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“Aqui a mulher não é da cozinha”: guerrilheiras falam sobre igualdade dentro das FARC-EP

Apesar das dificuldades, as guerrilheiras das FARC dizem que se sentem mais livres na guerrilha porque sentem que são respeitadas e tratadas com igualdade.

Fotos e texto por Mariana Ghirello, correspondente especial na Colômbia
(Foto: Mariana Ghirello)

“Todos somos iguais, todos têm que cozinhar, lavar, usar facão. Fazemos tudo, mulheres e homens”, afirma Derly. A rotina de uma mulher que ingressa nas FARC-EP é dura: enfrenta a guerra, bombas, caminhadas que levam dias faça chuva ou faça sol, uma mala de mais de 20 quilos nas costas, e condições de muita dificuldade ou até mesmo a morte. Mesmo assim, elas dizem que se sentem mais livres na guerrilha porque sentem que são respeitadas e tratadas com igualdade perante os homens, diferente da vida que dizem que teriam na sociedade civil.

Derly não quis ser fotografada. Assim como muitas combatentes, tem um cabelo comprido, usa brincos e maquiagem. Estava se preparando para entrar nas aulas de odontologia ministradas por outro guerrilheiro. Ela, como a grande maioria dos combatentes, nunca frequentou a escola, ou o fez por menos de dois anos, e é muito clara ao dizer que não pretende se casar tão cedo. “Quero seguir estudando, nunca tive essa oportunidade, que não fosse aqui dentro das FARC-EP”, diz.

Quase como uma sina, uma mulher que nasce no campo tem poucas possibilidades de estudar e fazer uma carreira profissional. O caminho mais comum é se casar antes dos 18 anos, ter filhos, cuidar do lar e do marido. E as que se recusam o caminho mais comum são tachadas de mulheres “ruins” ou “geniosas”. Ainda hoje, essa é a realidade de muitas colombianas, principalmente das mais pobres.

Ela ingressou aos 15 anos nas FARC e desde então já foi incluída nos tratamentos contraceptivos, o qual por muito tempo foi obrigatório. Mas desde que se iniciaram os diálogos de paz já é permitido que as mulheres tenham filhos. “Para mim foi bom porque eu nunca pensei em ter filhos, sempre pensei em ser livre sem esse tipo de compromisso porque isso é algo que amarra, e pior quando se é jovem”, pondera.

Cielo tem 34 anos e ingressou na guerrilha aos 13, hoje já é uma das veteranas. O delineador azul era do mesmo tom da blusa que utilizava. De olhos claros e voz suave e fala pausada, ela comenta que percebe que existe machismo na sociedade quando lançam uma candidata à política, que existe um rechaço pelo fato apenas de ser uma mulher. “Aqui não existe machismo, aqui a mulher não é da cozinha”, destaca.

Nos últimos meses os guerrilheiros têm acesso à televisão, e consequentemente aos comerciais de cosméticos, roupas, perfumes. Sobre padrões de beleza ofertados na publicidade, Cielo é enfática, “a mulher tem que ser como é”, ao não concordar, por exemplo, que exista uma diferença no tratamento entre as pessoas por estes padrões. “Porque uma se veste melhor, já não conversam”, ressalta.

No trato entre elas, Cielo destaca que nas FARC-EP as mulheres se tratam bem e quando encontram afinidades fazem amizades duradouras. “Aqui somos solidárias e vivemos em harmonia”, reforça.

[Entrevista feita durante a segunda quinzena de outubro, em El Diamante, na região de Yarí, Caquetá com os guerrilheiros do Bloco Oriental]

 

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