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Quando não se pode ouvir as bombas: ser surdo durante o genocídio em Gaza

Em decorrência dos ataques de Israel, cada vez mais palestinos de Gaza tornam-se surdos, enfrentando as dificuldades de sobreviver em meio a um genocídio sem ouvir

Jumana Mughari
Fadl Kuraz, professores e estudantes surdos de Gaza. (Foto: Jumana Mughari / Mondoweiss)
Fadl Kuraz, professores e estudantes surdos de Gaza. (Foto: Jumana Mughari / Mondoweiss)

Zuhdi Murtaja, um homem surdo que trabalha em uma cozinha comunitária que atende crianças com deficiência auditiva na cidade de Gaza, fez uma pergunta em linguagem de sinais. “Como podemos nos proteger se não conseguimos ouvir os bombardeios ou os alertas? Onde está o lugar seguro?”

Fadl Kuraz, intérprete e instrutor de linguagem de sinais que passou mais de três décadas trabalhando com a comunidade surda de Gaza, fez uma pausa antes de responder. “Nem sempre existe um lugar seguro”, disse ele.

Kuraz deu-lhe, então, um conselho prático: observe as pessoas ao seu redor. Se elas de repente começarem a correr, corra com elas. Leve consigo um cartão que diga: “Sou surdo. Preciso de ajuda.”

Para a comunidade surda de Gaza, a guerra acrescentou uma camada de perigo amplamente ignorada em meio às condições desumanas com as quais toda a população luta diariamente. Incapazes de ouvir ataques iminentes, ordens de evacuação ou sirenes de emergência, eles dependem totalmente de outras pessoas para interpretar uma realidade que muda rapidamente — e, em uma guerra que já matou mais de 73 mil pessoas e deslocou quase toda a população da Faixa de Gaza, essa dependência tornou-se uma questão de sobrevivência.

Uma pesquisa realizada em 2023 pelo UNDRR (Escritório das Nações Unidas para a Redução do Risco de Desastres) com mais de 6 mil pessoas com deficiência em 132 países revelou que 56% delas ou não tinham conhecimento das informações sobre riscos de desastres disponíveis em formatos acessíveis ou não conseguiam acessá-las. Em Gaza, onde a infraestrutura para atender pessoas com deficiência entrou praticamente em colapso, essa lacuna é sentida de forma aguda.

Kuraz tornou-se uma das poucas pessoas que ainda tentam reduzir essa lacuna.

“O maior desafio que as pessoas surdas enfrentam durante a guerra não é apenas o bombardeio”, diz Kuraz. “É a impossibilidade de acessar informações quando mais precisam delas.”

Kuraz — que possui mestrado em psicologia educacional e estudou educação especial na Jordânia com foco em deficiência auditiva — dedicou-se, nos anos anteriores ao genocídion a ajudar pessoas com deficiência auditiva. Isso incluía o ensino da língua de sinais, o apoio a alunos surdos, a ajuda aos professores na comunicação com eles e a realização de sessões de treinamento na Sociedade Atfaluna para Crianças Surdas, uma das principais organizações de Gaza que atende pessoas com deficiência auditiva. Mas a guerra mudou completamente as demandas desse trabalho.

Agora, ele se desloca entre pontos educacionais estabelecidos pela Atfaluna em áreas de deslocamento e bairros, incluindo al-Shati, al-Nasr, Sheikh Radwan, al-Jalaa e Tal al-Hawa, na cidade de Gaza — todos eles consistindo em tendas dentro de centros de abrigo, sem o básico necess. Seu trabalho muitas vezes começa com perguntas sobre os alunos, em vez de sobre as aulas: como eles estão lidando com a situação? Chegaram novas famílias? Alguém precisa de pilhas para um aparelho auditivo? Alguém desenvolveu problemas auditivos depois de mais uma noite de bombardeios?

Um tipo diferente de acesso

Em um ponto educacional administrado pela Atfaluna na área de Jalaa, na cidade de Gaza, uma explosão distante interrompe a atividade. As vibrações fazem com que algumas crianças fiquem paralisadas. Outras se voltam para Kuraz.

Ele as tranquiliza por meio da linguagem de sinais, e os professores as fazem participar de jogos e atividades simples. Em poucos minutos, as crianças estão rindo e disputando sua atenção.

Kuraz mantém a expressão calma. Isso, diz ele, está entre as partes mais exigentes do trabalho. “Tenho que controlar minhas emoções e minhas expressões faciais em questão de segundos”, diz ele. “Se eu perder esse controle, as crianças perderão a sensação de segurança.” A pressão não acaba quando ele vai embora. “O medo que reprimo durante o dia me atinge à noite”, diz ele.

Muitos dos professores que trabalham com alunos surdos são educadores ouvintes cujas habilidades na língua de sinais continuam a se desenvolver por meio da prática. Kuraz trabalha com eles para fortalecer a comunicação com os alunos e compreender melhor suas necessidades.

“Sempre há novas expressões, novas situações e sinais que os professores não conhecem”, diz ele. “Eu ajudo a fortalecer a linguagem deles, porque é a linguagem que conecta essas crianças à educação.”

Mas a educação é apenas uma parte do problema.

Fadl Kuraz, professores e estudantes surdos de Gaza. (Foto: Jumana Mughari / Mondoweiss)
Fadl Kuraz, professores e estudantes surdos de Gaza. (Foto: Jumana Mughari / Mondoweiss)

Para os palestinos surdos, as informações que as pessoas ouvintes podem receber automaticamente — por meio de conversas, anúncios públicos, televisão ou sirenes de alerta — muitas vezes precisam ser disponibilizadas de outra forma.

Durante ataques israelenses em andamento, essa lacuna pode ter consequências imediatas. Quando Kuraz se encontra com os alunos, eles frequentemente querem saber o que aconteceu fora da sala de aula: onde ocorreu o bombardeio? Quais bairros foram afetados? Há alguma evacuação? O que está acontecendo fora do abrigo? “Eles precisam de alguém para explicar o que está acontecendo ao seu redor”, diz Kuraz. “Desenvolvimentos políticos, condições humanitárias e mudanças em suas comunidades — coisas que muitas pessoas ouvintes recebem naturalmente, mas às quais as pessoas surdas muitas vezes não têm acesso.”

O próprio Murtaja tornou-se parte dessa rede de informações. Formado pela Escola al-Rafa’i para Surdos, na Cidade de Gaza, ele concluiu a universidade por meio de um programa projetado especificamente para estudantes surdos. Durante a guerra, além de seu trabalho na cozinha da Atfaluna, ele administra um grupo no WhatsApp e permanece constantemente ao lado de Kuraz, acompanhando as notícias e os acontecimentos políticos e ajudando a transmitir informações à comunidade surda.

 Leia também – Gaza: se não é genocídio, é guerra total 

O problema vai além do compartilhamento de informações. O deslocamento tornou mais difícil para as pessoas surdas terem acesso aos serviços, enquanto muitos abrigos, unidades de saúde e ações humanitárias não são projetados levando em conta suas necessidades de comunicação. “O desafio não é apenas alcançar as pessoas surdas”, diz Kuraz. “É que os próprios serviços muitas vezes não são projetados levando-as em consideração.”

O acesso a aparelhos auditivos e seus suprimentos essenciais também tem sido um desafio persistente. A Atfaluna já havia relatado que as famílias de pessoas com deficiência auditiva enfrentavam dificuldades para obter pilhas para aparelhos auditivos e outros equipamentos de assistência necessários durante períodos de conflito. O desafio persiste em meio à escassez generalizada em Gaza e à interrupção dos serviços essenciais.

Avaliando a perda auditiva

A dimensão da deficiência auditiva relacionada à guerra em Gaza continua difícil de ser medida com precisão — mas os dados disponíveis apontam para uma crise que é vasta e, em grande parte, invisível.

Antes da guerra, estimava-se que aproximadamente 20 mil pessoas em Gaza vivessem com deficiência auditiva, de acordo com dados de centros de reabilitação e associações especializadas citados pela Al Jazeera. Profissionais de campo alertam que o número aumentou drasticamente desde outubro de 2023, com estimativas que agora chegam a 30.000 a 40.000 pessoas com perda ou deficiência auditiva — muitas delas crianças.

O relatório de julho de 2025 do Global Protection Cluster estimou que mais de 35.000 pessoas em Gaza sofreram danos auditivos significativos devido a explosões. O mesmo relatório observou que, embora não haja um acompanhamento consistente de dados abrangentes sobre deficiências auditivas e visuais resultantes das hostilidades, organizações que trabalham com pessoas com deficiências sensoriais relatam um aumento substancial no número de pessoas com dificuldades auditivas e visuais que procuram atendimento.

As próprias avaliações da Atfaluna fornecem mais uma indicação da magnitude do problema. Entre dezembro de 2024 e agosto de 2025, a organização examinou 32.753 pessoas e identificou 2.500 crianças e adultos com nova deficiência auditiva como consequência direta do conflito.

Esse número não representa a contagem total, pois reflete apenas os casos identificados entre as pessoas avaliadas.

A comunidade de surdos de Gaza agora inclui pessoas que já eram surdas antes de 7 de outubro de 2023, bem como pessoas que desenvolveram deficiência auditiva durante os ataques. Suas necessidades de comunicação nem sempre são as mesmas. Alguém surdo desde o nascimento geralmente desenvolveu a linguagem de sinais e uma estrutura para lidar com um mundo sem som. Alguém que perde a audição durante um bombardeio enfrenta uma perda repentina e desorientadora, sem nenhuma linguagem para substituir o que o som antes transmitia e sem uma comunidade estabelecida à qual recorrer.

 Leia também – Ser policial em Gaza: a luta do Hamas contra as milícias armadas por Israel 

Além disso, as próprias organizações que tentam ajudá-las enfrentam graves carências. Aparelhos auditivos, baterias e peças para implantes cocleares continuam severamente restritos devido a limitações de importação, de acordo com a reportagem da Al Jazeera. Muitos centros de reabilitação que oferecem fonoaudiologia e apoio psicológico e educacional foram danificados ou destruídos.

Para Kuraz, o trabalho continua independentemente disso. Nos pontos de ensino, ele ajuda professores e alunos a se comunicarem, apesar do deslocamento e das repetidas interrupções. E quando a situação lá fora muda, as perguntas costumam ser as mesmas que ele ouviu de Murtaja no início da guerra:

O que aconteceu? Para onde devemos ir? O que vai acontecer agora?

Murtaja não parou de fazer essas perguntas nem de ajudar outras pessoas a encontrar as respostas. No grupo do WhatsApp que ele coordena, as notícias circulam entre os membros da comunidade surda que, de outra forma, não teriam como saber o que está acontecendo ao seu redor. É um pequeno sistema, construído praticamente do nada, em meio a uma guerra.

“Se eles perceberem medo no meu rosto”, disse Kuraz, “ele se tornará o medo deles”.

Mondoweiss O Mondoweiss é um site independente que fornece informações aos leitores sobre os acontecimentos em Israel/Palestina e sobre a política externa dos EUA. O site fornece notícias e análises sobre a luta dos palestinos pelos direitos humanos que não estão disponíveis na mídia convencional.

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