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A guerra contra o Irã é exatamente o tipo de aventura que leva impérios ao fim

As lições da história revelam o tipo de dano duradouro que o fiasco militar de Donald Trump no Irã pode estar causando ao império declinante

Alfred McCoy
O presidente dos EUA, Donald Trump, durante discurso no Capitólio, dias antes de iniciar seu ataque ao Irã. (Foto: Daniel Torok / White House)
O presidente dos EUA, Donald Trump, durante discurso no Capitólio, dias antes de iniciar seu ataque ao Irã. (Foto: Daniel Torok / White House)

Escrevendo há mais de 2 mil anos, o historiador grego Plutarco nos deixou uma descrição eloquente do que os historiadores modernos chamam hoje de “micro-militarismo”. Quando uma potência imperial, como a Atenas daquela época, ou os Estados Unidos de hoje, está em declínio, seus líderes costumam reagir emocionalmente, lançando ataques militares aparentemente ousados na esperança de recuperar a grandeza imperial que lhes escapa das mãos. Em vez de mais uma das grandes vitórias que o império conquistou no auge de seu poder, porém, tais aventuras militares malfadadas servem apenas para acelerar o declínio em curso, apagando qualquer aura de majestade imperial que ainda reste, revelando, em vez disso, a podridão moral no íntimo da elite governante.

Há evidências históricas crescentes de que os Estados Unidos são, de fato, um império em declínio acentuado, enquanto a guerra escolhida pelo presidente Donald Trump contra o Irã está se tornando o tipo de microdesastre militar que ajudou a destruir impérios sucessivos nos últimos 2.500 anos – da Atenas antiga à Portugal medieval, passando pela Espanha moderna, Grã-Bretanha e agora os Estados Unidos. E no cerne de cada uma dessas decisões bélicas malfadadas estava um líder problemático, muitas vezes nascido em meio à riqueza e ao prestígio, cujas inadequações pessoais refletiam e ramificavam as muitas irracionalidades que tornam o declínio imperial um processo tão doloroso.

Durante essa espiral descendente desmoralizante, os exércitos imperiais, tão letais na ascensão de um império, podem errar ao mergulhar seus países em aventuras “micro-militares” desgastantes, até mesmo desastrosas – esforços compensatórios de um ponto de vista psicológico para amenizar a perda do poder imperial, tentando ocupar novos territórios ou exibir um poderio militar imponente. Embora tal micro-militarismo frequentemente escolhesse alvos que se revelavam estrategicamente insustentáveis, as pressões psicológicas sobre os impérios em declínio são tão fortes que, com demasiada frequência, eles arriscam seu prestígio justamente nessas aventuras malfadadas. Esses desastres não apenas adicionaram pressões financeiras aos muitos problemas de um império em declínio, mas, de forma humilhante, também invariavelmente expuseram seu poder em erosão, ao mesmo tempo em que exacerbaram o impacto desestabilizador do declínio imperial nas capitais do império (seja Atenas, Lisboa, Madri, Londres ou Washington).

Em nosso momento, quando as bombas deixarem de cair e os escombros forem finalmente removidos das ruas de Teerã e Beirute, o impacto de tal derrota de facto sobre o poder global dos EUA ficará bem claro – à medida que alianças como a OTAN se atrofiam, a hegemonia americana se evapora, a legitimidade se perde, a desordem global aumenta e a economia mundial sofre.

Permitam-me agora passar dos desastres do momento imperial atual para as lições da história, a fim de explorar o tipo de dano duradouro que a micro-aventura militar de Donald Trump no Oriente Médio pode estar infligindo ao império em declínio deste país.

A derrota de Atenas na Sicília

A data era 413 a.C. O local era a antiga Atenas, então sede de um poderoso império, há muito dominante ao redor do Mar Egeu, mas perdendo influência devido a um contínuo desafio militar por parte de Esparta. No porto de Pireu, um “certo estranho”, como o historiador e filósofo Plutarco recordou, “sentou-se em uma barbearia e começou a discorrer [sobre] o que havia acontecido, como se os atenienses já soubessem de tudo”. Atordoado pelo relato desse estranho sobre um desastre militar na distante Sicília, o barbeiro “correu a toda velocidade para a cidade alta” de Atenas, onde a notícia provocou “consternação e confusão”.

O que aquele estranho descreveu foi o maior desastre militar da história do império ateniense. Dois anos antes, em meio às prolongadas Guerras do Peloponeso, o aristocrata Nícias – um líder indiferente e indeciso que usava sua riqueza herdada para conquistar popularidade com espetáculos fastuosos – persuadiu os cidadãos de Atenas a desferir um golpe teoricamente ousado contra uma potência imperial rival, Esparta, atacando sua aliada Siracusa, na Sicília, na esperança de enfraquecer o inimigo, capturar riquezas e recuperar a hegemonia de Atenas, que estava em declínio.

Em vez da vitória, porém, a vasta armada de Atenas, composta por 200 navios e cerca de 12 mil soldados, sofreu uma derrota devastadora. Não só a frota foi destruída (em grande parte porque Nícias se revelou “um comandante militar incompetente”), mas seus soldados sobreviventes foram capturados, confinados a uma dieta de fome em uma pedreira e vendidos como escravos. Atenas nunca se recuperou.

Em menos de uma década, a cidade foi levada à submissão pela fome devido ao bloqueio impenetrável de Esparta em um ponto de estrangulamento naval no Estreito de Dardanelos, despojada de seu império e submetida a um regime autocrático por uma oligarquia pró-espartana.

O desastre de Portugal em Marrocos

Nosso próximo ano é 1578. O local é Portugal, sede de um lucrativo império que controlava o comércio no Oceano Índico há décadas, mas agora via sua hegemonia desafiada por príncipes mercadores muçulmanos aliados ao Império Otomano.

Em sua capital, Lisboa, um jovem rei obstinado, Sebastião, sofria de impotência sexual e de um temperamento explosivo que o tornava um fanático “capitão de Cristo”. Com a ideia de desferir um golpe letal na guerra global de seu país contra o Islã, o jovem rei persuadiu a flor e a nata da aristocracia de sua nação a segui-lo em uma cruzada moderna através do Mar Mediterrâneo até Marrocos. Lá, na fatídica Batalha de Alcácer Quibir, o exército de Portugal foi massacrado pelas forças muçulmanas locais. Cerca de 8 mil soldados portugueses foram mortos, 15 mil capturados e apenas 100 escaparam.

A derrota foi tão devastadora que não só destruiu o rei e sua corte, mas também precipitou a incorporação do país ao Império Espanhol pelos 60 anos seguintes. Na sequência de tais reveses, o Estado da Índia português em Goa foi reduzido a vender licenças a qualquer capitão de navio que pudesse pagar, fosse ele hindu, muçulmano ou cristão. Com o domínio comercial português removido do Oceano Índico, comerciantes e peregrinos muçulmanos puderam mais uma vez atravessá-lo sem impedimentos.

Embora o império português sobrevivesse por mais três séculos, ele nunca recuperaria a hegemonia comercial que outrora lhe permitiu dominar as rotas marítimas mundiais, desde as Ilhas das Especiarias da Indonésia, passando pelo Oceano Índico e pelo Atlântico Sul, até a costa do Brasil.

O desastre da Espanha na Cordilheira do Atlas

E agora, avançando vários séculos, outra data significativa para desastres imperiais é 1920. O local era Madri, onde os líderes espanhóis já estavam abalados pelo estresse psicológico do longo declínio imperial de seu país, que culminou na perda de suas últimas colônias, Cuba, Porto Rico e as Filipinas, na Guerra Hispano-Americana de 1898 contra os Estados Unidos em ascensão.

Buscando a regeneração por meio de novas conquistas coloniais, os líderes conservadores da Espanha reagiram àquela derrota desmoralizante contra os Estados Unidos expandindo seus pequenos enclaves costeiros no norte de Marrocos para estabelecer um protetorado sobre toda a região e suas áridas Montanhas do Atlas. O inepto monarca da Espanha, Alfonso XIII, que gostava de brincar de soldado, cultivou uma camarilha de militares que compartilhavam sua paixão pela recuperação da glória imperial perdida, pacificando aquele terreno acidentado. À medida que a resistência ao domínio espanhol por parte dos muçulmanos berberes se intensificava, culminando na sangrenta Guerra do Rife de 1920, um dos generais favoritos do rei conduziu suas tropas à Batalha de Annual, onde combatentes berberes massacraram cerca de 12 mil deles.

No entanto, por meio da influência do rei e de seus comparsas militares, a Espanha se agarrou desesperadamente àquelas montanhas marroquinas sem lucratividade. Os espanhóis, de fato, enviariam mais 125 mil soldados para lá, incluindo sua Legião Estrangeira liderada pelo homem que, na década de 1930, se tornaria o líder de uma Espanha fascista, Francisco Franco, para uma prolongada campanha de pacificação que contou tanto com massacres em massa quanto com inovações militares. Em uma busca desesperada por uma vitória que desafiava tanto a racionalidade econômica quanto a estratégica, a Espanha produziu cerca de 400 toneladas métricas do letal gás mostarda para realizar o primeiro bombardeio aéreo da história usando gás venenoso, fazendo chover morte em massa sobre as aldeias berberes. E na primeira operação anfíbia bem-sucedida da história militar, a Marinha espanhola também desembarcou 18 mil soldados e um esquadrão de tanques leves na Baía de Al Hoceima em setembro de 1925 para flanquear e logo derrotar os guerrilheiros berberes ali.

Tal micro-militarismo, no entanto, não apenas mergulhou a Espanha em uma prolongada campanha de pacificação com custos exorbitantes, baixas severas e atrocidades em massa, mas também desencadeou forças políticas que destruiriam sua democracia em dificuldades. Enquanto as massas protestavam contra aquela guerra mal concebida, o rei Alfonso apoiou um dos seus militares favoritos, o general Primo de Rivera, na imposição de uma década de ditadura que finalmente deu lugar a uma Segunda República de curta duração. Em 1936, no entanto, apenas uma década após o fim da Guerra do Rife, o general Franco transportou seu Exército da África de volta de Marrocos através do Mar Mediterrâneo, dando início a uma guerra civil espanhola que derrotaria a República e estabeleceria uma ditadura fascista que governaria o país por quase 40 anos de sombria estagnação econômica.

O fim do Império Britânico em Suez

Pode-se argumentar, porém, que, no que diz respeito ao declínio imperial, a data mais reveladora tenha sido 1956. O local era Londres, a sede do outrora orgulhoso Império Britânico, onde a pressão sufocante de uma dolorosa e prolongada retirada imperial global levou os conservadores britânicos a uma desastrosa intervenção militar de pequena escala no Canal de Suez, no Egito, levando ao que um diplomata britânico chamaria de “convulsão agonizante do imperialismo britânico”.

Em julho de 1956 (conforme descrito em meu livro recente Cold War on Five Continents), o carismático presidente egípcio Gamal Abdel Nasser nacionalizou o Canal de Suez, pondo fim ao controle colonial britânico na região, eletrizando o mundo árabe e elevando-se ao primeiro escalão dos líderes mundiais. Embora os navios britânicos ainda pudessem passar livremente pelo canal, o primeiro-ministro conservador do país, Anthony Eden, um aristocrata vaidoso e defensor obstinado do império, ficaria profundamente perturbado, se não enlouquecido, pelo nacionalismo assertivo de Nasser. De fato, sua liderança ao longo da crise se mostraria tão desequilibrada que altos funcionários do Ministério das Relações Exteriores se convenceriam de que “Eden havia perdido a cabeça”.

Em resposta à notícia da nacionalização do canal, um Eden furioso convocaria imediatamente um conselho de guerra às 4h da manhã. Chamando Nasser de “Mussolini muçulmano”, uma referência ao antigo governante fascista da Itália, Eden ordenou que “ele fosse removido e eu não dou a mínima se houver anarquia e caos no Egito”. Deixando seu significado perfeitamente claro, Eden perguntou ao seu ministro das Relações Exteriores: “O que é toda essa bobagem de isolar Nasser ou ‘neutralizá-lo’, como você chama?” Ele então acrescentou de forma incisiva: “Quero que ele seja destruído, você não consegue entender? Quero que ele seja assassinado.” Com o serviço secreto britânico MI6 fracassando em múltiplas tentativas de assassinato, no entanto, o governo de Eden começou a conspirar com os franceses e israelenses para lançar uma invasão secreta em duas fases da Zona do Canal de Suez.

No dia 29 de outubro, o exército israelense, liderado pelo arrojado general Moshe Dayan, varreu a Península do Sinai, destruindo tanques egípcios e levando suas tropas a menos de 16 km do canal. Usando esses combates como pretexto para sua própria intervenção (supostamente para restaurar a paz), em apenas três dias, uma armada de seis porta-aviões anglo-franceses esmagou a força aérea egípcia, destruindo 104 de seus novos caças a jato MIG soviéticos e 130 aeronaves adicionais.

Com as forças estratégicas do Egito destruídas e seu exército praticamente indefeso diante do poderio daquele rolo compressor imperial, Nasser implementou uma estratégia geopolítica brilhante em sua simplicidade. Ele mandou encher de pedras dezenas de navios de carga enferrujados e, em seguida, afundou-os na entrada norte do canal, fechando rapidamente um dos principais pontos de estrangulamento marítimo do mundo e, assim, cortando a linha de abastecimento de petróleo da Europa para o Golfo Pérsico. Quando 22 mil soldados britânicos e franceses começaram a desembarcar na extremidade norte do canal no dia 6 de novembro, seu objetivo de garantir a livre circulação de navios já lhes havia escapado das mãos.

Ao final desse microdesastre militar, a Grã-Bretanha seria repreendida pelas Nações Unidas; sua moeda precisaria de um resgate do Fundo Monetário Internacional para evitar o colapso total; sua aura de majestade imperial teria se evaporado; e o outrora poderoso Império Britânico estaria a caminho da extinção. Em retrospecto, a Crise de Suez não apenas exporia o declínio total do poder britânico, mas também mostraria ao mundo que a elite conservadora no poder, com suas ilusões de superioridade imperial e racial, não era mais capaz de exercer liderança global.

A derrota dos Estados Unidos no Estreito de Ormuz

Outra data que provavelmente se revelará de grande importância no que diz respeito à história do declínio imperial é 28 de fevereiro de 2026. O local era Washington, DC, sede do que fora o Estado imperial mais poderoso da história, que dominara grande parte do globo por quase 80 anos por meio de uma combinação de alianças militares, diplomacia hábil e liderança econômica. Naquela época, porém, rachaduras já haviam começado a aparecer claramente em sua estrutura de poder, à medida que a hegemonia global dos EUA enfrentava um desafio econômico cada vez mais forte da China, seu enorme exército sofria duas derrotas devastadoras no Afeganistão e no Iraque, e sua globalização econômica gerava um populismo revoltado no país.

Após uma campanha populista baseada em promessas de restaurar tanto a prosperidade da classe trabalhadora quanto o poder global dos Estados Unidos, Donald Trump assumiu o cargo pela segunda vez em janeiro de 2025, prometendo uma “era de ouro dos Estados Unidos”, uma “nova e emocionante era de sucesso nacional” na qual o país “recuperaria seu devido lugar como a nação mais grandiosa, mais poderosa e mais respeitada da Terra, inspirando o temor e a admiração do mundo inteiro”. Nascido em berço de ouro e privilegiado, Trump voltou ao cargo convencido de seu “gênio” único para a liderança e acreditando que foi “salvo por Deus para tornar a América grande novamente”.

Empunhando poder econômico e militar bruto para impor obediência tanto a amigos quanto a inimigos, o presidente, inspirado por um senso delirante de missão divina, começou a tentar subjugar o mundo à sua vontade. Mas, durante seu primeiro ano no cargo, nada parecia funcionar conforme o planejado. De fato, a maioria de suas iniciativas produziu o tipo de reação adversa que serviu apenas para mostrar o quanto os Estados Unidos haviam decaído desde 1991, quando o colapso da União Soviética os tornou a única superpotência mundial.

Com suas alianças em frangalhos, sua liderança mundial perdida e sua aura de poderio militar evaporando-se, a única trajetória para a hegemonia global dos EUA parece agora ser descendente.

No dia 2 de abril de 2025, no que ele chamou de “Dia da Libertação”, Trump anunciou uma lista de tarifas punitivas para proteger a indústria nacional principalmente das importações chinesas, que enfrentavam uma tarifa inicial de 34% – posteriormente aumentada para 100%, uma medida totalmente punitiva. Mas, em sua reunião de outubro de 2025 na Coreia do Sul, o líder chinês Xi Jinping forçou Trump a recuar, cortando o acesso dos EUA ao estoque de minerais estratégicos de terras raras de seu país.

Em janeiro, com sua iniciativa tarifária perdendo o brilho, Trump mergulhou a aliança da OTAN em crise ao exigir que a Dinamarca lhe cedesse a ilha da Groenlândia, ameaçando impor novas tarifas aos aliados europeus caso não obedecessem. Em menos de uma semana, porém, a veemente resistência europeia o levou a retirar essa ameaça na cúpula econômica de Davos, alegando estar satisfeito com a oferta da OTAN de uma “estrutura para um acordo futuro”.

No dia 28 de fevereiro de 2026, com sua iniciativa tarifária fracassando e sua manobra da Groenlândia em xeque-mate, Trump se uniu a Israel em um ataque aparentemente ousado contra o Irã que logo assumiu as características do tipo de manobra “micro-militar” fatídica que parece acompanhar potências imperiais em declínio.

Nos primeiros dias de guerra, os bombardeios dos EUA e de Israel mataram a liderança do Irã, destruíram sua Marinha e eliminaram suas defesas aéreas, deixando o país aparentemente prostrado diante do poderio da gigantesca Força Aérea americana. Após uma semana de bombardeios devastadores que pareciam atordoar o mundo com sua letalidade e precisão, em 6 de março Trump exigiu que o Irã oferecesse uma “rendição incondicional” e sinalizasse sua capitulação por meio da “escolha de um LÍDER GRANDE E ACEITÁVEL”. Em troca, ele prometeu que os EUA “trabalhariam incansavelmente para trazer o Irã de volta da beira da destruição”.

Mas, assim como Nasser havia feito em Suez em 1956, a liderança do Irã reverteu o equilíbrio geoestratégico da guerra ao fechar um ponto de estrangulamento marítimo crítico no Estreito de Ormuz. Ao atacar cinco cargueiros com drones na primeira semana de guerra, os líderes do Irã, seguindo o manual geopolítico de Nasser, fecharam efetivamente o Estreito de Ormuz ao tráfego de petroleiros, interrompendo os embarques de gás, fertilizantes e petróleo que mergulharam a economia mundial em uma crise energética sem precedentes. No final de março, o controle do Irã sobre o estreito era tão rígido que o país começou a cobrar “pedágios” dos cargueiros para permitir a passagem.

Pego de surpresa pelo fechamento inesperado, mas totalmente previsível, do estreito, em 5 de abril, Domingo de Páscoa, um Trump inquieto postou uma mensagem nas redes sociais dizendo: “Terça-feira será o Dia da Usina de Energia e o Dia da Ponte, tudo em um só, no Irã. Não haverá nada igual!!!” Ele acrescentou: “Abram a porra do estreito, seus bastardos malucos, ou vão viver no inferno – É SÓ ESPERAR PARA VER. Louvado seja Alá.” Dois dias depois, Trump ameaçou que, a menos que o Irã abrisse o Estreito de Ormuz, ele atacaria sua infraestrutura civil com tanta severidade que “uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser recuperada.”

Após o colapso das negociações subsequentes entre os dois lados em Islamabad, Paquistão, em 12 de abril, Trump mergulhou ainda mais fundo no atoleiro iraniano, ordenando à Marinha dos EUA que “iniciasse o processo de BLOQUEAR todos e quaisquer navios que tentassem entrar ou sair do Estreito de Ormuz” e “interceptasse todas as embarcações em águas internacionais que tivessem pago pedágio ao Irã”. Com sua fanfarronice característica, ele acrescentou: “Estamos totalmente ‘PRONTOS PARA A AÇÃO’, e nossas Forças Armadas acabarão com o pouco que resta do Irã!”

Mesmo que Trump destrua a infraestrutura do Irã ou acabe negociando um acordo de paz para salvar a face, por todos os indicadores que realmente importam, Washington já perdeu sua guerra contra o Irã. Como todas as potências mais fracas em guerras assimétricas, Teerã tem se mostrado disposta a absorver punições implacáveis, ao mesmo tempo em que inflige um nível de dor que a potência dominante mal consegue suportar. Os EUA logo ficarão sem alvos em Teerã, mas o Irã tem um mundo inteiro de danos que seus drones baratos podem causar à elaborada e exposta infraestrutura petrolífera na costa sul do Golfo Pérsico.

Assim como a Grã-Bretanha em Suez em 1956, Washington provavelmente pagará um preço alto por seu “micro-militarismo” no Estreito de Ormuz. Aliados próximos, a base do poder global dos EUA há 80 anos, recusaram qualquer apoio militar à guerra escolhida por Washington, levando Trump a chamá-los de “covardes”. Em resposta às suas ameaças estrondosas de destruição de civis e da civilização (ambas crimes de guerra), Trump foi condenado por líderes mundiais. Alheio aos perigos da guerra em uma região que é o epicentro do capitalismo global, os EUA estão agora se mostrando cada vez mais perigosamente perturbadores para a economia global, fazendo com que a China pareça uma escolha muito mais estável para a liderança mundial. Além disso, embora as Forças Armadas dos EUA tenham provado sua agilidade tática na destruição de alvos, elas claramente não conseguem mais alcançar objetivos estratégicos significativos.

Com suas alianças em frangalhos, sua liderança mundial perdida e sua aura de poderio militar evaporando-se, a única trajetória para a hegemonia global dos EUA parece agora ser descendente (como tantas grandes potências do passado). Quando a microaventura militar de Trump no Estreito de Ormuz terminar, o declínio do poder global dos EUA terá se acelerado drasticamente e o mundo estará tentando ir além da velha Pax Americana em direção a uma nova ordem global, distintamente incerta.

(*) Tradução de Raul Chiliani

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