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BRICS+: capacitando o desenvolvimento

A tarefa diante do BRICS+ é assustadora, mas necessária. O Sul Global não pode mais se dar ao luxo de permanecer à margem

Busani Ngcaweni e Shiping Tang
07.07.2025.Fotografia dos Chefes de Estado e de Governo dospaíses-membros, parceiros e de engajamento externo do BRICS. (Foto: Ricardo Stuckert / PR)
07.07.2025.Fotografia dos Chefes de Estado e de Governo dospaíses-membros, parceiros e de engajamento externo do BRICS. (Foto: Ricardo Stuckert / PR)

Aordem pós-Guerra Fria está se desintegrando. O sistema comercial global e a ordem multilateral, construídos com muito esforço após a Segunda Guerra Mundial, foram destruídos. O que antes era uma estrutura de cooperação agora é uma arma de intimidação em massa. As guerras comerciais surgem como ciclones violentos. As tarifas aumentam imprevisivelmente. Um dia estão em 15%, depois disparam para 50%, saltam para 100% na semana seguinte e voltam a cair para 20% em dias. Tal turbulência abala economias pequenas e grandes, trazendo incerteza, perturbando cadeias de abastecimento e levando os países a lutarem por novos mercados e soluções.

Esta nova era de turbulência exige o BRICS+, um grupo dinâmico de países que acreditam na multipolaridade. O BRICS+ deve emergir não apenas como um agrupamento econômico, mas como uma estrutura empoderadora e estabilizadora para o Sul Global. O BRICS+ é uma estrutura sólida, duradoura e orientada por objetivos. Além disso, o BRICS+ deve ser empoderador. Como qualquer estrutura bem construída, deve ser firme o suficiente para conter a avalanche de confusão, mas adaptável o suficiente para deixar a água passar, permitindo flexibilidade sem comprometer a resistência.

Mas não basta que o BRICS+ simplesmente mantenha a estabilidade. Ele também deve pavimentar o caminho a seguir. Mais de 45% da população global vive nos países do BRICS+, principalmente no Sul Global, onde a vida continua precária e a segurança econômica está longe de ser garantida. É preciso construir alicerces sólidos para criar caminhos que levem à resiliência, ao crescimento inclusivo e à prosperidade compartilhada.

Para isso, o BRICS+ deve entregar resultados reais e tangíveis. As pessoas precisam sentir os benefícios da cooperação. Precisam de empregos, mercados estáveis, corredores comerciais e acesso a oportunidades. O Novo Banco de Desenvolvimento (também conhecido como Banco dos BRICS) foi um começo forte. Ele está fazendo a diferença na Ásia, África e América do Sul como uma alternativa sólida aos sistemas tradicionais de financiamento multilateral e privado, que muitas vezes se mostraram difíceis de acessar em termos equitativos para os países em desenvolvimento. Agora é hora de construir instituições do BRICS+ mais permanentes, que implementem as resoluções e objetivos da cúpula.

Esses resultados não devem ficar no papel, mas serem executados de forma consistente e transparente. Para isso, precisamos de instituições permanentes que apoiem a coordenação e a implementação de políticas entre os Estados-membros, instituições que aumentem o intercâmbio educacional e treinamento entre os países, instituições que gerenciem o comércio e que respondam rapidamente a desastres naturais. Essas são as instituições que devem gerenciar ativamente as contradições entre os membros do BRICS+, seguindo as orientações dos chefes de Estado.

Para atingir esse objetivo fundamental, o BRICS+ precisa, antes de tudo, de um secretariado permanente. Sem ele, o BRICS+ corre o risco de parecer um mecanismo provisório ou sem compromisso. Em termos simples, sem um secretariado permanente, o grupo se assemelha a uma estrutura construída sem cimento para unir todos os seus tijolos.

Para que o BRICS+ aumente o comércio entre seus membros, ele deve mobilizar todas as forças produtivas. Deve aumentar a produção industrial e se concentrar na produção de bens de maior valor agregado. Só então os países terão algo significativo a oferecer uns aos outros além de matérias-primas. O comércio entre amigos deve ser mais do que substancial; deve ser mutuamente benéfico.

Assim, a principal tarefa do BRICS+ é tornar-se um facilitador dos construtores. Nenhum país pode modernizar-se sem os seus líderes, elites orientadas para o desenvolvimento, partes interessadas dispostas a fazer sacrifícios e cidadãos que anseiam por uma vida melhor. Mas podem certamente precisar de um pouco de ajuda externa. Com efeito, os países em desenvolvimento podem utilizar a ajuda externa de forma mais eficaz se esta puder capacitar e viabilizar os seus esforços.

Em nosso mundo globalizado, muitos países em desenvolvimento ainda precisam de ajuda externa para enfrentar as tempestades. Como tal, o BRICS+ também pode atuar como um abrigo, um refúgio para aqueles que são atingidos pela tempestade do bullying econômico atual. A volatilidade que estamos testemunhando não é nova, é apenas uma variante do que o Norte Global há muito impõe ao Sul Global. A diferença agora é que ela é mais errática e bombástica, mas igualmente traumática se você ouvir a retórica sobre o Oriente Médio e as recentes advertências a países como a Namíbia, onde os caminhos econômicos estão sendo ditados por atores externos.

Reafirmemos o que muitos ignoram ao analisar o que sustentou o BRICS por mais de uma década e meia: os líderes estão mais focados no que os une do que nas fontes de divisão. Há respeito mútuo e interesse em construir um mundo multipolar. As contradições não estão sendo enterradas, mas sim gerenciadas ativamente pelos líderes dos países. Isso é um sinal de força, um sinal para o Sul Global de que o vínculo de solidariedade pode levar as nações adiante.

A tarefa diante do BRICS+ é assustadora, mas necessária. O Sul Global não pode mais se dar ao luxo de permanecer à margem. É hora de estabelecer firmes alicerces, interconectados e duradouros que promoverão o desenvolvimento, o abrigo, a segurança e a prosperidade compartilhada para os povos do Sul Global.

(*) Tradução de Raul Chiliani

Globetrotter O Globetrotter é um serviço independente de notícias e análises internacionais voltado aos povos do Sul Global.

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