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Israel é uma questão de classe

O lobby pró-Israel é dirigido pelas mesmas pessoas que exercem enorme influência sobre a política, as universidades e a grande mídia: a elite corporativa

Stephen Gowans
Em primeiro plano, pequenas bandeiras de mesa de Israel e dos EUA, lado a lado, com o presidente norte-americano Joe Biden assinando um livro ao fundo.
O presidente dos EUA, Joe Biden, assina o livro de visitas da Residência Presidencial em Jerusalém, Israel, em julho de 2022.
(Foto: Adam Schultz / White House)

Os cientistas políticos John Mearsheimer e Stephen Walt acreditam que Israel é um problema para a política externa dos EUA, e que a única razão pela qual Washington apoia firmemente o Estado sionista é que a tomada de decisões nos EUA é controlada por um poderoso lobby pró-Israel, capaz de usar seus vastos recursos para punir severamente os políticos e tomadores de decisão que não apoiam Israel. Os políticos e funcionários de gabinetes dos EUA, em sua opinião, reconhecem que o apoio a Israel é contrário aos interesses da política externa norte-americana, mas apoiam Israel mesmo assim por medo de entrar em conflito com o poderoso lobby pró-Israel.

Um estudo recente de Laurence H. Shoup, publicado na Monthly Review, mostra que as organizações que Mearsheimer e Waltz identificam como o lobby pró-Israel são, em grande parte, lideradas pelos mesmos patronos ricos que lideram o principal think-tank de política externa dos Estados Unidos, o Council on Foreign Relations (CFR). O think-tank é dirigido pelos colossos de Wall Street.

Wall Street, o lobby pró-Israel, o CFR, os conselhos das universidades e as grandes empresas da mídia estão todos interligados como parte da mesma classe rica.

O CFR regularmente consegue colocar seus membros nos principais cargos da política externa norte-americana. Os atuais secretários de Estado, de Defesa e do Tesouro são membros do grupo dirigido por Wall Street, assim como o conselheiro de segurança nacional de Biden, o diretor da CIA e o embaixador dos EUA na ONU.

Portanto, as pessoas que ocupam as posições de comando no mundo dos negócios dos EUA lideram tanto o lobby pró-Israel quanto o think-tank de política externa dos EUA que fornece o pessoal para ocupar os principais cargos de política externa no governo dos EUA. Washington é incondicionalmente pró-Israel porque Wall Street o é.

Para ilustrar esse ponto, o jornal The New York Times noticiou em 15 de maio que “os grandes doadores de Wall Street” estavam se afastando de Biden devido à sua “crescente insatisfação com o que [os doadores] veem como a postura mais dura da Casa Branca contra Israel em sua guerra contra Gaza”. O fato de Biden ter suspendido (e não cancelado) um carregamento de toneladas de bombas em um esforço para dissuadir Israel de lançar um grande ataque a Rafah (que foi logo seguido por Biden aprovando uma grande transferência de outras armas para Israel), e a abstenção dos Estados Unidos em uma votação da ONU censurando Israel por sua conduta em Gaza, dificilmente representam uma postura rígida contra Israel. Mesmo assim, muitos dos “grandes doadores estão desanimados com [o que consideram ser] o apoio mais brando de Biden a Israel”, informa o jornal.

Recentemente, o site Responsible Statecraft publicou uma investigação, “A política de Biden para Gaza arrisca sua reeleição mas agrada seus doadores mais ricos”, que revela que “mais de um terço dos principais financiadores do presidente – aqueles que doam mais de 900 mil dólares para o Biden Victory Fund – parecem ver poucas nuances no conflito [entre Israel e os palestinos] e demonstram uma simpatia esmagadora por Israel, às vezes beirando a hostilidade total aos palestinos e o fanatismo antimuçulmano”.

Em contrapartida, uma pesquisa patrocinada pelo The New York Times, o Siena College e The Philadelphia Inquirer descobriu que os eleitores jovens e não-brancos também estavam se afastando de Biden, embora pelo motivo oposto: porque deploram seu apoio a Israel.

No dia 16 de maio, o The Washington Post revelou que um grupo de aproximadamente 100 “bilionários e gigantes do mundo dos negócios” foi “formado logo após a revolta de 7 de outubro” para “‘mudar a narrativa’ em favor de Israel, em parte transmitindo ‘as atrocidades cometidas pelo Hamas (…) a todos os americanos’”. A missão declarada do grupo era “‘ajudar a vencer a ‘guerra’ da opinião pública dos EUA financiando uma campanha de informação contra o Hamas”.

O grupo foi formado pelo “bilionário e magnata do setor imobiliário Barry Sternlicht”. O jornal citou uma matéria de novembro do site de notícias Semafor, segundo o qual “Sternlicht estava lançando uma campanha de mídia anti-Hamas de 50 milhões de dólares com vários bilionários de Wall Street e Hollywood”.

O grupo inclui “o ex-CEO da Starbucks, Howard Schultz, o fundador e CEO da Dell, Michael Dell, o gerente de fundos de hedge, Bill Ackman, e Joshua Kushner, fundador da Thrive Capital e irmão de Jared Kushner, genro do ex-presidente Donald Trump”.

Os gigantes dos negócios também incluem “o fundador da empresa de salgadinhos Kind, Daniel Lubetzky, o gerente de fundos de hedge Daniel Loeb, o bilionário Len Blavatnik e o investidor imobiliário Joseph Sitt”, que se reuniram com o prefeito de Nova York, Eric Adams, para pressioná-lo a acionar a polícia para expulsar o acampamento antigenocídio na Universidade de Columbia.

A conclusão óbvia é que a classe capitalista dos EUA – os bilionários e executivos de alto nível do país – é decididamente pró-Israel, enquanto o restante da população é menos pró-Israel ou se opõe fortemente à conduta de Israel em Gaza. Em outras palavras: Wall Street apoia o genocídio (e, portanto, Washington também), enquanto muitos americanos comuns estão horrorizados.

Uma vez que a classe capitalista exerce enorme influência sobre as políticas públicas – por meio do financiamento de campanhas políticas; na recomendação de políticas públicas por meio de think-tanks; da colocação de seus representantes em posições-chave no Estado; de doações a universidades para moldar suas agendas de pesquisa e influenciar quem elas contratam e demitem; por meio de seu amplo lobby sobre os poderes Legislativo e Executivo; e por seu controle dos meios de comunicação de massa – é inevitável que as políticas públicas reflitam o forte apoio da elite corporativa a Israel.

Dizer, como fazem Mearsheimer e Walt, que o lobby de Israel molda a política externa dos EUA esconde uma verdade mais importante. As elites econômicas e os grupos organizados que representam os interesses comerciais apoiam fortemente Israel e moldam a política externa dos EUA. O lobby de Israel predispõe Washington a apoiar Israel somente na medida em que o lobby faz parte de, e é dirigido por, uma classe capitalista que se inclina fortemente a favor do Estado sionista e tem os recursos e as conexões para influenciar fortemente as posições da política externa dos EUA.

Um estudo de 2014 sobre mais de 1,7 mil questões de política dos EUA, realizado pelos cientistas políticos Martin Gilens e Benjamin I. Page, constatou que “as elites econômicas e os grupos organizados que representam interesses comerciais têm impactos substanciais sobre a política governamental, enquanto os cidadãos comuns e os grupos de interesse de massa têm pouca ou nenhuma influência independente”.

O lobby pró-Israel tem um impacto substancial sobre a política governamental porque é dirigido por elites econômicas e interesses comerciais organizados e porque essas elites são fortemente pró-Israel. Mearsheimer e Walt chamam o lobby pró-Israel de poderoso, mas não investigam a fonte de seu poder. O lobby é poderoso porque é muito bem financiado. A única classe em posição de financiar generosamente um lobby para torná-lo poderoso o suficiente para moldar de forma decisiva as políticas públicas é a classe dos executivos corporativos, financistas e investidores bilionários.

Então, por que a classe capitalista dos EUA apoia Israel de forma tão esmagadora?

Entre os membros da elite econômica dos EUA, o apoio a Israel pode derivar, em alguns casos, de convicções sionistas (cristãs ou judaicas), mas as convicções sionistas são muito menos importantes como base para as opiniões pró-Israel entre os membros da classe capitalista dos EUA do que a consciência da elite sobre a realidade de que Israel atende a seus interesses de classe em uma parte do mundo economicamente rica e estrategicamente significativa. O controle dos EUA sobre o petróleo do Oriente Médio proporciona às empresas americanas uma rica fonte de lucros. Ele também dá à elite corporativa uma vantagem sobre seus rivais comerciais na Europa, no Japão e na China, que dependem de forma crítica dos recursos petrolíferos do Oriente Médio para sobreviver. Israel ajuda Washington a controlar o Oriente Médio de uma forma que nenhum outro estado da região é capaz de fazer.

Os líderes nacionalistas árabes sempre deixaram claro porquê a classe capitalista dos EUA apoia Israel sem reservas. Israel é um cão de guarda, uma fera rosnante, “um punhal apontado para o coração do mundo árabe”, que Washington usa para manter as forças nacionalistas árabes e muçulmanas sob controle, para garantir que o vasto prêmio econômico e estratégico do petróleo do Oriente Médio permaneça sob o controle dos servos políticos da América corporativa em Washington e de seus sátrapas árabes, os reis, emires, sultões e ditadores militares que, em sua maioria, detestam a democracia e colaboram com o poder dos EUA apoiado por Wall Street contra as pessoas comuns dos mundos árabe e muçulmano.

O petróleo do Oriente Médio não é um prêmio que a fração corporativa dos EUA esteja disposta a ceder a forças locais nacionalistas e independentistas. Em troca do apoio de Washington a Israel para levar adiante o projeto sionista, Israel ajuda a cuidar dos interesses da das corporações dos EUA no Oriente Médio. É um pacto mutuamente benéfico de forças nacionalistas judaicas que colaboram com os interesses comerciais dos EUA para manter os árabes e os iranianos sob controle, os americanos no comando e os israelenses abastecidos com armas e apoio diplomático para impor seu regime de supremacia judaica no Levante.

(*) Tradução de Raul Chiliani

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