No último dia 4 de dezembro a administração de Donald Trump publicou a sua Estratégia Nacional de Segurança (NSS). Este documento, exigido pelo Congresso americano desde a Lei Goldwater-Nichols de 1986, é peça fundamental para entendermos a gramática do poder americano. O que temos em mãos agora não é um plano de governo ou um documento anunciador do porvir, mas a formalização de um giro radical: o sepultamento de uma era onde a globalização era louvada e o renascimento de um imperialismo estadunidense que nunca morreu, apenas adormeceu. Um imperialismo muito mais agressivo, protecionista e focado no controle direto do entorno geográfico que compreende como seu vassalo: a América Latina.
A grande estrela do documento é a reafirmação da Doutrina Monroe. Após décadas de uma diplomacia que fingia horizontalidade, os EUA agora declaram explicitamente que todo o continente americano é o seu “quintal” e que não aceitarão “incursões não hemisféricas” (leia-se China). O que é definido agora como o “Corolário Trump” a essa doutrina é a elevação do narcoterrorismo – ou a tentativa de empurrá-lo goela abaixo – ao status de ameaça máxima à segurança nacional e justificativa para redobrar o controle sobre toda essa parte do globo, coisa explicitamente mencionada mais de uma vez:
“Após anos de negligência, os Estados Unidos irão reafirmar e impor a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental e para proteger a nossa pátria e o nosso acesso a geografias chave em toda a região. Negaremos aos concorrentes não-hemisféricos a capacidade de posicionar forças ou outras capacidades ameaçadoras, ou de possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais, no nosso Hemisfério. Este ‘Corolário Trump’ à Doutrina Monroe é uma restauração de bom senso e potente do poder e das prioridades americanas, consistente com os interesses de segurança dos Estados Unidos.”
Esta não é uma escolha semântica trivial. Ao classificar cartéis e grupos políticos regionais como “narcoterroristas”, Washington cria a justificativa jurídica para intervenções militares “preventivas” em solo latino-americano. O documento e as ações do governo Trump mais que sugerem que, se os governos locais não conseguem garantir a repressão do narcotráfico, os EUA têm o dever e o direito de intervir para garantir a estabilidade do hemisfério. É o retorno da diplomacia das canhoneiras, agora com mísseis guiados e drones contra pequenas embarcações no Caribe.
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Poucos dias depois da divulgação do documento, tudo isso foi reforçado em discurso do Secretário da Guerra, Pete Hegseth:
“As atividades do departamento em todo o Hemisfério Ocidental não se resumem apenas a eliminar narcoterroristas, mas também a dissuadir e defender os interesses da nossa nação contra outras ameaças no hemisfério. […] Isso inclui garantir o acesso militar e comercial dos EUA a áreas estratégicas como o Canal do Panamá, o Caribe, o Golfo da América, o Ártico e a Groenlândia.”
O texto traz uma admissão de erro histórica importante e que não passa despercebida: os EUA reconhecem que facilitar a entrada da China na ordem global foi um erro ou um engano. A burguesia estadunidense, na busca pelo lucro imediato, comprometeu o próprio parque industrial doméstico e subcontratou a sua soberania industrial ao transferir suas plantas para o sudeste asiático. E agora, com Trump, os EUA tentam reverter o prejuízo por meio de seus tarifaços, usando do protecionismo radical para forçar uma reindustrialização de guerra, mas esse processo leva mais tempo do que o republicano gostaria.
“O Presidente Trump reverteu sozinho mais de três décadas de suposições americanas erradas sobre a China: nomeadamente, que ao abrir os nossos mercados à China, encorajar os negócios americanos a investir na China e subcontratar a nossa produção para a China, facilitaríamos a entrada da China na chamada ‘ordem internacional baseada em regras’. Isso não aconteceu. A China enriqueceu e tornou-se poderosa, e usou a sua riqueza e poder em sua considerável vantagem.”
Talvez a parte mais ácida da nova estratégia seja o tratamento dado aos aliados europeus. O documento utiliza uma linguagem típica da extrema-direita para descrever o que chama de “apagamento civilizacional” da Europa. O que Washington sugere é que a Europa está em decadência terminal e que o continente se tornará irreconhecível em 20 anos graças à questão da imigração.
O recado estratégico é claro: a Europa tornou-se um fardo. Trump sinaliza o fim da expansão perpétua da OTAN e empurra o custo do guarda-chuva da OTAN para os países europeus e o cadáver ainda vivo e não solucionado da guerra na Ucrânia aparece como um imbróglio a ser resolvido de maneira urgente para atingir níveis novamente “aceitáveis” no relacionamento com a Rússia. Com esse movimento e as reiteradas acusações de “falta de democracia” no continente europeu, os EUA não apenas tentam enquadrar a Europa, mas deliberadamente alimentam e auxiliam a nada irrelevante extrema-direita, como o AfD na Alemanha. Outra vez os anos 20 cheiram a fascismo.
Além disso, a estratégia de segurança recém divulgada sela uma preocupação existencial, visando conter a ascensão tecnológica e naval da China. Em contraste, o Oriente Médio, por tanto tempo o centro gravitacional do Pentágono, foi rebaixado a uma menção rápida e esse fardo (como o descreve o documento) há de ser transferido para atores locais e parcerias de investimento. A nova estratégia sequer menciona o terrorismo que tanto ocupou as manchetes nas últimas décadas, ao que parece selando também o fim da Guerra ao Terror, pelo menos como a conhecemos até aqui. O termo aparece apenas sob a forma de “narcoterrorismo”, agora um problema criado para o continente americano, não mais para o Oriente Médio.
A grande verdade é que, face ao futuro conflito com a China, os EUA não querem mais gastar seu próprio sangue e ouro em desertos tão longe de casa, muito menos numa Europa em franca “decadência civilizacional”, preferindo investir pesadamente contra as pedras no seu sapato que pisa o continente latino-americano, principalmente a Venezuela, e em garantir o que mais de uma vez o documento descreve como “geografias chave da região” – especialmente o Canal do Panamá, onde já conseguiram prioridade de navegação e a instalação de suas tropas.
Para alguns, como o chanceler americano Friedrich Merz, o que este documento sela é o fim da Pax Americana, como se os Estados Unidos tivessem desistido de ser o “pacificador” do planeta ou, melhor dizendo, o grande tutor do globo, já que paz foi tudo que o mundo não experienciou nas últimas décadas.
Não nos enganemos: embora há tempos já seja mais que óbvia uma moderação no que antes era um mergulho de cabeça nos conflitos do mundo, os Estados Unidos não abriram mão de sua hegemonia global, estão apenas se reorganizando para o enfrentamento que a definirá por mais um tempo ou selará seu fim. E nessa reorganização somos nós, latino-americanos, que caminhamos sob a grande mira do Norte.
(*) Euclides Vasconcelos é professor de história e geografia. Estuda e escreve sobre os temas da guerra e da política. Organizou e prefaciou a publicação dos escritos militares de Friedrich Engels (Editora Baioneta) e atualmente trabalha nos escritos de Stálin, Trótski e Blanqui. Nascido e criado em Recife, é um apaixonado pelo Brasil.







































