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2025, o ano com mais guerras da última década

40 guerras ativas e gastos bélicos recordes: o raio-x da violência armada global que fez de 2025 o ano mais conflagrado da última década

Josep Maria Royo
Os conflitos armados de alta intensidade — caracterizados por altos níveis de letalidade (mais de mil vítimas fatais por ano) e graves impactos em termos de deslocamento da população, destruição de infraestruturas e consequências no território — representaram 50% dos casos em 2025. (Foto: Justin Connaher / U.S. Air Force)
Os conflitos armados de alta intensidade — caracterizados por altos níveis de letalidade (mais de mil vítimas fatais por ano) e graves impactos em termos de deslocamento da população, destruição de infraestruturas e consequências no território — representaram 50% dos casos em 2025. (Foto: Justin Connaher / U.S. Air Force)

O mundo vive um novo aumento da violência armada global. No ano de 2025, foram registrados 40 conflitos armados ativos (37 em 2024), o número mais alto desde 2011 e um dos mais elevados desde que a Escola de Cultura da Paz (ECP) da Universidade Autônoma de Barcelona elabora seus relatórios anuais sobre conflitos internacionais. A tendência de aumento no número de conflitos armados nos últimos anos tem ocorrido paralelamente a um aumento significativo no número de tensões sociopolíticas em nível mundial, totalizando 113 em 2025.

Essas são algumas das principais conclusões do relatório Alerta 2026! Relatório sobre conflitos, direitos humanos e construção da paz, que analisa a evolução dos conflitos armados, das tensões sociopolíticas e do impacto das guerras sobre a população civil e os direitos humanos. De acordo com o estudo, em 2025, houve 40 conflitos armados e 113 situações de tensão sociopolítica em todo o mundo. A África continua concentrando o maior número de guerras (17), seguida pela Ásia e pelo Pacífico (12) e pelo Oriente Médio (7), enquanto a Europa e a América registram dois conflitos armados cada uma.

Os conflitos armados de alta intensidade — caracterizados por altos níveis de letalidade (mais de mil vítimas fatais por ano) e graves impactos em termos de deslocamento da população, destruição de infraestruturas e consequências no território — representaram 50% dos casos em 2025. O continente afetado pelo maior número de conflitos de alta intensidade foi a África (11 guerras de alta intensidade e 55% do total dos casos mais graves no mundo), seguida pelo Oriente Médio (4 casos e 20% do total dos casos mais graves no mundo).

No entanto, entre esses cerca de 20 casos de alta intensidade, há alguns que ultrapassam amplamente a marca de mil vítimas fatais. Na República Democrática do Congo (RDC), sobretudo na região leste, foram registradas mais de 6.8 mil vítimas em 2025, em sua maioria civis, segundo dados do Armed Conflict Location & Event Data (ACLED). A situação no leste da RDC durante o ano foi marcada pelo agravamento da ofensiva do grupo armado M23 e de Ruanda em território congolês, iniciada no final de 2021, pelo crescente envolvimento do Burundi em apoio à RDC e pelo fracasso das iniciativas diplomáticas dos EUA e do Catar.

No Haiti, segundo dados das Nações Unidas, entre janeiro e novembro de 2025 foram registrados mais de 8.1 mil homicídios, um número que a própria ONU estima que possa ser significativamente maior devido às dificuldades de acesso às áreas controladas pelas gangues.

A violência na Somália causou mais de 9.9 mil mortes, chegando perto da marca de 10 mil, segundo dados da ACLED. Em relação ao conflito na Região do Sahel Ocidental, a violência política provocou mais de 10 mil mortes em Burkina Faso, Mali e Níger. Por mais um ano, Burkina Faso se consolidou como o país mais afetado pela violência jihadista na região, representando 55% de todas as mortes relacionadas ao conflito no Sahel. Por outro lado, a guerra civil no Sudão causou, em 2025, a morte de mais de 17.8 mil pessoas, sendo o conflito armado de maior letalidade no continente africano. O conflito e a violência armada em Mianmar causaram mais de 15.3 mil vítimas fatais em 2025.

A ofensiva israelense contra Gaza continuou apresentando índices de mortalidade muito elevados. De acordo com o balanço do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), baseado em informações do Ministério da Saúde de Gaza, de outubro de 2023 até o final de 2025, mais de 70 mil palestinos e palestinas haviam morrido em Gaza, um número conservador, segundo diversas análises. Por fim, o conflito armado mais letal em 2025 foi o relacionado à invasão russa e à guerra entre a Rússia e a Ucrânia, que causou mais de 78 mil mortes na Ucrânia, segundo o ACLED.

Aumento das guerras internacionais

O relatório alerta especialmente para o aumento dos conflitos internacionais. Em 2025, foram registradas nove guerras entre diferentes Estados ou claramente internacionalizadas, o número mais alto desde que a ECP utiliza a atual metodologia de classificação. Entre os novos conflitos armados identificados estão o confronto entre Índia e Paquistão, a grave escalada bélica entre Tailândia e Camboja e a guerra entre Israel, Estados Unidos e Irã, conhecida em 2025 como “a guerra dos 12 dias” e que foi reaberta em 2026. A ECP alerta que essa evolução reflete uma deterioração da segurança global e é um espelho de um sistema internacional no qual muitos atores não priorizam a prevenção, o tratamento das causas profundas das disputas e o apoio ao diálogo.

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Por fim, cabe destacar que esse panorama de intensificação dos conflitos armados e seus graves impactos sobre a população civil ocorreu em um contexto de aumento das tensões geopolíticas em nível mundial, em um cenário de mudança na ordem global e de crescente militarismo e militarização. Em linha com as tendências observadas nos anos anteriores, o diagnóstico anual do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI, na sigla em inglês) confirmou um aumento sem precedentes dos gastos militares em nível mundial. De acordo com os dados publicados em 2025, esses gastos atingiram 2.7 trilhões de dólares (13,85 trilhões de reais) em 2024, um aumento de 9,4% em relação a 2023 — o aumento anual mais acentuado desde, pelo menos, o fim da Guerra Fria.

Impactos dos conflitos armados na população civil

Em 2025, a população civil continuou sofrendo consequências gravíssimas decorrentes dos conflitos armados, cujos efeitos, em muitos casos, se interrelacionaram com outras crises, como a emergência climática, as desigualdades e as situações de insegurança alimentar, que agravaram as violações de direitos nesses contextos. Em seu relatório anual sobre a proteção de civis em conflitos armados, publicado em junho de 2025 e que se refere aos fatos ocorridos em 2024, o secretário-geral da ONU alertou para tendências alarmantes.

António Guterres alertou sobre o elevado número de mortos e feridos entre a população civil, inclusive devido ao uso de bombas de maior porte com explosivos de alta potência em áreas densamente povoadas, uma tendência que se intensificou. Ele também alertou sobre munições não detonadas e dispositivos explosivos improvisados. De acordo com dados desse relatório, a ONU registrou mais de 36 mil mortes de civis em 14 conflitos armados. Casos como os do Afeganistão, Colômbia, Etiópia, Líbano, Mianmar, Síria, República Democrática do Congo, Somália, Sudão, Sudão do Sul, Ucrânia e Palestina foram cenários de elevado número de mortes e feridos civis, apontados pela ONU. O órgão internacional também documentou denúncias de torturas, execuções extrajudiciais, prisões, detenções arbitrárias, sequestros, desaparecimentos forçados, violência sexual e deslocamento forçado, incluindo no Afeganistão, na Colômbia, no Mali, no Níger, na República Centro-Africana, na República Democrática do Congo e na Palestina. Destacaram-se também os danos a bens civis e à infraestrutura crítica em numerosos conflitos, incluindo, devido à sua grave magnitude, o caso de Gaza.

Outra tendência preocupante apontada pela ONU foi a insegurança alimentar em contextos de conflito. Mais de 280 milhões de pessoas enfrentaram, em 2024, uma situação de altos níveis de insegurança alimentar (fase 3) em 59 países e territórios, grande parte deles afetados por conflitos armados. As Nações Unidas também destacaram a persistência da violência sexual relacionada a conflitos, com 4.5 mil casos comprovados em 2024. 93% das vítimas eram mulheres ou meninas. O secretário-geral também denunciou a erosão do respeito ao direito internacional humanitário.

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A análise dos conflitos armados em 2025 constata a continuidade das tendências preocupantes apontadas no relatório do secretário-geral da ONU. Em 2025, destacaram-se casos como Gaza, a RDC (leste), Sudão, Sudão do Sul, Somália, Haiti, Rússia-Ucrânia ou Mianmar, entre outros, devido à gravidade dos impactos sobre a população civil. Os níveis de violência de Israel contra a população palestina continuaram exorbitantes e motivaram denúncias crescentes de genocídio. Na RDC (leste), o M23 e Ruanda realizaram uma campanha sistemática de repressão nas zonas ocupadas, incluindo execuções extrajudiciais, detenções arbitrárias, torturas, desaparecimentos forçados e ataques noturnos a hospitais. Além disso, o conflito continuou a gerar graves problemas de proteção da população civil, como violência de gênero, recrutamento infantil, sequestros e deslocamentos generalizados. Cerca de 27,7 milhões de pessoas, mais de um quarto da população, precisavam de assistência humanitária.

No Sudão, o impacto da guerra sobre a população civil em 2025 foi devastador. Estima-se que mais de 21 milhões de pessoas sofriam de insegurança alimentar aguda, com focos de fome por todo o país, já que ambos os lados em conflito bloqueiam ativamente a ajuda humanitária. No Sudão do Sul, a guerra agravou a crise humanitária e quase metade da população sofria de fome aguda. Na Somália, a ONU estimou que mais de 4,4 milhões de pessoas sofreriam de insegurança alimentar aguda. No Haiti, a crise humanitária e de segurança se agravou, com cerca de 9 mil homicídios e mais da metade da população em situação de insegurança alimentar. Além disso, a UNICEF alertou que aproximadamente metade dos membros das milícias armadas eram menores de idade. Em relação à guerra entre a Rússia e a Ucrânia, ocorreu durante o ano uma grave deterioração das condições de vida nas regiões das frentes de guerra, com danos extensos a residências e outras infraestruturas civis; segundo o OCHA, 10,8 milhões de pessoas na Ucrânia precisarão de assistência humanitária em 2026. Na Síria, a ocorrência de massacres foi especialmente grave durante o ano, com dados indicando quase 2.7 mil vítimas fatais em 63 episódios de massacres, segundo o Observatório Sírio para os Direitos Humanos (SOHR).

Em numerosos conflitos armados, constatou-se o uso de violência sexual em 2025, entre eles Burundi, República Centro-Africana, República Democrática do Congo (leste), Região do Lago Chade (por parte do Boko Haram), Somália, Sudão, Haiti e Colômbia. Entre outros casos, na Somália, destaca-se a persistência da violência sexual no conflito, de caráter generalizado e cometida principalmente pelo al-Shabaab. As autoridades receberam quase 15 mil denúncias de violência sexual e de gênero entre março e agosto de 2025. No Haiti, as Nações Unidas alertaram sobre o aumento dos estupros coletivos e denunciaram que, em 2025, os casos de violência sexual haviam aumentado em 40%, quase todos contra mulheres e meninas, em sua grande maioria perpetrados por gangues armadas como estratégia de controle, terror e vingança contra pessoas acusadas de colaborar com o Estado.

Afeganistão, Síria, Sudão, Ucrânia e Venezuela concentram 65% da população refugiada mundial

Vale destacar que os conflitos armados também continuaram tendo, entre seus impactos mais notórios, os deslocamentos forçados da população. De acordo com o relatório semestral de tendências publicado pelo ACNUR em novembro de 2025, que inclui dados coletados durante o primeiro semestre do ano, a população global deslocada à força — tanto refugiada quanto deslocada internamente — era de 117,3 milhões de pessoas. Isso representou uma redução de 5% em relação a 2024, contrastando com a tendência de aumento incessante observada nos anos anteriores. A redução esteve associada, segundo o ACNUR, ao acentuado aumento dos retornos de refugiados e deslocados em algumas das crises mais graves, como na República Democrática do Congo, na Síria, no Sudão e no Afeganistão.

No final do ano, o Sudão representava a crise de deslocamento mais grave do mundo, com 12,8 milhões de pessoas deslocadas pela violência, segundo dados da ONU, incluindo 4,3 milhões que fugiram do país, principalmente para o Egito, o Chade e o Sudão do Sul.

Retrocessos nos direitos das mulheres

Coincidindo com o 25º aniversário da Resolução 1325 da ONU sobre mulheres, paz e segurança, o relatório alerta para um retrocesso global nos direitos das mulheres. De acordo com o estudo, 70% dos conflitos armados de máxima intensidade ocorrem em países com níveis baixos ou médio-baixos de igualdade de gênero. 23 dos 40 conflitos armados que ocorreram em 2025 aconteceram em países onde havia níveis baixos ou médio-baixos de igualdade de gênero, e 16 dos 20 conflitos armados de alta intensidade de 2025 (80%) ocorreram em países onde a Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans e Intersexuais havia documentado legislação ou políticas criminalizadoras contra a população LGTBIQ+.

Além disso, a participação das mulheres nos processos de paz promovidos pelas Nações Unidas continua diminuindo. A ONU registrou mais de 4.6 mil casos de violência sexual relacionada a conflitos durante 2024, um aumento de 25% em relação ao ano anterior. 93% das vítimas foram mulheres e meninas.

El Salto El Salto é um meio de comunicação social autogerido, horizontal e associativo espanhol.

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