Pesquisar
,

Terapia de choque cor açafrão

Na Índia “Modi-ficada”, esse fanatismo religioso-nacionalista se une a uma mudança de paradigma econômico para criar um regime neoliberal.

Por Thomas Stauber – Traduzido por Matheus Cornely | Revista Opera
(Foto: Pete Souza/White House)

O presidente indiano Narendra Modi saiu nas páginas da imprensa internacional por sua decisão de retirar de circulação as notas de 500 e 1000 rupias “para combater a corrupção”, o que gerou pânico na população. Não obstante, o mandatário mantém índices elevados de apoio popular: sua aliança entre nacionalismo hindu e neoliberalismo lhe deu frutos. Paralelamente, os hinduístas radicais estão na ofensiva e se sentem encorajados a intimidar e discriminar abertamente as minorias religiosas, especialmente muçulmanos e cristãos.

No final de 2016, um então primeiro ministro indiano Narendra Modi ousou outra vez pronunciar um grande discurso dirigido a seus compatriotas. Até então, haviam passado 50 dias desde seu discurso anterior, de graves consequências, em que havia anunciado de maneira repentina a drástica proibição das notas de 500 e 1000 rupias [1]. É por isso que o novo discurso, transmitido na televisão em 31 de dezembro, foi aguardado desde as semanas anteriores. Muitos esperavam que Modi explicaria outra das medidas da reforma feita pelo governo. Mas sofreram uma amarga decepção: o primeiro ministro apenas voltou a colocar o acento na necessidade de “limpar” a nação indiana dos males da corrupção e do dinheiro em espécie. E não disse uma só palavra sequer sobre as vítimas da sua reforma radical: por exemplo, sobre as mais de 100 pessoas que morreram de exaustão enquanto aguardavam em uma caótica fila de câmbio ou que se suicidaram, dominadas pelo desespero.

A desmonetização havia sido anunciada por Modi em 8 de novembro de 2016. Em menos de um dia, 85% das notas em circulação tiveram seu valor anulado. Segundo Modi, essa medida era necessária para impulsionar a luta contra a corrupção e o dinheiro ilícito. Em um país em que quase 98% das transações são pagas em espécie, isto constituiu uma terapia econômica de choque [2]. O gargalo de liquidez afeta especialmente as pessoas que dependem em grande medida do dinheiro em espécie por não terem acesso a cartões de crédito, contas bancárias ou carteiras digitais: condutores de riquixá, pessoas que trabalham em colheitas, jornaleiros, vendedores ambulantes, ou seja, cerca de metade da população da Índia [3]. Além disso, tampouco é possível que a anulação dessas notas alcance, a longo prazo, os resultados esperados, já que se estipula que apenas 5% de todo o capital ilícito é dinheiro em espécie [4]. Porém, a maioria dos trabalhadores precarizados apoia o primeiro ministro e sua promessa de combater desde modo a corrupção e a pobreza.

Modi e seu chamado para construir uma “grande nação indiana” tem grande aceitação também em amplos setores da pujante classe média urbana (hindu em sua maioria). Na suposta luta “da nação” contra os males da sociedade, Modi e seu partido, o oficial Partido Popular Indiano (Bharatiya Janata Party ou BJP), conseguem cobrir a sempre virulenta pobreza e crescente fratura social do subcontinente. Modi aposta em uma retórica nacionalista hindu tanto internamente quanto externamente: enquanto se gaba da sua “guerra cirúrgica” contra os separatistas da Caxemira, o primeiro ministro já empunhou a nova arma – a desmonetização -, com a qual pretende curar as “úlceras sangrantes” no interior da sociedade indiana: a corrupção, o dinheiro ilícito e o financiamento do terrorismo.

Com a desmonetização, também descrita por Modi como golpe cirúrgico contra a lavagem de dinheiro, pretende-se combater as forças “antinacionais”. As drásticas reformas dão maior impulso ao estilo de condução autoritária de Modi e provocam um aumento de sua popularidade. Junto com o agressivo programa nacionalista hindu do BJP, representam um perigo cada vez maior para a democracia pluralista da Índia pós colonial. Numerosos observadores até vêem os prolegômenos de uma mudança de era. Durante muito tempo, o cada vez mais autoritário e agressivo nacionalismo hindu foi considerado um fenômeno social marginal. Mas com Modi, essa ideologia está conseguindo a hegemonia política e cultural do país e serve, não poucas vezes, como fundamento legitimador da violência. A tolerância política, cultural e religiosa de outros tempos retrocede frente a cotidianos casos de assédio, discriminação e violência contra dissidentes e minorias, como os adivasi, descendentes dos indígenas da Índia. Também são vítimas as minorias religiosas e, inclusive, os assassinatos de opositores políticos e de dalits ou párias vem aumentando.

Neoliberalismo sob a bandeira do açafrão

 

Na Índia “Modi-ficada”, esse fanatismo religioso-nacionalista se une a uma mudança de paradigma econômico para criar um regime neoliberal. Além do nacionalismo hindu, governa uma política econômica apresentada elogiosamente pelo governo como “o modelo de desenvolvimento de Gujarat” e que é vendido como um êxito à grande parte da opinião pública. O governo de vangloria pelas elevadas taxas de crescimento, celebra grandes projetos de energia, infraestrutura e defesa, e atribui a si os programas espaciais e de satélite do Estado como condecorações para uma nação que aspira ser uma potência. Muitos membros da classe média indiana se sentem muito orgulhosos da nova grandeza de sua nação indiana. E o fato de que o nacionalismo hindu agressivo se fortalece simultaneamente com o radicalismo do mercado não é um acidente para muitos observadores: ambas as ideologias se encaixam perfeitamente entre si.

Essa combinação pode ser vista com frequência. Não foram poucas as vezes em que forças reacionárias fizeram uso de uma política econômica pró-mercado radical, tal como nos mostra o experimento neoliberal do Chile sob a ditadura militar de Augusto Pinochet e, alguns anos depois, a política agressiva de Ronald Reagan nos Estados Unidos. Mas na Índia existem particularidades que colaboram para o êxito do neoliberalismo e do açafranismo [5]. Assim pois, a origem dessa aliança não santa se remonta a vários anos antes do triunfo eleitoral do BJP com Modi em 2014. Há de se retroagir para o começo da década de 80, quando os centros urbanos da Índia viram-se afetados pela primeira grande onda de desindustrialização. Muitos assalariados foram despedidos; entre eles, centenas de milhares de trabalhadores das fábricas têxteis de Mumbai e Ahmedabad. Naquele tempo, os nacionalistas hindus recorreram, por exemplo, a ataques para debilitar as organizações sindicais. Eles, então, aproveitaram o crescente descontentamento dos trabalhadores para propagar no povo sua ideologia religioso-nacionalista



1.
V. transcrição do discurso de Modi no Wall Street Journal, 8/11/2016,

3.
Akshay Deshmane: «Ruined Livelihoods» em Frontline, 9/12/2016.

4.
Appu Esthose Suresh: «Why Govt’s Demonetisation Move May Fail to Win the War against Black Money» em Hindustan Times, 12/11/2016.

5.
Em referência à cor açafrão, que identifica os nacionalistas hindus e sua crescente influência política.

6.
Shankar Gopalakrishnan: Neoliberalism and Hindutva: Fascism, Free Markets and the Restructuring of Indian Capitalism, Aakar Books, Nueva Delhi, 2008.

Continue lendo

O verdadeiro desafio que o Irã colocou diante de Washington é, portanto, conceitual. Quem define a agenda? Quem decide quais armas, bases e alianças são desestabilizadoras? (Foto: khamenei.ir / Wikimedia Commons)
O Irã mudou a questão; Washington não sabe responder
O ministros de Relações Exteriores do Irã, Mohammad Javad Zarif, e da China, Wang Yi, durante assinatura do Programa de Cooperação de 25 anos entre Irã e China. (Foto: Tasnim / Wikimedia Commons)
O escudo da China que permite que o Irã siga na luta
O presidente dos EUA, Donald Trump, durante discurso na Casa Branca. (Foto: Daniel Torok / White House)
Irã, Rússia, Palestina: uma leitura das estratégias de segurança nacional dos EUA

Leia também

Quando transformamos livros em uma espécie de forragem ou combustível para as máquinas, evaporamos universos inteiros. (Imagem: Estúdio Gauche)
Bibliocídio: como as big techs queimam livros
Membros da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) – lefebvrianos – durante missa na Igreja de St. Jude, na Filadélfia. (Foto: jcapaldi / Flickr)
O primeiro racha na Igreja sob Leão XIV
Marx abordou o capitalismo do ponto de vista do trabalho assalariado; Weber, do ponto de vista dos proprietários do capital. (Imagem: Estúdio Gauche)
Marx e Weber: ângulos de visão
Pouco conhecida em comparação com as principais empresas do Big Tech (Google, Amazon, Meta, Apple), a Palantir Technologies é uma veterana no Vale do Silício. A pedra fundamental da empresa foi lançada pela agência de inteligência americana CIA por meio de seu fundo de investimento In-Q-Tel. (Imagem: Adrián Astorgano / El Salto)
Palantir: a empresa mais perigosa do mundo
18.12.2025 - Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante cerimônia de apresentação dos oficiais-generais promovidos. Clube do Exército – Sede Lago. Brasília (DF) - Brasil. (Foto: Ricardo Stuckert / PR)
Defesa nacional: a falsa solução dos gastos militares
Retrato de Muammar Gaddafi pintado em Lyon, na França. (Foto: Thierry Ehrmann / Flickr)
A Líbia pós-Gaddafi, 15 anos depois
São Paulo (SP), 11/09/2024 - 27ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo no Anhembi. (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)
Ser pobre e leitor no Brasil: um manual prático para o livro barato
Cristãos ortodoxos durante procissão de Domingo de Ramos em Gaza. 13/04/2014. (Foto: Joe Catron / Flickr)
“Morte aos cristãos”: a crescente violência anticristã em Israel