Pesquisar
,

Balanço político da greve nacional na Colômbia

Em ano pré-eleitoral e em meio à piora nos índices de pobreza e desemprego, Colômbia se levanta contra nova proposta neoliberal de Duque.

Em ano pré-eleitoral e em meio à piora nos índices de pobreza e desemprego, Colômbia se levanta contra nova proposta neoliberal de Duque. Por Javier Calderón Castillo | Celag – Tradução de Pedro Marin para a Revista Opera, com revisão de Rebeca Ávila
(Foto: Comisión Nacional de Comunicaciones Marcha Patriótica)

O presidente colombiano Iván Duque apresentou um projeto de reforma tributária ao Congresso da República em 20 de abril, com o qual pretendia arrecadar cerca de 8 bilhões de dólares, sob o argumento de enfrentar a crise sanitária. Esta proposta foi rejeitada pela maioria dos diversos setores políticos e sociais do país, causando uma onda de protestos massivos (Greve Nacional) em todas as cidades da Colômbia desde 28 de abril; após cinco dias de mobilizações e repressão policial (com 16 mortos confirmados e muitos feridos), o governo foi forçado, no dia 2 de maio, a retirar o projeto e apelar ao diálogo político.

A resposta foi rechaçada desde o início pela maioria das bancadas parlamentares, incluindo alguns partidos oficialistas e outros que haviam dado apoio e governabilidade ao presidente (como o Partido Liberal, liderado pelo ex-presidente César Gaviria). Era uma proposta com o selo de fracasso desde o começo.

Atendendo a múltiplos interesses, esses setores políticos e boa parte da sociedade civil mostraram seu desacordo com a estrutura da reforma, e inclusive com a própria ideia de impor mais impostos, já que desde a reforma tributária anterior de Duque, de 2019, o mal-estar foi crescendo ao compasso das enormes isenções fiscais concedidas aos grandes capitais, que se beneficiaram com mais de 4 bilhões de dólares por ano desde então.

O contexto social também não é favorável. Os altos índices de pobreza aumentaram consideravelmente: relatórios oficiais estimam a pobreza monetária em 42,5% (21,1 milhões de pessoas) e a pobreza monetária extrema chega a 15,2% (7,6 milhões de pessoas), com 14,5% de desemprego, 51,2% de informalidade e com sérias dificuldades de vacinação (cinco milhões de doses foram aplicadas, sem que a Pfizer ou a Sinovac aumentem o ritmo de entregas), com novos surtos de infecções que forçam o fechamento parcial das lojas.

Tudo isso acontece em um ano pré-eleitoral, em que todas as formações políticas começam a pensar e agir em face de seus eleitores, com maior cálculo político. Embora faltem dez meses para as eleições parlamentares e um ano para as presidenciais, o governo já tem o sol nas costas e não tem força suficiente para somar todos os grupos de direita à sua agenda de gestão.

Efeitos políticos da retirada da reforma tributária

1 – A retirada do projeto de reforma tributária é uma derrota política e simbólica para o uribismo e para o presidente Duque. A um ano das eleições, esse revés afugentará seus aliados no Congresso, com quem logrou estabilizar sua governabilidade em 2019, mas que não se definem como oficialistas: o Partido Liberal do ex-presidente César Gaviria e o Cambio Radical do ex-vice-presidente de Juan Manuel Santos, Germán Vargas Lleras. Esses partidos já estão pedindo para que suas cotas ministeriais deixem o governo, o que significaria um cenário de ingovernabilidade, ao não conseguir maiorias no Congresso. Gaviria e Vargas Lleras, ao rechaçar a reforma e desligar-se de Duque, pretendem canalizar o descontentamento social e colocar em seus próprios pescoços uma medalha de triunfo pensando em 2022.

2 – O ministro da Fazenda apresentou sua renúncia sem que ela ainda tivesse sido aceita pelo presidente Duque. Inicia-se uma negociação entre partidos da direita, promovida pelo uribismo para conseguir governabilidade; nesse contexto, a oferta de ministérios pode levar a uma crise ministerial que culmine com várias mudanças.

3 – A coalizão do Pacto Histórico, liderada por Gustavo Petro e Iván Cepeda, sai muito fortalecida. Seus parlamentares lideraram a oposição à reforma e acertaram em sua vinculação à população e ao respaldo à greve nacional. No entanto, isso pode ser um triunfalismo que conduz a erros, como igualar a agitação social a uma estrutura de mudança.

4 – A população ganhou ao sair massivamente às ruas para demonstrar seu inconformismo. O fez por um acúmulo de demandas não contempladas e pela desconexão do governo com as maiorias. O governo é percebido como uma elite, e a reforma tributária só acabou por forçar a decisão a grupos moderados, que estavam esperando o diálogo com o governo. A mobilização seguirá enquanto o governo e o Congresso não derem uma resposta social e pacífica.

5 – A juventude ganhou. Falou claramente e está cumprindo um papel central na disputa; nos próximos meses será o centro das ações estatais criminalizar essa vontade, já que o governo sabe que existe despolitização e que o medo é capaz de dissuadir. Talvez seja tarde para reverter esse sentido comum antiuribista (principalmente) construído na juventude colombiana. Pessoas que votaram em Uribe e em Duque se declaram hoje antiuribistas, fartas da corrupção e solidárias com a mobilização. Há uma “repolitização” do país.

6 – A situação deu um impulso à esquerda e ao progressismo, que têm a responsabilidade de orientar como a disputa continuará. Se esse descontentamento for orientado e administrado, estará refletido nas eleições e esquerda ou o progressismo serão governo; se não o fazem bem, o inconformismo pode ser engolido pela antipolítica (voto branco, nulo, todos são iguais, etc.)

7 – O presidente Duque lançou o Exército às ruas no sábado (1). Essa ameaça de militarização acabou rápido, pois 24 horas depois Duque se viu obrigado a retirar a reforma. O povo não se intimidou e as forças militares devem estar calculando para não carregar o fardo de um governo tão debilitado. O cenário mais provável é que estejam pensando em uma alternativa própria (não um golpe, mas um acordo com a direita não-uribista, em sintonia com os EUA de Biden).

8 – Acabam enfraquecidos a prefeita de Bogotá, Claudia López, e o de Cali, Iván Ospina. São grandes perdedores porque apoiaram a reforma tributária e não conseguiram evitar os abusos da força pública. Em Cali, a cifra oficial é de sete pessoas mortas, há pessoas desaparecidas e muitos feridos. Só se distanciaram de Duque, contra a militarização, quando o presidente decidiu retirar a reforma.

9 – As mobilizações ultrapassaram o poder dos meios de comunicação tradicionais (como RCN e El Tiempo), que desde o começo estigmatizaram o chamado à greve. Por outro lado, as redes sociais ganharam: são o centro de interação, discussão e informação (e desinformação).

Cenários

O primeiro cenário é um diálogo da elite. Ao retirar a reforma tributária, o presidente Duque chamou ao diálogo, mas não está claro se repetirá seu manual de 2019, quando decidiu acordar com o Cambio Radical e o Partido Liberal – junto às câmaras empresariais – e nunca se reuniu com os representantes da greve, nem sindicais, nem sociais. É o cenário mais provável, mas as forças políticas da direita estão pensando nas eleições de 2022 e poderiam deixar o uribismo sem margem para governar. Nesse sentido, as privatizações das poucas empresas estatais que ainda restam serão a saída para financiar o último ano de governo.

O outro cenário é de diálogo nacional com todos os setores, o que implica reconhecer uma agenda de demandas mais amplas que a tributária, que incluem a política de paz e reivindicações setoriais. É um cenário de baixa probabilidade, mas poderia ser a saída para descomprimir a raiva e terminar o mandato com o diálogo social como legado.

Continue lendo

Iraniana durante marccha pelo aniversário da Revolução Islâmica iraniana de 1979. (Foto: Mostafa Meraji / Wikimedia Commons)
O Irã vencerá a guerra: seis aspectos a considerar
Membros da Organização Badr durante operação para libertar a cidade de Tal Afar, durante a guerra contra o Estado Islâmico em julho de 2014. (Foto: Mohammad Hossein Velayati / FARS / Wikimedia Commons)
“EUA e Israel cruzaram todas as linhas”: milícia xiita no Iraque fala em “ponto sem volta” após ataque ao Irã
Soldados do Exército da República Islâmica do Irã durante desfile militar em setembro de 2011. (Foto: Reza Dehshiri / YPA / Wikimedia Commons)
Nem rendição nem acordo: a guerra no Irã entra na sua terceira semana

Leia também

São Paulo (SP), 11/09/2024 - 27ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo no Anhembi. (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)
Ser pobre e leitor no Brasil: um manual prático para o livro barato
Brasília (DF), 12/02/2025 - O ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, durante cerimônia que celebra um ano do programa Nova Indústria Brasil e do lançamento da Missão 6: Tecnologias de Interesse para a Soberania e Defesa Nacionais, no Palácio do Planalto. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
O bestiário de José Múcio
O CEO da SpaceX, Elon Musk, durante reunião sobre exploração especial com oficiais da Força Aérea do Canadá, em 2019. (Foto: Defense Visual Information Distribution Service)
Fascista, futurista ou vigarista? As origens de Elon Musk
Três crianças empregadas como coolies em regime de escravidão moderna em Hong Kong, no final dos anos 1880. (Foto: Lai Afong / Wikimedia Commons)
Ratzel e o embrião da geopolítica: a “verdadeira China” e o futuro do mundo
Robert F. Williams recebe uma cópia do Livro Vermelho autografada por Mao Zedong, em 1 de outubro de 1966. (Foto: Meng Zhaorui / People's Literature Publishing House)
Ao centenário de Robert F. Williams, o negro armado
trump
O Brasil no labirinto de Trump
O presidente dos EUA, Donald Trump, com o ex-Conselheiro de Segurança Nacional e Secretário de Estado Henry Kissinger, em maio de 2017. (Foto: White House / Shealah Craighead)
Donald Trump e a inversão da estratégia de Kissinger
pera-5
O fantástico mundo de Jessé Souza: notas sobre uma caricatura do marxismo
Uma mulher rema no lago Erhai, na cidade de Dali, província de Yunnan, China, em novembro de 2004. (Foto: Greg / Flickr)
O lago Erhai: uma história da transformação ecológica da China
palestina_al_aqsa
Guerra e religião: a influência das profecias judaicas e islâmicas no conflito Israel-Palestina