai ainda antes de chegar à maioridade. Em Montevidéu, aos 17 anos, ela foi sequestrada por um grupo de neonazistas que rasgaram suas coxas, marcando-as com uma suástica nazista, por ter se negado a gritar “viva Hitler” e “abaixo Fidel”, num episódio que foi noticiado nacionalmente. No ano seguinte, ela é enviada para estudar na União Soviética. De volta à Argentina, passa a atuar junto aos camponeses na fronteira com o Paraguai.

Aos 22 anos, Soledad migra para Cuba, onde conhece o brasileiro José Maria Ferreira Araújo, militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Se casam em 1968 e no ano seguinte têm sua primeira e única filha, Ñasaindy. José Maria logo volta para o Brasil e acaba preso, torturado e assassinado aos 29 anos. Soledad, já integrada à VPR, chega ao País em 1971, e passa a atuar em Pernambuco ao lado do sergipano José Anselmo dos Santos, codinome Daniel, de quem engravida. Em 1973, no dia 8 de janeiro, aos 28 anos e grávida de quatro meses, Soledad é capturada junto de outros cinco companheiros. Todos são torturados, amarrados, e executados. “Daniel”, o companheiro de Soledad, pai do rebento que carregava, escapa, porque seu codinome escondia muito mais que seu batismo; era Cabo Anselmo, o militar infiltrado pela ditadura na VPR, que entregou sua companheira grávida, e que viveu, até os 80 anos de idade, escapado. Essa história só começou a ser esclarecida na década de 90, mas Soledad ainda é – como a Alicia ou a Marie de Serrat – uma desaparecida. Mas como Benedetti versa na canção, “Soledad não viveste em solidão / Por isso sua vida não se apaga / Simplesmente se enche de sinais / Soledad não morreste em solidão / Por isso sua morte não se chora, simplesmente a alçamos no ar. / ​A partir de agora a nostalgia será um vento fiel que fará sua morte vibrar para que pareçam exemplares e claras as franjas da sua vida”

 

Revista Opera A Revista Opera é um veículo popular, contra-hegemônico e independente fundado em abril de 2012.

Continue lendo

O jornalista Apulco de Castro, linchado e assassinado por oficiais do Exército no dia 25 de outubro de 1883. (Foto: Revista da Semana, nº 38, pag. 30. / Hemeroteca Digital)
Livro resgata Apulco de Castro, jornalista negro linchado no século 19 e apagado da história brasileira
O oficial nazista Klaus Barbie, o "carniceiro de Lyon", reabilitado pela CIA para reprimir movimentos de esquerda na América Latina. (Foto: Domínio Público / Wikimedia Commons)
As origens nazistas do tráfico de drogas na América Latina: Klaus Barbie, a cocaína e a CIA
O então primeiro-ministro de Cuba e líder da Revolução Cubana, Fidel Castro, durante Assembleia Geral da ONU, em 1979, em Nova Iorque. (Foto: Bernard Gotfryd / Library of Congress)
Fidel Castro entre a Guerra Fria e o não alinhamento

Leia também

São Paulo (SP), 11/09/2024 - 27ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo no Anhembi. (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)
Ser pobre e leitor no Brasil: um manual prático para o livro barato
Brasília (DF), 12/02/2025 - O ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, durante cerimônia que celebra um ano do programa Nova Indústria Brasil e do lançamento da Missão 6: Tecnologias de Interesse para a Soberania e Defesa Nacionais, no Palácio do Planalto. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
O bestiário de José Múcio
O CEO da SpaceX, Elon Musk, durante reunião sobre exploração especial com oficiais da Força Aérea do Canadá, em 2019. (Foto: Defense Visual Information Distribution Service)
Fascista, futurista ou vigarista? As origens de Elon Musk
Três crianças empregadas como coolies em regime de escravidão moderna em Hong Kong, no final dos anos 1880. (Foto: Lai Afong / Wikimedia Commons)
Ratzel e o embrião da geopolítica: a “verdadeira China” e o futuro do mundo
Robert F. Williams recebe uma cópia do Livro Vermelho autografada por Mao Zedong, em 1 de outubro de 1966. (Foto: Meng Zhaorui / People's Literature Publishing House)
Ao centenário de Robert F. Williams, o negro armado
trump
O Brasil no labirinto de Trump
O presidente dos EUA, Donald Trump, com o ex-Conselheiro de Segurança Nacional e Secretário de Estado Henry Kissinger, em maio de 2017. (Foto: White House / Shealah Craighead)
Donald Trump e a inversão da estratégia de Kissinger
pera-5
O fantástico mundo de Jessé Souza: notas sobre uma caricatura do marxismo
Uma mulher rema no lago Erhai, na cidade de Dali, província de Yunnan, China, em novembro de 2004. (Foto: Greg / Flickr)
O lago Erhai: uma história da transformação ecológica da China
palestina_al_aqsa
Guerra e religião: a influência das profecias judaicas e islâmicas no conflito Israel-Palestina