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A loucura não é Milei, é o projeto

As elites aceitam figuras como Milei para aplicar ajustes impossíveis por outros meios; depois, os descartam, culpando-os individualmente e mantendo intacto o modelo

Jorge Coulon
O presidente da Argentina Javier Milei discursando na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC) de 2025 no Gaylord National Resort & Convention Center em National Harbor, Maryland, EUA. (Foto: Gage Skidmore / Flickr)
O presidente da Argentina Javier Milei discursando na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC) de 2025 no Gaylord National Resort & Convention Center em National Harbor, Maryland, EUA. (Foto: Gage Skidmore / Flickr)

Javier Milei mantém-se no poder graças a um equilíbrio tanto frágil quanto é perverso: a disputa por quem o sucederá. Ele já não é sustentado pela confiança social nem por um horizonte de futuro, mas pelo cálculo de cada fração que procura impedir que o rival herde o trono. A luta pela sucessão é hoje o seu único oxigênio político.

Seu governo fracassou. E fracassou rapidamente. Não por suas provocações na televisão nem pelos desvarios de um ambiente extravagante, mas porque o projeto que tentou impor era, desde sua origem, um delírio econômico e político. O dogma do mercado absoluto, levado ao extremo de dinamitar o próprio Estado, era em si mesmo insustentável para qualquer sociedade complexa.

É necessário sublinhar: os mesmos setores que promoveram essa experiência tentarão se eximir da culpa, culpando Milei por sua “loucura individual”. Apresentarão o fracasso como consequência de seu temperamento errático, ocultando que o que desabou foi a racionalidade do modelo que o sustentava. Bancos, corporações e operadores de mídia já estão trabalhando nesse álibi: transferir a responsabilidade para a psique de um presidente “excêntrico” e não para a demência sistêmica de seu programa.

A cena não é nova na América Latina. Bolsonaro no Brasil, Fujimori no Peru ou mesmo a breve experiência de Castillo mostram um padrão: as elites aceitam personagens disruptivos enquanto servem para aplicar ajustes impossíveis por outros meios. Quando se tornam disfuncionais, são descartados, numa tentativa de sempre salvar o cerne do projeto econômico. Milei faz parte dessa série: um instrumento, antes de um protagonista. 

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Hoje, o campo de possibilidades em torno de sua saída oscila entre cenários extremos – o manicômio, a prisão, a renúncia forçada. Mas o que realmente está em jogo não é o destino pessoal de Milei, e sim se a sociedade argentina conseguirá impedir que se exima a responsabilidade daqueles que o empurraram para o poder. Não basta se livrar do “louco”: é preciso desmontar o projeto que o tornou necessário.

O problema não é Milei, embora Milei seja muito louco.

O problema é a insanidade do projeto que o levou ao poder.

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