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A classe trabalhadora deve rechaçar a nova guerra fria: cinco pontos de unidade

Atualmente, o principal instigador de uma guerra fria é a polarização da Europa em torno da OTAN como uma aliança anti-russa de fato.

Atualmente, o principal instigador de uma guerra fria é a polarização da Europa em torno da OTAN como uma aliança anti-russa de fato. Por Liberation | Tradução da Revista Opera

A guerra na Ucrânia está inaugurando um novo período de maior perigo na política mundial e a ameaça de um conflito global que devastaria a humanidade. Os socialistas e as pessoas que querem a paz devem reconhecer que toda política exterior e o estabelecimento militar dos Estados Unidos estão, agora, organizados em torno do “conflito de grandes potências” contra Rússia e China como uma estratégia definidora para as próximas décadas. É essencial reconhecer que Rússia, China e outros países que não estão na mira dos Estados Unidos por causa dos direitos humanos, nem por esta ou aquela ação militar, mas porque não aceitam mais a ordem mundial dominada pelos EUA.

Devemos nos opor a este novo período de confronto ao estilo da Guerra Fria. Este conflito de grandes potências não beneficia a grande massa da população, nem nos Estados Unidos nem no resto do mundo. Sua lógica só produzirá dor econômica severa, desastre climático e, finalmente, uma guerra catastrófica. A classe trabalhadora não tem interesse em ser arrastada para tal conflito em nome da preservação do domínio de Wall Street e do Pentágono.

Na preparação para a invasão russa da Ucrânia e desde então, a mídia corporativa nos Estados Unidos tem trabalhado horas extras para espalhar desinformação e confusão. Eles esperam que, ao inundar as pessoas com conteúdo anti-russo ininterrupto, criarão o consentimento necessário não só para uma escalada militar de curto prazo na Europa Oriental, mas também para uma nova Guerra Fria. Contra isso, o Partido pelo Socialismo e a Liberação (Party for Socialism and Liberation) avança cinco pontos básicos que podem servir para unir quem se opõe ao imperialismo estadunidense e apoia a paz.

1 – A OTAN provocou a guerra entre Rússia e Ucrânia

O governo dos Estados Unidos vem aumentando intencionalmente as tensões entre Rússia e Ucrânia há anos. Da expansão da OTAN para o leste, apesar das promessas de não fazê-lo, ao apoio ao golpe pró-ocidente na Ucrânia em 2014, passando pelo armamento pesado do governo ucraniano, as ações agressivas da OTAN prepararam o cenário de guerra. Os Estados Unidos estavam determinados a trazer a Ucrânia para a esfera de influência ocidental, recusando-se assim a reconhecer as preocupações legítimas de segurança da Rússia sobre a expansão da OTAN e a colocação de mísseis avançados em suas fronteiras. As “linhas vermelhas” da Rússia são bem conhecidas há décadas e a OTAN fez tudo isso sabendo que poderia levar a uma intervenção. Em alguns aspectos, parece que a OTAN armou uma armadilha deliberada na qual a Rússia caiu.

2 – A solução para a crise é dissolver a OTAN

A ânsia da OTAN em fazer da Europa um palco para suas ameaças militares contra a Rússia significa que não apenas a Ucrânia está militarizada, mas toda a Europa está. Atualmente, o principal obstáculo ao estabelecimento de uma Europa pacífica é a polarização do continente em torno da OTAN como uma aliança anti-russa de fato. A OTAN é uma relíquia da Guerra Fria e deve ser dissolvida; seu único objetivo é manter a hegemonia militar dos EUA. A única maneira de discutir as muitas questões que causam conflitos entre nações europeias (fronteiras, línguas, relações econômicas, etc) sem levantar a possibilidade de guerra é por meio da dissolução da OTAN, da desmilitarização da Europa e a retirada das tropas, os mísseis e as armas nucleares dos Estados Unidos. A Rússia deveria seguir o exemplo com sua própria desmilitarização, passo a passo.

3 – Defender a soberania das nações tal como expressada na Carta das Nações Unidas

A carta da ONU de 1945 foi redigida e acordada para proteger contra uma ordem mundial com base na máxima de que “a força faz o direito”, em que os países mais fortes e poderosos podem fazer o que quiserem, enquanto nações menores e menos poderosas não têm direitos garantidos. Este sistema internacional baseado na soberania nunca foi plenamente realizado e, de muitas maneiras, mascarou a realidade imperialista e os profundos desequilíbrios de poder da ordem mundial. O Conselho de Segurança da ONU, único órgão com poderes para autorizar sanções e ações militares contra outro país, funciona de forma totalmente antidemocrática, concentrando o poder nas mãos de apenas cinco membros permanentes que podem vetar qualquer resolução. O Conselho de Segurança deve ser abolido. Porém, deve-se defender que a Carta da ONU cria uma base legal e política para combater os abusos de poder perpetrados pelas nações mais poderosas contra as potências menores, e sustenta a soberania e independência de nações anteriormente colonizadas.

Embora o mundo inteiro esteja clamando pelo fim da ordem mundial unipolar dominada pelos EUA, a “multipolaridade” não seria progressista se significasse simplesmente se tornar uma competição por iniciativas “unilaterais”. Muitos governos de esquerda e anti-imperialistas acreditam que a adesão à Carta da ONU é um instrumento para defender o lado positivo da “multipolaridade”: o espaço para o crescimento de projetos contra-hegemônicos.

Embora a Rússia esteja legitimamente preocupada com a segurança da expansão da OTAN, não apoiamos a decisão de invadir a Ucrânia e violar sua soberania, que tragicamente transforma os povos das ex-repúblicas irmãs em inimigos de guerra, catalisa as forças de extrema-direita em toda a Europa sob a bandeira do “patriotismo” e reforça a projeção de poder da OTAN na Europa. Também mina a defesa de longa data da Rússia de países independentes contra a ação unilateral dos EUA.

4 – Combater o anticomunismo, combater o fascismo

Durante décadas, os políticos e a mídia corporativa, tanto liberais quanto conservadores, promoveram a falsa equivalência ente fascistas e comunistas. No final das contas, essa calúnia anticomunista também é um truque que permite que os fascistas entrem pela porta dos fundos. Na Ucrânia, onde o Partido Comunista é banido, houve uma rápida e perigosa normalização da Alemanha nazista e seus colaboradores. A Ucrânia integrou nazistas declarados e forças afiliadas aos nazistas nas forças armadas e na polícia. Agora a mídia norte-americana, que há alguns anos apontava para a presença neonazista na Ucrânia, está colaborando em sua rebatização como “patriotas”.

A equiparação de comunistas com fascistas também é difundida nos Estados Unidos. Esta ideia deve ser enfrentada e combatida vigorosamente. A humanidade exige uma alternativa ao capitalismo e não podemos permitir que a ideia do socialismo, do poder da classe trabalhadora e da unidade internacional seja retirada da mesa. Fazer isso apenas reforça o apelo de “alternativa” de extrema-direita de nacionalismo extremo, chauvinismo, racismo e sexismo.

Putin também difamou o socialismo como a causa dos atuais antagonismos entre Ucrânia e Rússia, uma posição bem conhecida da direita russa. Defendemos o legado da União Soviética, com todas as suas falhas e problemas, como uma tentativa heroica de construir um sistema centrado nas pessoas e não no lucro, com foco intenso na unidade multinacional.

5 – O socialismo é a última e única resposta

A causa subjacente deste conflito, além da OTAN, é que continuamos a viver um mundo dividido em estados dirigidos por elites capitalistas que priorizam suas próprias riquezas e poder acima de tudo. A única maneira de construir um mundo que permita a cooperação global e a paz entre todos os povos, a eliminação da pobreza, a abolição das armas nucleares e o estabelecimento de uma democracia real que coloque o poder nas mãos do povo, é por meio do socialismo.

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