Mao Tsé-Tung costumava dizer que existem dois tipos de contradição: as que existem entre o povo e o inimigo, e as existentes entre o próprio povo. Não pretendo me alongar sobre a concepção de povo para o líder da Revolução Chinesa, mas ela pode ser encontrada na obra Cinco Teses Filosóficas, e, num panorama de caráter nacional, no livro Quem é o povo no Brasil?, de Nelson Werneck Sodré. Em 1966, dois garotos de Oakland, Califórnia, Bobby Seale e Huey Newton, ambos com menos de 30 anos, decidiram fundar um partido que, a priori, agiria no princípio de auto-defesa, garantido na constituição dos Estados Unidos, e desenvolvido para a realidade do povo negro enfrentada por Robert F. Williams, Malcolm X e outros líderes seminais. Da proteção das comunidades e vigilância durante as batidas policiais em bairros negros, os Panteras se expandiram pelos Estados Unidos e pelo mundo. O Partido dos Panteras Negras foi declarado a maior ameaça interna no seu país de origem, mas ganhou solidariedade na Coreia, Argélia e China, três países que haviam passado por um processo revolucionário.
Apesar da pouca idade – a média de idade dos militantes do partido era de apenas 19 anos –, Huey, Bobby, e posteriormente, Angela Davis, Kathleen Cleaver, Fred Hampton, além de uma infinidade de militantes históricos do partido, compreendiam bem o marxismo, em especial a dialética desenvolvida por Mao Tsé-Tung, centrada na chamada “unidade dos contrários”. Essa foi uma base importante para que os Panteras pudessem, ao longo do tempo, sair de um nacionalismo negro e uma visão de simples auto-defesa e militarismo, para uma organização que, por meio da arte, da cultura, dos programas de sobrevivencia – que incluiam cafés da manhã, escolas e clínicas gratuitas para as comunidades onde atuavam –, efetivava um marxismo-leninismo adaptado à realidade dos Estados Unidos, marcado pela divisão de classe e de raça. Essas duas formas de contradições foram usadas na análise sobre os problemas internos e externos aos negros. A futura fundação da Coalizão Arco-Íris, e os partidos fundados a partir da matriz dos Panteras Negras, por indígenas hispânicos e brancos pobres, demonstram como a organização influenciou na visão de solidariedade entre os povos oprimidos por raça e gênero, mas conectados pelas origens de classe. Isso nem sempre foi um ato pacífico. A cena inicial do filme “Judas e o Messias Negro” (2021), com uma boa dose de humor, foi concebida a partir do clássico discurso “Isso é uma luta de classes, porra!”, de Fred Hampton, o maior dos intelectuais do partido. Um homem sentado na plateia, usando roupas africanas, se levanta e vai embora após Fred reiterar que “se vocês querem se vestir como algumas pessoas africanas, então vocês têm que se vestir como os angolanos ou o povo de Moçambique. (…) Vocês precisam se vestir como os povos que estão em lutas de libertação.”
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Esse trecho, retirado do discurso citado, demonstra uma das linhas em que os Panteras atuavam, material e ideologicamente. Na tentativa de trazer parte dessa comunidade negra, vista por eles como elementos do nacionalismo cultural, Fred e a organização teorizaram, com grande influência de Frantz Fanon e “Os Condenados da Terra”, uma linha geral onde classe e raça seriam o motor da revolução nos Estados Unidos, mas de forma em que a classe fosse o fio que ligasse todos os indivíduos e comunidades oprimidas, ao passo que, a partir de suas realidades distintas – basta pensar como a questão negra, hispânica e indigena têm suas particularidades –, mas dispensando certo essencialismo, hoje, na forma do famigerado identitarismo. Desmoronando assim as bases de um pensamento que imagina o negro como ontologicamente politizado; erro que, na tentativa de demonstrar, de forma real, como esse negro, na sociedade moderna, já nasce como um alvo, peca em compreender como esse elemento racial não determina, de forma automática, a forma como o sujeito negro irá se desenvolver ideologicamente. Nos combates com a U.S Organization, e contra os resquícios do Garveyismo, os Panteras, 60 anos antes da importante publicação de Douglas Rodrigues Barros “O que é identitarismo?”, e de outro clássico, “Armadilha da identidade”, de Asad Haider (que nos deixou precocemente em 2025), os Panteras colocaram na mira o “I’m Black And Proud” (Sou negro e orgulhoso) de James Brown, o criador do Kwanza, Maulana Karenga, e as concepções africanistas que buscavam num continente quase mitológico as respostas para problemas atuais, que deixavam de observar como a África dos anos 1960 e 1970 não era uma vitrine de peças de Dashiki, mas um continente em guerra pela liberdade, onde os fuzis e o pan-africanismo marxista faziam parte da indumentária.
Nas discussões atuais e mais acaloradas – algumas não tão atuais, como o suposto eurocentrismo imanente ao marxismo, sobre o qual os próprios Panteras fizeram um acerto de contas –, o partido ocupa lugar de destaque, ao menos nas notas de rodapé. Muitos grupos ligados ao pensamento nacionalista negro no Brasil – alguns deles, quilombos virtuais e extremamente reacionários –, celebram a vida e a imagem das figuras fundadoras e responsáveis pelo desenvolvimento do Partido dos Panteras Negras, assim como fazem com Frantz Fanon, Amílcar Cabral e Malcolm X, ignorando o pensamento desses autores, que, cada qual à sua maneira, rejeitavam essa forma monolítica de africanidade, buscando nas contradições da época a chave para a libertação dos negros, africanos e em diáspora, assim como de outros povos oprimidos – inclusive os brancos proletários, camponeses pobres e toda sorte de vitimas do capitalismo colonial.
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Muitas das atuações dos Panteras partiam dessa premissa maoísta de contradição. E essa contradição no seio do povo foi levada a sério, a partir dos já citados programas de sobrevivência, mas também com punhos de ferro, contra organizações reacionárias e pró-capitalistas. Muitas vezes levadas ao extremo – como se as formas culturais africanas, múltiplas como um continente gigantesco permite, parecessem coisa do passado –, essa linha visava, mais do que a representação cultural que o negro estadunidense tinha de si, a partir de simbolos diversos do continente africano, uma verdadeira luta, onde os nomes, as roupas e os dialeto eram menos importantes do que a prática real de libertação, que envolvia o embate direto contra o inimigo interno. Muitos participaram desse processo, forma de revolução cultural negra tão interessante como o Renascimento do Harlem. Músicos como Gil-Scott Heron, o poeta Amiri Baraka, e o jazzista Archie Shepp são só três exemplos da tomada de consciência socialista em grande parcela da população negra estadunidense. No Brasil, o movimento Black Power influenciou a música, a estética e o sentimento de orgulho racial. Movimentos que, por vezes, se cruzavam, mas tinham muitas discordâncias: tanto o Black Power quanto os Panteras visavam o fim do racismo, mas a atuação de ambos era discordante na forma como isso seria possível. Ainda que o Movimento Negro Unificado (MNU), e outras organizações negras fossem fundadas sobre bases socialistas, é difícil encontrar o rasto de influência dos Panteras Negras no país, e por isso, acredito ser importante, mais do que nunca, redescobrir o legado daqueles jovens que ousaram vencer o império em seu quintal.
Para tal, importantes obras sobre os Panteras foram traduzidas para o português nos últimos dez anos, movimento importante, e que pode influenciar as novas gerações que muitas vezes, por um misto de barreiras raciais e influência do discurso liberal, não compreendem o marxismo como uma ferramenta útil para o embate contra o racialismo. Destaco os trabalho feitos por Jones Manoel e a Editora Autonomia Literária, Editora Jandaíra, Terra Sem Amos, e principalmente, da Editora Raízes da América, que em 2017, lançou “Todo Poder ao Povo”, uma das primeiras coleções de escritos e discursos do partido em português. Esse trabalho vem para desmistificar muitas das ideias que os negros brasileiros tem com relação ao marxismo, mas também sobre movimentos negros de caráter marxista. Podemos, é claro, louvar grandes intelectuais negros de outras linhas políticas, como é o caso de Abdias Nascimento, Sueli Carneiro, e até mesmo Malcolm X, que estava longe de ser um marxista, apesar da proximidade, ao final da vida, com o socialismo. O que deve estar em disputa não é a etiqueta das obras e pensamento desses autores, mas a materialidade histórica que demonstra por quais meios necessários os negros conseguiram a liberdade – na maioria das vezes, temporária. Isso não elimina as grandes revoltas de escravizados nas Américas, a Revolução Haitiana, ou qualquer outro levante, todos eles tão importantes e históricos quanto a atuação dos Panteras e das organizações socialistas em África. O que devemos fazer com todo esse arsenal histórico é tarefa parecida com a qual Marx se decidiu no 18 de Brumário: analisar os erros e acertos, as condições materiais e ideológicas, para atingir uma correta linha de atuação, mais adequada para que a verdadeira e final libertação dos negros e dos oprimidos seja possível.
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Há muitas outras ferramentas teóricas deixadas como legado por essa geração massacrada pelo COINTELPRO e o Macartismo, e isso só pode ser acessado por meio dos escritos deixados pelos jovens de jaquetas de couro, boinas, cabelo black e o Livro Vermelho debaixo do braço. É essa imagem que ficou congelada sobre os Panteras, uma estética inovadora, criada no momento de tensão pós assassinato de Malcolm X e Martin Luther King. Mas é importante não ficar preso a isso: os Panteras foram mais do que a imagem de homens e mulheres armados, como se fossem rebeldes adolescentes. Deixaram um pensamento que, no Brasil, nos Estados Unidos e na África, pode reacender a chama vermelha no movimento negro e trabalhador, afim de que o racismo deixe de ser uma forma de opressão e de ganho pessoal para os que dele se beneficiam, e se torne um objeto de museu. Na atualidade do debate brasileiro sobre as questões raciais, o reflorescimento do mito da democracia racial, da Retomada dos Povos Indígenas, e de uma Intelligentsia que se afirma “afro-centrada” – mas que não vive sem seus autores franceses –, as teses dos Panteras são um farol para os que, assim como Malcolm, não acreditam em capitalismo sem racismo, e que, portanto, desejam ver em chamas o modo de produção que possibilitou a criação do negro a partir da imagem auto-valorizada do branco.





































