Na semana passada, uma onda de frio inédita em Cuba levou a temperatura a zero graus pela primeira vez na história do país. Como se o novo golpe da crise climática fizesse parte do roteiro de asfixia do inimigo imperial, que nos últimos dias apertou o cerco para estrangular a ilha rebelde, bloqueando seu abastecimento de petróleo. Após o sequestro de Nicolás Maduro, a dupla Donald Trump-Marco Rubio vai atrás do velho desejo que mantêm as elites americanas acordadas há mais de seis décadas: Cuba.
“Se eu estivesse no governo de Havana, estaria preocupado”, alertou em 3 de janeiro o secretário de Estado dos EUA, obcecado desde sempre em derrubar a revolução do país onde seus pais nasceram. A ameaça de que a maior das Antilhas seria a próxima presa foi explicitada, repetidas vezes, pelo próprio Trump: “Cuba está muito perto do colapso”, “está pronta para cair”, “não poderá sobreviver”.
E, em 29 de janeiro, ele pisou no acelerador. Assinou uma ordem executiva que classifica Cuba como “uma ameaça incomum e extraordinária à segurança e à política externa dos Estados Unidos” e anunciou a imposição de tarifas aos países que lhe vendem petróleo. Na prática, um bloqueio energético que aprofunda o histórico embargo econômico-comercial e que busca provocar uma crise humanitária.
Desta vez, a fachada oficial não incluiu presidentes narcotraficantes nem cartéis fantasmas. Pura guerra geopolítica e intimidação ideológica: o decreto acusa Cuba de “se aliar a países e atores malignos adversários dos Estados Unidos” e de difundir “ideias, políticas e práticas comunistas por todo o hemisfério ocidental”.
O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, descreveu a manobra como “fascista, criminosa e genocida” e garantiu que estão dispostos “a defender a pátria até a última gota de sangue”. Dias depois, mostrou-se aberto a um diálogo com os EUA, mas “sem pressões e respeitando a soberania e a autodeterminação”.
Uma panela de pressão
As novas medidas coercitivas atingem uma infraestrutura energética muito deteriorada e no contexto de uma das crises econômicas mais profundas da história cubana. Em diálogo com El Salto, Roque Lazo, membro do Centro Memorial Martin Luther King, relata: “A realidade cotidiana está sendo muito difícil. Eu diria que é uma crise em vários níveis. Uma crise energética que provoca apagões prolongados, uma crise material que atinge a alimentação, os cuidados, a saúde pública, a educação, que provoca esgotamento físico, mental, que provoca desesperança. Uma crise cuja causa fundamental tem a ver com a política de asfixia dos EUA e, em menor medida, com erros do governo na política econômica”.
Gabriel Vera Lopes, analista e correspondente do Brasil de Fato em Havana, concorda com o caráter “extremamente crítico” da situação. “Além dos prolongados cortes de energia que perturbam a vida cotidiana, a falta de fornecimento elétrico afeta outras questões, como o bombeamento de água para as casas, a coleta de lixo, o funcionamento das escolas e universidades ou o serviço de internet”, descreve.
Díaz-Canel reconheceu que Cuba não recebe combustível desde dezembro passado e anunciou “um plano de contingência”. Entre outras medidas, a semana de trabalho foi reduzida para quatro dias, a Universidade de Havana passou a funcionar em modalidade semipresencial, os serviços de transporte foram cortados e a compra de gasolina foi limitada.
Cuba consome cerca de 120 mil barris de petróleo por dia, dos quais produz cerca de 30%. Seu principal fornecedor era a Venezuela que, no auge da aliança entre Hugo Chávez e Fidel Castro no início do século, chegou a enviar cerca de 100 mil barris por dia, enquanto centenas de médicos cubanos atendiam em todos os cantos do país sul-americano. Esse fornecimento de petróleo, que vinha diminuindo nos últimos anos, foi interrompido abruptamente com a intervenção militar de 3 de janeiro.
O outro grande fornecedor é o México, que enviava cerca de 17 mil barris por dia, mas também interrompeu o fornecimento diante da extorsão de Trump: mais de 80% das exportações mexicanas são destinadas aos EUA, pelo que as eventuais sanções teriam um impacto direto na sua economia.
Sua presidente, Claudia Sheinbaum, anunciou o envio de ajuda humanitária, com 800 toneladas de alimentos e produtos básicos, enquanto explora “por vias diplomáticas” como restabelecer o fornecimento de petróleo à ilha. Nos próximos dias, ela enviará outras 1.500 toneladas de ajuda humanitária à ilha.
O cerco energético se instala sobre uma economia enfraquecida, que teve uma contração do PIB de mais de 11% nos últimos cinco anos, principalmente devido à queda do turismo – principal fonte de divisas –, que encerrou 2025 como seu pior ano desde 2002 (com exceção da pandemia). O boicote de Washington, que implementou a recusa de vistos para quem viajasse a Cuba, também desempenhou um papel importante.
Uma tempestade perfeita que tem como ponto central os interesses da Casa Branca desde que, em 1962, John F. Kennedy impôs o bloqueio econômico, comercial e financeiro, mantido durante as 12 administrações seguintes, cujos danos acumulados são estimados em 170 bilhões de dólares.
Fraquezas e resistências
O desastre econômico se alimenta do desgaste da revolução. Vera Lopes aponta que “a crescente hostilidade dos EUA ocorre em um momento em que a prolongada crise econômica gerou um forte nível de desafetação política em amplos setores sociais, que se viram desmoralizados diante da falta de respostas, respostas tardias e excesso de burocracia para enfrentar os problemas graves e urgentes”.
Em sintonia, Lazo analisa: “Na alta política também há uma crise. Uma retórica impactada pelo desgaste natural dos anos e por uma guerra assimétrica na ordem ideológico-cultural, que, em nível global, vai contra os preceitos essenciais da revolução. E há outras causas particulares do processo cubano, como a socialização incompleta do poder e a orfandade que deixou a partida de Fidel Castro”.
Há lugar para o otimismo da vontade? Que capacidade de resistência se vislumbra neste panorama sombrio? Lazo destaca que “crise não significa morte, nem necessariamente seu prelúdio. Porque em meio a essas graves carências, há também uma fibra patriótica que se tornou evidente novamente após 3 de janeiro”.
Vera Lopes também faz referência às marchas gigantescas que ocorreram após o ataque contra a Venezuela: “Apesar dessa crise política, ainda sobrevivem níveis muito altos de consciência e adesão ao projeto que a imprensa internacional deixa de lado. Um nível de mobilização gigantesco que mostra elementos de patriotismo muito fortes na população que convive, de forma tensa, com essas desilusões ou raiva pelas reivindicações acumuladas”.
“A trágica solidão de Cuba”
Foi assim que Eduardo Galeano intitulou um artigo em que analisava a complexa situação cubana após a queda do bloco soviético. E não são poucas as semelhanças deste momento com aquele chamado “período especial”.
A intervenção dos Estados Unidos na Venezuela teve impacto em vários níveis. É claro que no nível material, com o corte do fornecimento de petróleo, mas também no nível simbólico, ao dimensionar-se a capacidade operacional da principal potência militar e no efeito emocional que provocou o assassinato de 32 soldados cubanos que faziam parte da guarda de Maduro.
Lazo também menciona o impacto político: “Estamos vendo o desmantelamento do Estado venezuelano tal como o conhecíamos até agora: eu traduzo isso como uma mudança de regime com o próprio regime. E essa perda de nosso principal aliado nos deixa em uma situação de grande vulnerabilidade e nos leva a questionar se essa estratégia poderá se repetir conosco”.
“A China é o principal aliado na estratégia de transição energética, mas é uma transição muito lenta, no momento Cuba produz apenas 10% de energia renovável. A Rússia fornece um pouco de petróleo, pelo que há uma certa expectativa de que haja um aumento desse fluxo, e também de ajuda em termos de segurança”, aponta Vera Lopes.
Lazo acrescenta a complexidade de uma história conflituosa nas relações de Cuba com a Rússia e a China. E não deposita muitas esperanças: “Houve algum apoio material, mas muito insuficiente para o grau de profundidade da crise que vivemos. Estariam dispostos a arriscar suas estratégias geopolíticas na Europa Oriental e na Ásia pelo que pode acontecer no Caribe? Há pessoas que depositam muita fé nisso, mas até agora as evidências mostram o contrário. Se não puderam ajudar a Venezuela, por que ajudariam Cuba?”.
Da América Latina também não está havendo uma resposta à altura da gravidade da agressão, além de alguma declaração de Lula e da preocupação das organizações populares. A “Doutrina Donroe” e sua ameaça belicista, por enquanto, geram mais medo do que unidade: cada um negocia como pode e de forma isolada com o autoproclamado imperador global. E, como um triste paradoxo, Cuba, o maior exemplo de solidariedade e internacionalismo, enfrenta seu momento mais difícil em uma trágica solidão.
(*) Tradução de Raul Chiliani






































