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A ignorância de Trump pode matar milhões de pessoas

Guerra de Trump contra Irã encarece energia e insumos agrícolas, reduz produtividade e amplia risco de fome em regiões já vulneráveis

Dean Baker
O presidente dos EUA, Donald Trump, assistindo à decolagem da nave Artemis II no Escritório Oval. (Foto: Daniel Torok / White House)
O presidente dos EUA, Donald Trump, assistindo à decolagem da nave Artemis II no Escritório Oval. (Foto: Daniel Torok / White House)

Trump é uma pessoa incrivelmente ignorante e, ao mesmo tempo, incrivelmente desonesta. Por isso, quando alega desconhecer um fato óbvio, é difícil saber se ele é realmente tão ignorante quanto afirma ou se está simplesmente mentindo.

É o que ocorre com a afirmação de que ele não sabia que o Irã poderia atacar seus vizinhos e fechar o Estreito de Ormuz em resposta ao seu ataque conjunto com Israel. Trump insistiu que nenhum dos especialistas considerava isso possível, quando, na verdade, praticamente todos os especialistas achavam que era tanto possível quanto provável.

Dada a ignorância e a propensão de Trump para a mentira, não é fácil saber se ele realmente entrou em guerra totalmente alheio às consequências mais prováveis, ou se, ao contrário, entrou em guerra de qualquer maneira, decidindo que não se importava com os danos que isso causaria. Seja qual for a versão verdadeira, as consequências são enormes e certamente piorarão à medida que o estreito permanecer fechado por mais tempo.

A consequência mais imediata e óbvia é o aumento do preço do petróleo e do gás natural. As pessoas nos Estados Unidos percebem isso no posto de gasolina toda vez que abastecem o tanque. Pagar cerca de um dólar a mais por um galão de gasolina é um incômodo para todos. É uma péssima notícia para famílias de renda baixa e moderada, especialmente aquelas que precisam do carro para trabalhar.

Mas isso é apenas o começo da história. Os preços do diesel subiram quase 2 dólares por galão. Os preços do diesel subiram muito mais do que os da gasolina comum porque a capacidade de refino é mais limitada. Isso significa que, quando algumas refinarias perdem acesso ao seu suprimento de petróleo, sua produção não pode ser facilmente substituída. Além disso, há menos capacidade para os usuários reduzirem sua demanda.

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Com a gasolina, a maioria das pessoas tem alguma capacidade de reduzir o número de viagens que fazem, ou de compartilhar caronas ou usar o transporte público. A maior parte do diesel tem usos comerciais, como o transporte rodoviário. Não há muita capacidade de redução, a menos que se transporte menos mercadorias.

O preço mais alto do diesel será um grande golpe para caminhoneiros autônomos e empresas de transporte rodoviário, que acabarão tendo uma renda menor como resultado. E, na maioria dos casos, eles tentarão repassar grande parte do custo mais alto do combustível para seus clientes, que acabarão repassando-o como preços mais altos para os consumidores.

Há uma situação semelhante com outros meios de transporte comercial. Muitos viajantes já estão percebendo isso nos preços mais altos das passagens aéreas e na redução do número de voos.

Mas, quaisquer que sejam os custos nos Estados Unidos, eles são muito mais altos em outros lugares. O combustível de aviação tem oferta mais limitada na Europa, já que eles importam grande parte do que consomem. O Leste Asiático também está sendo duramente atingido pelos preços mais altos da gasolina e do combustível, já que países como o Japão e a Coreia do Sul importam a maior parte de seus combustíveis fósseis, e a maior parte vem do Oriente Médio.

Mas a situação mais grave está nos países em desenvolvimento, especialmente na África Subsaariana. Dezenas de milhões de pessoas nos países da região já viviam no limite. Preços mais altos do petróleo podem significar que muitos não terão mais condições de comprar querosene para cozinhar. E o custo do transporte de alimentos e outros itens de primeira necessidade pode ser alto demais para os países arcarem.

 Leia também – O aumento do orçamento militar de Trump representa uma fortuna 

E os combustíveis fósseis são apenas parte do problema. Quase 30% do abastecimento mundial de fertilizantes passa pelo Estreito de Ormuz. Como resultado do bloqueio, os preços dos fertilizantes também dispararam desde o início da guerra. Já 70% dos agricultores nos Estados Unidos relatam ter reduzido o uso de fertilizantes devido aos aumentos de preço. Esse número aumentará se o bloqueio persistir e os preços subirem ainda mais.

Mas, por pior que seja a situação aqui, ela é muito pior no mundo em desenvolvimento, onde os agricultores terão muito menos capacidade de lidar com os preços mais altos dos fertilizantes. Muitos podem ser forçados a prescindir totalmente dos fertilizantes, fazendo com que a produtividade das colheitas despenque. Isso poderia levar milhões de agricultores em dificuldades à falência.

E o resultado da menor produtividade das colheitas, tanto nos países em desenvolvimento quanto nos Estados Unidos, será o aumento dos preços dos alimentos em todo o mundo.

Isso causará um aumento da fome e da desnutrição para dezenas de milhões de pessoas.

A questão aqui é que é inteiramente possível, talvez provável, que milhões de pessoas morram por uma consequência totalmente previsível da guerra de Donald Trump, que ele alega nunca ter sequer considerado. Suponho que isso seja consistente com a busca do Secretário de Defesa Pete Hegseth pela “letalidade”.

(*) Tradução de Raul Chiliani

 

CEPR O Center for Economic and Policy Research (CEPR) é um think-tank fundado em 1999 pelos economistas Dean Baker e Mark Weisbrot para promover debates sobre questões econômicas e sociais nos EUA.

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