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Irã, Rússia, Palestina: uma leitura das estratégias de segurança nacional dos EUA

De Obama a Trump, a evolução dos documentos de segurança da Casa Branca revela o abandono gradual da causa palestina e a prioridade da agressividade contra o Irã

Sania Faisal El-Husseini
O presidente dos EUA, Donald Trump, durante discurso na Casa Branca. (Foto: Daniel Torok / White House)
O presidente dos EUA, Donald Trump, durante discurso na Casa Branca. (Foto: Daniel Torok / White House)

As Estratégias de Segurança Nacional dos presidentes dos EUA refletem com precisão a direção de suas políticas externas, que são governadas por interesses americanos que nem sempre são declarados explicitamente, embora não sejam difíceis de deduzir. A Estratégia de Segurança Nacional é um documento presidencial oficial emitido pelo Presidente dos Estados Unidos que delineia as prioridades de segurança nacional e política externa do país. Essas estratégias são moldadas por acontecimentos políticos ao redor do mundo e pelas formas como os Estados Unidos respondem a eles em busca de seus objetivos, mesmo quando isso ocorre às custas dos países das regiões afetadas, incluindo seus próprios aliados.

Por exemplo, a Estratégia de Segurança Nacional do presidente Joe Biden de 2022, emitida oito meses após o início da guerra Rússia-Ucrânia, não tentou esconder seu apoio à Ucrânia e sua determinação em dissuadir a Rússia, colocando ênfase particular no papel da Europa no apoio à guerra de uma maneira distinta da de seus antecessores. A estratégia de Biden diferenciou a China e a Rússia, descrevendo a primeira como uma concorrente e a segunda como uma ameaça. O documento afirmava que os Estados Unidos estavam liderando uma resposta unida e resoluta à invasão russa. Em contraste, a Estratégia de Segurança Nacional do presidente Barack Obama de 2015, que veio após a tomada da Crimeia pela Rússia, descreveu a ação como uma agressão, mas não considerou a Rússia como uma ameaça. O documento também afirmava que a presença militar, os exercícios e os desdobramentos na Europa Central e Oriental tinham como objetivo dissuadir novas agressões russas, ao mesmo tempo em que deixava a porta aberta para uma maior cooperação com a Rússia em áreas de interesse mútuo. As duas Estratégias de Segurança Nacional do presidente Donald Trump, publicadas em 2017 e 2025, durante seus dois mandatos, após a anexação da Crimeia pela Rússia em 2014 e sua invasão da Ucrânia em 2022, respectivamente, descreveram a Rússia de forma diferente do governo Biden. A estratégia de 2017 retratou a Rússia como uma potência revisionista, enquanto a estratégia de 2025 não colocou a Rússia na mesma categoria de ameaça que o governo Biden havia colocado. A primeira propôs uma série de mecanismos híbridos para dissuadir a Rússia, enquanto a segunda se concentrou em gerenciar as relações com Moscou como um meio de restaurar a estabilidade. Em todos os casos, no entanto, a caracterização da Rússia pelo governo Biden e sua abordagem para dissuadi-la foram mais fortes e confrontadoras do que as encontradas nas estratégias de qualquer um dos outros presidentes.

No entanto, isso não se desviava de um objetivo compartilhado por todos os governos: reduzir a dependência da Europa em relação à energia russa, um tema refletido em todas as Estratégias de Segurança Nacional anteriores. A estratégia de Obama de 2015 alertava que a dependência da Europa em relação ao gás natural russo, juntamente com a disposição da Rússia de usar a energia para fins políticos, havia aumentado os riscos. A estratégia de Biden de 2022 apelou explicitamente à redução da dependência da Europa em relação aos combustíveis fósseis russos, enquanto as estratégias de Trump de 2017 e 2025 defenderam a diversificação dos suprimentos de energia da Europa sem mencionar a Rússia. A estratégia de Biden empregou a linguagem mais dura, direcionada especificamente à dependência da Europa em relação à Rússia.

Altas autoridades dos EUA não esconderam sua insatisfação com as compras de energia russa por parte dos países europeus. Antes da invasão da Ucrânia pela Rússia, em 24 de fevereiro de 2022, cerca de 28% das importações de petróleo bruto da União Europeia vinham da Rússia, em comparação com apenas 9% dos Estados Unidos.

A Rússia também fornecia 52% do carvão e dos combustíveis fósseis sólidos da Europa, enquanto os Estados Unidos respondiam por apenas 15%. Além disso, mais de 44% das importações de gás natural da UE vinham da Rússia. A Rússia era o quinto maior mercado de exportação da UE e sua terceira maior fonte de importações. Mesmo assim, o comércio de bens da UE com os Estados Unidos era cerca de duas vezes e meia maior do que seu comércio com a Rússia, embora a Rússia continuasse sendo uma concorrente significativa para os Estados Unidos entre seus aliados mais próximos.

Esses números ajudam a explicar por que grandes potências europeias, como a Alemanha e a França, buscaram um acordo de paz entre a Rússia e a Ucrânia. Antes da guerra, e em meio ao aumento das tensões, os Estados Unidos e a Ucrânia assinaram uma Carta de Parceria Estratégica atualizada em 2021, reafirmando o apoio às aspirações euro-atlânticas da Ucrânia e ao seu caminho em direção à adesão à OTAN. A Alemanha e a França, contudo, viram esses desdobramentos como um fator de acirramento da crise. O presidente francês Emmanuel Macron descreveu a Rússia como histórica e geograficamente parte da esfera europeia. Isso se desenrolava em meio à visão da Rússia de que a expansão da OTAN para o leste, em direção à Ucrânia, a perspectiva de adesão ucraniana e o treinamento militar e apoio com armas pelo Ocidente constituíam uma ameaça direta à sua segurança e aumentavam o risco de confronto.

Como resultado da guerra, a Europa arcou com substanciais custos econômicos, sociais e de segurança, enquanto os preços de energia, a competitividade, os gastos com defesa e o fardo dos refugiados permanecem como desafios de longo prazo. O Conselho Europeu descreveu a guerra e suas consequências como um “desafio existencial para a União Europeia”.

Um padrão semelhante surge das Estratégias de Segurança Nacional dos EUA em relação ao Oriente Médio sob os últimos quatro governos, culminando na guerra devastadora contra o Irã, cujas consequências afetaram todos os países da região e cujos rumos e repercussões permanecem incertos.

As Estratégias de Segurança Nacional de Trump de 2017 e 2025, publicadas durante seus dois mandatos, apontavam mais claramente do que as de seus antecessores para a probabilidade de que uma guerra com o Irã eclodisse e escalasse sob sua presidência.

Da estratégia de Obama de 2010 à estratégia de Trump de 2025, todos os quatro governos adotaram um pivô (redirecionamento) do Oriente Médio em direção à Ásia e uma maior confiança nos aliados para se defenderem e dissuadirem adversários. Suas abordagens em relação ao Irã, no entanto, diferiram, embora cada estratégia o tenha identificado como uma fonte de instabilidade regional. A estratégia de Obama de 2010 apelava ao Irã para que se integrasse à região, enquanto sua estratégia de 2015 mencionou o trabalho com aliados para alcançar um acordo com Teerã. A estratégia de Biden favoreceu a diplomacia ao lidar com o Irã, sem, no entanto, descartar outras opções.

Em contraste, Trump adotou uma abordagem claramente diferente em relação ao Irã desde o início de seu primeiro mandato. Sua Estratégia de Segurança Nacional de 2017 identificava o Irã como um adversário regional principal e uma fonte de instabilidade, enfatizando a necessidade de negar ao regime iraniano o acesso a armas nucleares e de conter sua influência regional. A estratégia publicada em junho do ano passado, apenas alguns meses após a guerra, afirmava que a força militar dos EUA já havia sido usada contra o programa nuclear do Irã e apresentava o enfraquecimento do Irã como um desdobramento positivo que remodelou o Oriente Médio. As estratégias de Trump refletem, assim, claramente uma política voltada a destruir o Irã, em vez de alcançar um acordo com ele, ao contrário das de Obama e Biden, que deixavam aberta a possibilidade de contenção.

Isso também estava intimamente ligado à estratégia dos Estados Unidos para remodelar as relações entre seus aliados regionais. A Estratégia de Segurança Nacional de Trump de 2017 marcou uma mudança clara em sua abordagem ao conflito israelense-palestino, retratando-o como um grande obstáculo para a paz regional e para uma cooperação política e econômica mais profunda contra o Irã. Isso se refletiu nos Acordos de Abraão, promovidos por Trump em 2020. A Estratégia de Segurança Nacional de Biden de 2022 também adotou a ênfase de Trump na normalização e nos Acordos de Abraão, apesar de também se referir à solução de dois Estados. Em contraste, as estratégias de Obama de 2010 e 2015 não apresentaram a normalização como uma via regional independente da questão palestina.

Trump adotou uma abordagem prática para superar a falta de sucesso pleno no processo de normalização política regional. Em 15 de janeiro de 2021, nos últimos dias de seu primeiro governo, o Departamento de Defesa anunciou uma revisão do Plano de Comando Unificado, transferindo Israel do Comando Europeu dos EUA (EUCOM) para o Comando Central dos EUA (CENTCOM). Desde que o CENTCOM foi estabelecido em 1983, Israel permanecia fora de sua área de responsabilidade e era atribuído, em vez disso, ao EUCOM, porque a maioria dos estados árabes sob a jurisdição do CENTCOM boicotavam Israel. A decisão permitiu que Israel operasse ao lado de seus parceiros árabes dentro da mesma estrutura. A implementação operacional começou sob o governo Biden, com a defesa contra mísseis sendo identificada como uma das principais áreas de cooperação, devido à ameaça representada pelos mísseis iranianos. Em abril de 2024, a demonstração pública mais clara dessa rede de defesa regional ocorreu quando o Irã lançou mais de 300 mísseis e drones em direção a Israel.

As posições e as estratégias de Trump não podem ser separadas dos desdobramentos políticos que ocorreram na região durante sua presidência, os quais poderiam minar o equilíbrio de poder que Washington buscou estabelecer e podem estar entre as razões por trás da atual escalada dos EUA contra o Irã. O desenvolvimento paralelo das relações dos estados do Golfo com a Rússia, a China e o Irã, após adotarem uma política de diversificação de parcerias internacionais e redução de tensões com países vizinhos, representou uma ameaça aos planos de Washington. Sinais dessa mudança tornaram-se cada vez mais evidentes após 2019, particularmente após os ataques às instalações da Aramco, que levantaram dúvidas entre os estados do Golfo sobre o grau de disposição dos Estados Unidos em se engajarem em um confronto direto em defesa de seus parceiros.

A cooperação petroleira entre os estados do Golfo e a Rússia continuou após a invasão em da Ucrânia pela Rússia em 2022, e os estados do Golfo não se juntaram ao regime abrangente de sanções ocidentais contra Moscou. Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Omã e Iraque também mantiveram sua coordenação com a Rússia por meio da OPEP+ em relação a cortes de produção e gestão do mercado petroleiro, com a Rússia permanecendo como uma parceira fundamental. Na Cúpula de Riad de 2023, o Conselho de Cooperação do Golfo e a China endossaram o fortalecimento de sua “parceria estratégica existente”, enquanto a China se tornou o principal parceiro comercial de vários estados do Golfo. No mesmo ano, a China anunciou o acordo final saudita-iraniano alcançado em Pequim para reestabelecer relações diplomáticas e reduzir as tensões entre os países.

Talvez tenha ficado claro que confiar em Washington pode não atender aos interesses dos estados da região. As políticas dos EUA já causaram danos extensos a vários países da área. Os estados do Golfo não esconderam sua oposição a uma guerra dos EUA contra o Irã, dada a sua compreensão das realidades e desafios da região.

Ainda assim, o governo Trump levou pouco em consideração os interesses de seus aliados do Golfo, expondo-os a riscos maiores. Hoje, os estados do Golfo podem estar em uma posição melhor do que quaisquer outros para exercer pressão sobre Washington para encerrar a guerra, dada a presença de bases militares dos EUA em seus territórios, o fardo de arcar com os custos de uma guerra que não atende aos seus interesses e os danos econômicos que sofrem com o fechamento do Estreito de Ormuz, a linha vital de suas economias.

Já os palestinos enfrentam os desafios mais complexos na era Trump. Nenhum governo dos EUA abandonou seu profundo compromisso com Israel e sua segurança, mas sucessivos governos recuaram gradualmente de seu compromisso com os palestinos. A Estratégia de Segurança Nacional de Obama de 2010 referia-se a uma solução de dois Estados que encerraria a ocupação, enquanto sua estratégia de 2015 pedia o estabelecimento de um Estado palestino viável. A Estratégia de Segurança Nacional de Biden de 2022 apoiava a possibilidade de um Estado palestino baseado nas fronteiras de 1967, com trocas de terras mutuamente acordadas. Em contraste, a Estratégia de Segurança Nacional de Trump de 2017 propôs um acordo que seria aceitável tanto para israelenses quanto para palestinos, enquanto sua estratégia de 2025 descreveu o conflito como intratável, refletindo uma política que desconsidera completamente os palestinos. O que, então, os palestinos podem esperar do Conselho da Paz, do cessar-fogo e de todas as medidas introduzidas pelas decisões de Trump que os afetam?

Middle East Monitor

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