Três semanas após o início da guerra, Donald Trump encontra-se preso em um conflito que ele mesmo criou. O que foi apresentado como uma campanha de coerção rápida – mensurada em horas e ultimatos – agora se desenrola em um ritmo determinado não por Washington, mas por Teerã.
Durante anos, a postura convencional em Washington e Tel Aviv sustentava que o Irã poderia ser contido por meio de uma combinação de estrangulamento econômico e assassinatos seletivos – uma estratégia de “decapitação” destinada a desmantelar a estrutura de comando da República Islâmica sem desencadear uma guerra em grande escala. Essa suposição está sendo testada e destruída. O que estamos testemunhando não é uma escalada aleatória, mas uma colisão de duas lógicas estratégicas fundamentalmente diferentes. Os Estados Unidos e Israel estão lutando no domínio em que possuem uma clara vantagem comparativa: operações de segurança, poder aéreo e o terror cirúrgico dos ataques de decapitação. O Irã, por outro lado, optou por lutar onde suas vantagens residem – na geografia militar, nas redes assimétricas e na capacidade de impor custos a uma economia global que passa pelos estreitos de Ormuz e Bab el-Mandeb. A resposta ideal do Irã, portanto, não é imitar as táticas do inimigo, mas tornar-se mais radical: apostar ainda mais forte nos domínios em que detém superioridade relativa.
Na teoria das relações internacionais, a dissuasão é frequentemente dividida em “dissuasão por negação” e “dissuasão por punição”. Durante décadas, o Irã se apoiou na negação – tornando a agressão tão onerosa que simplesmente não seria tentada. Mas o cenário pós-7 de outubro, marcado por assassinatos em solo iraniano, empurrou Teerã para uma mudança deliberada: a dissuasão por punição. A lógica é clara. Quando o eixo Trump-Netanyahu ataca a infraestrutura iraniana, eles estão testando a vontade do Irã. Se Teerã não responder da mesma forma — atacando instalações petrolíferas nos Estados árabes do Golfo Pérsico, campos de gás natural em águas israelenses ou as refinarias que abastecem os aliados regionais das Forças Armadas dos EUA —, então os bombardeios não vão parar. Eles se expandirão até que todos os principais nós energéticos e logísticos iranianos estejam em ruínas. Essa é a aritmética brutal do domínio da escalada. Em tal disputa, o lado que se mostrar disposto a absorver o sofrimento de curto prazo enquanto torna o sofrimento do outro insustentável acaba ditando a trajetória da guerra.
É por isso que a estratégia do Irã hoje gira em torno da ação ofensiva. Esta guerra se assemelha ao basquete: a defesa importa, mas a variável decisiva é quantos pontos você marca. Nesta guerra regional, a capacidade do Irã de infligir danos – seu poder ofensivo – é muito mais crítica do que sua capacidade de defender seu próprio espaço aéreo. Por quê? Por causa da vulnerabilidade assimétrica do adversário. Israel sofre com uma profundidade geográfica limitada, uma população densa e socialmente frágil e uma economia altamente sensível a perturbações. As forças americanas, apesar de sua proeza tecnológica, estão concentradas em bases espalhadas pelo Golfo Pérsico e pelo Levante, que se tornaram mais expostas do que o próprio território do Irã. Em qualquer disputa prolongada – em que ambos os lados testam quem vai ceder primeiro –, o lado com menos a perder em termos de integridade territorial e coesão social detém a vantagem. A resiliência social do Irã, forjada sob décadas de sanções e pressão, tornou-se, paradoxalmente, um ativo estratégico.
Os aliados não estatais do Irã estão encarregados de operacionalizar essa lógica. Logicamente, eles deveriam elevar o nível de agressão: uma combinação de operações terrestres direcionadas, rajadas coordenadas de mísseis e enxames de drones projetados para sobrecarregar as capacidades de defesa aérea do inimigo. Os houthis no Iêmen, por exemplo, desempenham um papel que lembra os cinquenta arqueiros posicionados em Jabal al-Rumah durante a Batalha de Uhud. Nessa antiga batalha islâmica, o Profeta Maomé colocou um pequeno contingente de arqueiros em uma colina com ordens estritas para manterem suas posições. Eles não eram o exército principal, mas sua posição era estrategicamente vital; quando a abandonaram, a maré da batalha virou contra os muçulmanos. Hoje, os houthis são esses arqueiros na colina. Sua capacidade de bloquear a navegação no Mar Vermelho cria um gargalo estratégico que impede o inimigo de concentrar suas forças em outras frentes. Em uma guerra de desgaste, tais “arqueiros na colina” podem determinar o resultado.
Os pontos de estrangulamento marítimos são onde a vantagem geoestratégica do Irã se encontra com a economia global. A interrupção sustentada dos estreitos de Ormuz e de Bab el-Mandeb, combinada com um aumento repentino nos preços do petróleo e uma queda correspondente nos mercados de ações dos EUA, alteraria fundamentalmente o cálculo de custo-benefício de Washington. As indústrias de armas e as economias ocidentais, já sob pressão, têm tolerância limitada para um conflito internacionalizado prolongado. Se o Irã e seus aliados não-estatais conseguirem, nas próximas quatro semanas, aumentar exponencialmente o volume de seus ataques a alvos israelenses e americanos – uma estratégia de abrir os “portões do inferno” – enquanto mantêm as vias navegáveis fechadas até o final de abril, a crença americana no poder aéreo como instrumento decisivo para a vitória será destruída. Isso não é mera retórica; é uma tentativa calculada de tornar a guerra economicamente insustentável para o outro lado. No entanto, Trump e seus aliados fazem o possível para tornar a guerra local, por meio da abertura do estreito de Ormuz. Isso é fatal para o Irã. A guerra de desgaste só favorece o Irã quando é internacionalizada.
Esta guerra está revertendo o comportamento passivo do Irã pós-7 de outubro. Após anos do que Teerã chamou de “paciência estratégica” – absorvendo golpes enquanto construía capacidades, na esperança de aberturas diplomáticas que nunca surgiram –, a doutrina foi hoje descartada. A nova liderança concluiu que a paciência diante de assassinatos implacáveis e da guerra econômica havia se tornado uma patologia, e não uma virtude. Se o Irã tivesse agido ofensivamente antes que a guerra fosse imposta, o conflito poderia ter sido evitado. Mas agora que a guerra chegou, Teerã acredita que a única maneira de demonstrar que o inimigo calculou mal é escalar além do limiar de tolerância do inimigo.
A decisão de abandonar a paciência estratégica se cristalizou em um momento de simbolismo deliberado. Usa-se da narrativa de que, apesar das ameaças credíveis de assassinato, o Líder Supremo permaneceu em sua residência habitual – calculando que uma morte épica, semelhante à de um mártir, serviria a um propósito estratégico: transformar seu sangue em um símbolo mobilizador para um confronto regional e ideológico mais amplo, com o objetivo de expulsar os Estados Unidos do Oriente Médio, ao mesmo tempo em que deixaria para trás um grande legado. Esse cálculo ressalta uma verdade mais profunda: o Irã agora vê o conflito como “estabelecimento de ordem”. A guerra contra o Irã, nessa perspectiva, não é uma escaramuça secundária, mas uma luta que ajudará a determinar a forma da futura ordem mundial. As partes vitoriosas definirão os termos do próximo sistema regional e global.
Ao longo desse confronto, os Estados Unidos e Israel têm seguido uma estratégia de causar baixas civis em massa – atacando escolas, hospitais e áreas residenciais de uma maneira que lembra o Vietnã. O objetivo é usar a brutalidade dos bombardeios para forçar a população iraniana a se render. Mas a estratégia ignora a resiliência assimétrica de uma sociedade que internalizou a experiência da guerra como uma constante. Enquanto isso, os Estados árabes do Golfo Pérsico que abrigam bases americanas a partir das quais são lançados ataques contra o Irã enfrentam uma questão que não podem evitar: como podem esperar que o Irã não ataque essas bases, quando essas mesmas bases são usadas para bombardear o Irã? A tentativa de separar esses Estados das consequências da infraestrutura militar americana em seu território está fracassando.
Em sua essência, o argumento desta guerra está resumido no título “Paz através da Resistência”. Não se trata de um slogan, mas de uma proposição estratégica: que, para o Irã, neste momento, o caminho para um papel regional estável e reconhecido não passa por concessões, mas pela demonstração de uma capacidade inquebrantável de infligir dor. A guerra, como uma partida de basquete, será decidida não por quem defende melhor, mas por quem continua marcando pontos quando mais importa. As próximas semanas dirão se o Irã conseguirá sustentar o ímpeto ofensivo que força um recálculo em Washington e Tel Aviv, ou não. O que não está mais em dúvida é que a era da paciência estratégica chegou ao fim. Se isso trará paz através da resistência é agora a questão que as próximas semanas responderão.
(*) Tradução de Raul Chiliani



































