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Por que a guerra? O fracasso econômico e político dos Estados Unidos

O esgotamento do modelo político e econômico dos EUA impulsiona a financeirização global e arrasta o cenário internacional para um ciclo de guerras e genocídios

Maurizio Lazzarato
Soldados dos EUA aplaudem o presidente Donald Trump durante discurso no Forte Bragg, na Carolina do Norte, durante as comemorações dos 250 anos do Exército dos EUA. (Foto: Daniel Torok / White House)
Soldados dos EUA aplaudem o presidente Donald Trump durante discurso no Forte Bragg, na Carolina do Norte, durante as comemorações dos 250 anos do Exército dos EUA. (Foto: Daniel Torok / White House)

Um processo político e econômico duplo, contraditório e complementar, está em andamento: o Estado e a política (norte-americana) afirmam energicamente sua soberania por meio da guerra (incluindo a guerra civil) e do genocídio. Ao mesmo tempo, demonstram total subordinação à nova face que o poder econômico assumiu após a dramática crise financeira de 2008, promovendo uma financeirização sem precedentes, tão ilusória e perigosa quanto a que provocou a crise das hipotecas subprime. A causa do desastre que nos levou à guerra tornou-se um novo remédio para sair da crise: uma situação que só pode ser prenúncio de outras catástrofes e outras guerras.

A análise do que ocorre nos Estados Unidos, o coração do poder capitalista, é crucial, pois é precisamente de seu seio, de sua economia e de sua estratégia de poder que partiram todas as crises e todas as guerras que devastaram e continuam a devastar o mundo. O cerne do problema reside no fracasso do modelo econômico e político norte-americano, que o conduz necessariamente à guerra, ao genocídio e à guerra civil interna — por enquanto apenas latente, mas que já se materializou pela primeira vez no episódio do Capitólio, no final da presidência de Donald Trump. Se fossem aplicadas a ela as regras que se aplicam a outros países, a economia norte-americana já deveria ter sido declarada falida há muito tempo. No final de abril de 2024, a dívida pública total, denominada “Total Treasury Security Outstanding” — ou seja, a soma dos diversos títulos e bônus da dívida pública —, ascendia a 34,6 trilhões de dólares. Doze meses antes, esse valor era de 31,4 trilhões. Em um ano, a dívida pública aumentou em 3,1 trilhões de dólares, quase equivalente ao nível da dívida pública da Alemanha, a quarta maior economia mundial. Mas é seu crescimento exponencial que agora está completamente fora de controle: tratou-se de um aumento de um trilhão a cada cem dias. Hoje já estamos em um trilhão a cada sessenta dias.

Se há uma nação que vive às custas do mundo inteiro, essa nação é os Estados Unidos. O resto do mundo paga suas dívidas (os gastos desmedidos do american way of life – do qual, evidentemente, apenas uma parte dos americanos se beneficia – e seu enorme aparato militar) de duas maneiras principais. Por meio do dólar, a mercadoria mais negociada do mundo, os Estados Unidos exercem um domínio sobre todo o planeta, já que sua moeda nacional funciona como a moeda do comércio internacional, o que lhes permite se endividar como nenhum outro país. Após a crise de 2008, os Estados Unidos encontraram outra forma de transferir os custos da dívida para outros, por meio de uma reorganização das finanças. Os capitais (principalmente dos aliados e, entre eles, sobretudo da Europa) são transferidos para os Estados Unidos para pagar, graças aos fundos de investimento, as taxas de juros crescentes da dívida. Após a crise financeira, estabeleceu-se uma concentração de capital, em consequência de quinze anos de quantitative easing (liquidez a custo zero) conduzida pelos bancos centrais, o que resultou em um monopólio de uma magnitude que o capitalismo jamais havia conhecido. Com o apoio político dos governos Obama e Biden, um grupo muito restrito de fundos de investimento norte-americanos dispõe de ativos (ou seja, captação e gestão de poupança) compreendidos entre 44 e 46 trilhões de dólares. Para se ter uma ideia do que significa essa centralização monopolística, podemos comparar com o PIB da Itália (2 trilhões de dólares) ou com o de toda a União Europeia (18 trilhões de dólares).

Os “Big Three” – como são chamados os três maiores fundos de investimento, Vanguard, Black Rock e State Street – constituem, na verdade, uma única entidade, já que a propriedade dos fundos é cruzada e difícil de atribuir. As fortunas desse “hipermonopólio” foram construídas sobre a destruição do Estado social. Para a aposentadoria, a saúde, a educação ou qualquer outro serviço social, os americanos são obrigados a contratar seguros de todos os tipos. Agora cabe aos europeus e ao resto do mundo ocidental (mas também à América Latina de Milei) colocarem-se nas mãos dos fundos de investimento, no ritmo ditado pelo desmantelamento dos serviços sociais (o salário indireto garantido pelo welfare (bem-estar social) transforma-se em um fardo, um custo e uma despesa com que cada um deve arcar para garantir sua própria reprodução). Os Estados Unidos têm um duplo interesse em prosseguir e intensificar o desmantelamento do bem-estar social em todo o mundo: econômico, porque incentiva o investimento em títulos de fundos de investimento (que, por sua vez, servem para comprar títulos do Tesouro, obrigações e ações de empresas americanas), e político, porque a privatização dos serviços significa individualismo e financeirização do indivíduo, que deixa de ser trabalhador ou cidadão para se tornar um pequeno operador financeiro (e não um empresário de si mesmo, como reza a ideologia dominante). As políticas fiscais também convergem para o projeto de anular o Estado social. Nem os ricos nem as empresas pagam impostos, e a progressividade tributária é reduzida a zero; portanto, não há mais recursos para gastos sociais e, consequentemente, incentiva-se a compra de apólices privadas que acabam em fundos de investimento.

O projeto de destruir tudo o que havia sido conquistado graças a duzentos anos de lutas está, finalmente, se concretizando. A poupança norte-americana já não é suficiente para alimentar o circuito da renda, razão pela qual os fundos de investimento estão de olho na poupança europeia. Por exemplo, os 35 trilhões de dólares que Enrico Letta, ex-primeiro-ministro da Itália e principal figura de referência do Partido Democrático, gostaria de destinar a um grande fundo de investimento europeu, funcionariam segundo os mesmos princípios: produzir e distribuir renda, dando origem às mesmas enormes diferenças de classe encontradas nos Estados Unidos. A razão para o rápido e incrível empobrecimento da Europa deve ser buscada na estratégia econômica adotada pelo aliado norte-americano. O diferencial negativo em relação aos Estados Unidos passou de 15% em 2002 para os atuais 30%. Quanto mais a Europa se deixa roubar, mais suas classes políticas e midiáticas se tornam atlantistas, belicistas e submissamente inclinadas perante aqueles que as estão marginalizando de forma dramática, empurrando-as para a guerra contra a Rússia (guerra que, aliás, nem mesmo são capazes de sustentar). Os Estados europeus substituíram a China e o Leste Asiático na compra de títulos do Tesouro dos Estados Unidos e, dando continuidade à demolição do Estado social, obrigam as suas populações a subscrever apólices de seguro que acabam nas contas dos fundos de investimento. Dessa forma, o euro se transforma em dólar, salvando assim a dolarização ameaçada pela recusa do Sul em se submeter ao domínio da moeda norte-americana.

Essa transferência de riqueza também afeta a América Latina, onde Milei é a vanguarda da nova financeirização que visa privatizar tudo. O neofascismo de Milei é um laboratório para adaptar as técnicas de pilhagem americanas, adotadas pela Europa, pelo Japão e pela Austrália, também às economias mais fracas. O que Milei encarna não é o fascismo clássico: é o novo fascismo “libertário” da renda e dos fundos de investimento, uma má cópia ideológica do fascismo do Vale do Silício, nascido de suas empresas “inovadoras”. A política econômica de Biden, ao tentar repatriar indústrias que haviam sido descentralizadas, empobrece ainda mais o resto do mundo e, sobretudo, a Europa, que vê empresas estabelecidas em seu território tentando atravessar o Atlântico. As grandes facilidades fiscais necessárias são financiadas com dívida, da mesma forma que com dívida são financiadas as bombas (bilhões de dólares) que os Estados Unidos não param de enviar para a Ucrânia e Israel. Portanto, ironicamente, a Europa paga pela política concebida para reduzir ainda mais sua capacidade produtiva, assim como paga duas vezes pela guerra e pelo genocídio: uma vez com a compra de títulos do Tesouro dos Estados Unidos e com as apólices de seguro que permitem que os Estados Unidos se endividem, e outra vez com a imposição de construir uma economia de guerra (aceita e acelerada por classes políticas abocadas ao suicídio).

Como dizia Kissinger: “Ser inimigo dos Estados Unidos pode ser perigoso, mas ser amigo é fatal”. Essa enorme liquidez permitiu que os fundos comprassem, em média, 22% de todo o índice Standard & Poor’s, que reúne as 500 principais empresas listadas na bolsa de Nova York. Os fundos de investimento já estão presentes nas empresas e nos bancos mais importantes da Europa (principalmente na Itália, onde estão sendo vendidos em ritmo acelerado), e suas especulações praticamente determinam o destino da economia, influenciando as decisões dos “empreendedores”. Alguns deliram sobre a autonomia do proletariado cognitivo, sobre a independência da nova composição de classe. Nada mais distante da realidade. Quem decide onde, quando, como e com qual força de trabalho produzir (assalariada, precária, servil, escravizada, feminina, etc.) é, mais uma vez, quem possui os capitais necessários, quem tem a liquidez e o poder para fazê-lo (hoje em dia, certamente os “Big Three”). Não é, certamente, o proletariado mais fraco dos últimos dois séculos.

Nada de autonomia e independência: a realidade de classe é subordinação, subjugação e submissão como nunca antes na história do capitalismo. Ser “trabalho vivo” é uma desgraça, porque é sempre um trabalho comandado, como o do meu pai e do meu avô. O trabalho não produz “o” mundo, mas sim o “mundo do capital”, que, até prova em contrário, é algo muito diferente, pois é um mundo de merda. O trabalho vivo só pode conquistar autonomia e independência na recusa, na ruptura, na revolta e na revolução. Sem isso, trata-se de uma impotência garantida!

Além do conceito de desigualdade

A estratégia de concentração da riqueza nas mãos de poucos e o empobrecimento de muitos continua, e com as guerras se aprofunda ainda mais. A situação já não pode ser caracterizada pelo conceito de “desigualdade”; estamos deslizando para além disso! O Estado de Direito e a democracia revelam-se impotentes diante da última mutação em curso do capitalismo e criam, ao contrário, obstáculos a serem eliminados. A democracia ou o Estado de Direito, ao contrário do que diz a ideologia dominante, parecem cada vez menos compatíveis com o capitalismo.

Em um presente marcado pela guerra, pelo genocídio e pelo fascismo, uma notícia parece ter passado despercebida por muitos, mas é um sintoma importante da evolução do capitalismo, o outro lado da grande violência que estamos vivendo. Um empresário, Elon Musk, CEO da Tesla, solicitou e obteve uma remuneração anual de 56 bilhões de dólares. No antigo capitalismo industrial (até a década de 1950), a relação entre o salário do trabalhador e a remuneração do patrão era, no máximo, de 1 para 20. Nos anos 80, de 1 para 42. Em 2000, de 1 para 120 e assim por diante, aumentando até os 56 bilhões de dólares de hoje. A diferença é vertiginosa; a quantidade se transforma em qualidade. As duas realidades são incomensuráveis. Os termos da relação não determinam nenhuma relação; não se trata sequer da mesma humanidade de um lado e do outro da relação. São duas “raças” diferentes, seres humanos heterogêneos. A relação não faz sentido algum, não responde a nenhuma “racionalidade” econômica, como aquela que o capitalismo ainda pretendia há cinquenta anos.

A “não relação” é o que define, desde sempre, a situação colonial. Essa relação, sem qualquer legitimidade econômica além de uma nua relação de poder, está se instalando também nos países do norte. Poderíamos nos perguntar se ainda se trata de capitalismo ou se estamos, antes, diante de um novo tipo de aristocracia, que nos impõe o pagamento de rendas a alguns senhores cuja legitimidade é apenas a arbitrariedade de um poder absoluto que não precisa da ridícula legitimidade apresentada pela presidente da Tesla, Robyn Denholm. Em uma carta, ela explicou aos acionistas que o “salário” serve “para manter a atenção de Elon e motivá-lo a se concentrar em alcançar um crescimento surpreendente para nossa empresa”. Musk “não é um gestor típico” e, para motivá-lo, “é preciso algo diferente”. 56 bilhões são uma simples renda que implica uma concepção da sociedade em que uma aristocracia minúscula reina sobre uma massa (plebe? ralé? turba?) que divide a miséria, produzindo uma superabundância de hierarquias entre os pobres. O que parece uma exceção estranha de um empresário singular está se concretizando na Argentina, onde Milei tem como referência justamente esse capitalismo e esses capitalistas. Lá onde o neoliberalismo nasceu na década de 1970, o capitalismo está passando por uma nova mutação: a vontade política é impor a ditadura incondicional da propriedade privada, a privatização de toda relação social. Uma distopia que já não precisa do terror do golpe de Estado.

As relações de força que a composição de classe contemporânea consegue impor são tão fracas, tão desequilibradas em favor do “capital”, que basta exibir uma motosserra e aparecer em algum show para se afirmar. Quando Milei grita “liberdade”, “liberdade”, a explicação para isso deve ser buscada em Peter Thiel, milionário e cofundador do PayPal: “Não acredito mais que liberdade e democracia sejam compatíveis”. A democracia tem uma origem completamente diferente do capitalismo: é a expressão da irrupção das massas na história e de seu desejo de justiça e igualdade. Somente a luta de classes civiliza o capitalismo, que, em si e por si só, não tem nada de democrático e progressista. O poder exercido na empresa, que é seu modelo de poder, é despótico, apesar de todas as teorias de gestão que tentam mascará-lo alardeando “participação”. Junto com Musk, outros milionários (Murdoch, por exemplo, e o próprio Thiel) estão financiando e fazendo campanha ativamente por Trump. Aqui encontramos outra razão para a existência do fascismo, desta vez econômica (verdade confirmada pelo funcionamento da economia anti-trabalhista sob Mussolini ou Hitler). De fato, a agenda da contrarrevolução já estava traçada na década de 1970 pela crítica à democracia promovida pela Trilateral. O que Milei deseja (mas é exatamente o projeto de Macron, de Draghi, da Europa etc.) é muito bem expresso por esses milionários trumpistas: retornar ao mundo anterior ao New Deal, anterior ao estado de bem-estar social; em outras palavras, anterior à revolução soviética, mas também anterior à Revolução Francesa (sonho dos ordoliberais alemães, nostalgia da época em que existia a “ordem” dos estamentos). Thiel continua: “Os anos 20 foram a última década da história dos Estados Unidos em que se podia ser sinceramente otimista em relação à política. Desde 1920, o grande aumento do número de beneficiários da previdência social e a extensão do direito ao voto às mulheres transformaram a noção de ‘democracia capitalista’ em um oxímoro”.

O Estado na França, em vez de ser o principal inimigo do mercado, garante uma renda real às empresas por meio do fisco, mas sobretudo por meio da assistência social para as empresas: 230 bilhões por ano, dos quais não precisam prestar contas, privilégio concedido pelo “monarca republicano”. A destruição do modelo social tem como objetivo fundamental transferir os recursos de hospitais, escolas, previdência social etc. para os ricos e os novos empresários/rentistas.

Na Itália, foi aprovada a lei sobre a “autonomia diferenciada”, que prevê um tratamento diferenciado dos serviços públicos prestados aos cidadãos italianos, dependendo de residirem em uma região rica ou pobre. O que está garantido para todos é o “essencial”, o que significa serviços públicos cada vez mais medíocres para todos e uma saúde de “excelência” nas regiões ricas, assegurada pelo setor privado.

A igualdade está sempre ligada à luta de classes, à revolução, enquanto o liberalismo se baseia na “diferença” (de riqueza e propriedade). Todas essas questões não podem ser explicadas pelos dispositivos biopolíticos mais refinados. Elas separam o poder do capital, a submissão da propriedade privada, o domínio do “trabalho”, o que, no capitalismo, é impossível e suicida. É impossível separar as relações de produção das relações de poder, e estas últimas parecem indiferentes à modernidade e ao progresso, ao avanço da ciência e da tecnologia. A narrativa fantasmagórica e fantasiosa dos novos capitalismos (cognitivo, bio, neuronal etc.) termina no fascismo, na guerra e no genocídio.

É preciso levar muito a sério o fenômeno “argentino” / Vale do Silício, pois ele é a outra face do fascismo contemporâneo. Ele não provém do fascismo histórico, como Meloni na Itália ou Le Pen na França, mas das vanguardas mais avançadas da pesquisa tecnológica e das técnicas financeiras. Diante da hipermodernidade, ainda devemos recorrer à “velha” análise de Marx no Manifesto. O problema político continua sendo a propriedade privada e o objetivo revolucionário continua sendo sua abolição. É em torno de sua preservação e da luta contra sua abolição que se cristalizam todos os fascismos, as reações, as guerras e os genocídios. Seja qual for o foco privilegiado da ação política (ecologia, feminismo, racismo), pensar em trilhar caminhos de libertação, de ruptura, de resistência sem questionar a propriedade é uma ingenuidade que se mede pela grande violência que o poder desencadeia quando seus privilégios são questionados. E o privilégio dos privilégios é a propriedade (do trabalho alheio, da mulher, da natureza, de outros seres humanos). Um pálido substituto da luta marxista pela abolição da propriedade privada encontra-se na inofensiva teoria dos “bens comuns”, que parece ignorar que sua condição de viabilidade é a violenta “expropriação dos expropriadores”. Não avançamos nem um centímetro desde o Manifesto. Ou, melhor dizendo, o capitalismo sempre foi fiel ao primeiro “direito humano” que reconhece: ser proprietário. O racismo clássico, na base do fascismo biológico, tornou-se cultural, aliando-se perfeitamente ao racismo do darwinismo social dos fascistas-capitalistas do Vale do Silício. Juntos, eles tornam a democracia supérflua.

Revista Crisis

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