Mais de um milhão de anos caçando e coletando. Vários milênios domando pedaços de terra. Dois ou três séculos de sociedade industrial. Uma redução sem precedentes da mortalidade infantil. Muitos apocalipses em pouco tempo. Guerras totais. A bomba nuclear. Mais pessoas do que nunca no mundo. Nossa própria mudança climática.
Vários milênios de escrita, quase seis séculos com a imprensa, algumas décadas de vídeo.
Em nossas vidas, tudo é novo, exceto algumas coisas.
As empresas americanas líderes no campo da inteligência artificial, como a OpenAI e a Anthropic, têm usado uma estratégia peculiar para promover seus produtos. Essa estratégia se baseou em anunciar, ora com um tom festivo, ora de forma mais alarmista, que essas tecnologias eliminarão um grande número de empregos, o que redefinirá completamente a sociedade. É uma boa estratégia para os clientes corporativos, mas não é de se surpreender que não tenha sido a mais eficaz para conquistar a simpatia do público.
As versões mais benevolentes dessa narrativa insistem em uma renda básica universal como solução para o problema que esse cenário apresentaria. Mas uma renda básica universal em um mundo cada vez mais difícil de entender, onde tudo é gerenciado por uma máquina nas mãos de bilionários com o olhar perdido no vazio, talvez não seja uma proposta suficientemente sexy, como diria Guillem Martínez.
Jacob Coxon, que se apresenta como ex-pesquisador da OpenAI e da Anthropic, publicou na rede social X que “as pessoas que a estão desenvolvendo acreditam sinceramente que a IA poderia matar a todos nós antes do fim da década. (…) Nenhuma outra atividade humana apresenta esse nível de perigo”. Ele argumentou que, se as empresas continuam desenvolvendo a IA apesar disso, é porque se veem obrigadas a competir entre si pelo controle dessa força tão perigosa. Ele não disse mais nada, não explicou como esse apocalipse poderia acontecer. Seu alerta teve um enorme impacto. Alguns funcionários ativos da Anthropic se manifestaram em apoio a essa posição, sem que isso pareça causar qualquer incômodo à empresa. De fato, a própria Anthropic publicou, nos dias seguintes, dois longos relatórios sobre os riscos do uso da IA e o que eles estão fazendo para minimizá-los.
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Algumas pesquisadoras críticas, como Timnit Gebru e Emily Bender, ex-funcionárias do Google, consideram que o discurso sobre os riscos existenciais da IA adotado por muitas pessoas no setor tem um caráter ideológico e quase religioso, mas não passa de um exagero que serve aos interesses das empresas — como o de manter as altas expectativas dos investidores — e que nos distrai de outros riscos já presentes na forma como essa tecnologia está sendo desenvolvida, como a exploração trabalhista, os danos ambientais, os preconceitos de avaliação e a vigilância em massa.
A IA vai nos matar? Seria bastante lamentável. Afinal, a IA foi criada por todos nós.
O código que os programadores vêm publicando abertamente no GitHub e as respostas às dúvidas dos colegas no Stack Overflow. Os conselhos sobre relacionamentos amorosos que demos para ajudar desconhecidos nos fóruns. As histórias estranhas sobre orcs e duendes publicadas no Tumblr. Os livros compartilhados de forma altruísta na Z Library ou no Anna’s Archive. Todas as ilustrações. Todas as músicas. Os trabalhos acadêmicos que estudantes americanos encomendavam a estudantes africanos. Milhares de pessoas classificando dados no Quênia. As tardes do meu primo quando ele não sabia o que fazer da vida. Tudo isso e muito mais faz parte da matéria-prima com a qual a IA foi construída. E isso sem contar as minas de silício, os navios, os cabos, os centros de dados…
É chocante imaginar que todo esse esforço esteja sendo canalizado para a própria destruição. Embora, se você pensar com um pouco de calma, sejam coisas que acontecem todos os dias.






































