Pesquisar
, ,

Que fatores podem levar Milei a perder as próximas eleições na Argentina em 2027?

Com um terço fiel e dois terços insatisfeitos, a derrota de Milei na Argentina em 2027 depende da capacidade da oposição de construir um programa de convergência

Alfredo Serrano Mancilla
O presidente da Argentina, Javier Milei, durante a Conferência de Ação Política Conservadora de 2025, em Maryland, nos Estados Unidos. (Foto: Gage Skidmore / Flickr)
O presidente da Argentina, Javier Milei, durante a Conferência de Ação Política Conservadora de 2025, em Maryland, nos Estados Unidos. (Foto: Gage Skidmore / Flickr)

A pouco mais de um ano das eleições presidenciais, todas as pesquisas apontam para o seguinte panorama.

1 – Um terço da sociedade apoia Milei

Há duas razões que explicam esse apoio. Primeiro, por suas ideias, pela confiança e identificação com suas propostas (na forma e no conteúdo), pelo lado positivo. E, segundo, por ser considerado uma espécie de criptonita anti-peronista, por ser o único capaz de derrotar o adversário e impedir o retorno do “comunismo”.

O primeiro motivo vem perdendo peso gradualmente com o passar do tempo; e o segundo é o único que lhe permite compensar essa queda e, assim, manter seu apoio entre 30% e 40%.

Ou seja: sua reconhecida incapacidade de resolver os problemas econômicos cotidianos é compensada por sua liderança única para derrotar o rival.

E, é claro: para desfrutar desse apoio, tem sido fundamental o respaldo do poder econômico e da mídia. Eles o consideram o garante do atual modelo econômico.

2 – Existem dois terços da sociedade que não apoiam Milei

Há duas razões que explicam essa rejeição. Primeiro, por não concordarem com suas ideias, porque nunca votaram nele nem confiam nele, pois pensam de maneira muito diferente dele. Segundo, porque se desiludiram à medida que ele governava e perderam a confiança nele.

Esse bloco social heterogêneo poderia se “unir” eleitoralmente se encontrasse uma candidatura que os representasse.

Para que isso seja alcançado, é necessário não cair na armadilha da confusão/caos que atomiza e fragmenta (e não por questões de ideias, mas por outras razões menores).

Dito de outra forma: só será possível aglutinar a maioria desses dois terços que não apoiam Milei se for formada uma aliança com uma base comum (ideológica) antimileista, com generosidade para ceder em diferenças secundárias e com responsabilidade para encontrar o método adequado para escolher a candidatura.

Nesta altura, é insuficiente a estratégia monopolista do diagnóstico crítico a Milei. Não basta para convencer eleitoralmente a maioria desses dois terços. É necessário mostrar um caminho com certezas.

Se as PASO (eleições primárias) forem eliminadas, o caminho da reclamação/lamentação deverá caducar imediatamente. A urgência estará em dispor de uma ferramenta política/eleitoral para decidir entre as alternativas que queiram estar “juntas” por coincidências ideológicas. Por exemplo: a via mexicana (pesquisa de opinião, em que cada parte propõe a sua, com metodologia comum e com 4 a 5 perguntas consensuais). Essa opção não precisa ser vinculativa; poderia servir como ponto de encontro e base consultiva. Outro exemplo: estabelecer os parâmetros mínimos para fazer parte desse espaço (compromisso de não apoiar Milei nos próximos 12 meses, chegar a um acordo sobre as 10 primeiras medidas do próximo governo, endossar a urgência de eliminar a proibição de Cristina Fernández de Kirchner, etc.).

A futura derrota eleitoral de Milei dependerá de como esses dois pontos evoluírem.

Se Milei estagnar definitivamente (preso em seu terço), como vem acontecendo nos últimos meses, tudo ficará nas mãos da oposição.

Se a oposição se fragmentar, como vem acontecendo nos últimos meses, e ainda se distrair com o que não é importante e adiar o que deveria ter feito para ontem, então bastará a Milei seu terço, pois uma queda na participação eleitoral se traduz em uma porcentagem de votos válidos suficiente para ele vencer.

A disputa política e eleitoral está servida. E o que for feito nos próximos meses será mais decisivo do que a reta final da campanha, por melhor que seja o slogan ou o jingle.

CELAG Centro Estratégico Latinoamericano de Geopolítica

Continue lendo

Hugo Chávez durante discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas, em setembro de 2009. (Foto: Erin Siegal / United Nations)
Ainda cheira a enxofre: 20 anos do discurso de Chávez na ONU
Os presidentes dos EUA, Donald Trump, e da China, Xi Jinping, durante visita de Trump à China em maio de 2026. (Foto: Daniel Torok / White House)
Colaboração, não confronto: a visita de Xi Jinping aos Estados Unidos
A IA vai nos matar? Seria bastante lamentável. Afinal, a IA foi criada por todos nós. (Foto: RawPixel)
A IA nos matará?

Leia também

Comandantes militares, o ministro da Defesa, José Múcio, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante cerimônia do Dia do Soldado, no Quartel-general do Exército, em agosto de 2024. (Foto: Ricardo Stuckert / PR)
José Múcio é uma besta e o portão está aberto
Mulheres iranianas durante comemorações do Dia do Basij, em novembro de 2025. (Foto: Khamenei.ir / Wikimedia Commons)
6 livros para entender o Irã
Quando transformamos livros em uma espécie de forragem ou combustível para as máquinas, evaporamos universos inteiros. (Imagem: Estúdio Gauche)
Bibliocídio: como as big techs queimam livros
Membros da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) – lefebvrianos – durante missa na Igreja de St. Jude, na Filadélfia. (Foto: jcapaldi / Flickr)
O primeiro racha na Igreja sob Leão XIV
Marx abordou o capitalismo do ponto de vista do trabalho assalariado; Weber, do ponto de vista dos proprietários do capital. (Imagem: Estúdio Gauche)
Marx e Weber: ângulos de visão
Pouco conhecida em comparação com as principais empresas do Big Tech (Google, Amazon, Meta, Apple), a Palantir Technologies é uma veterana no Vale do Silício. A pedra fundamental da empresa foi lançada pela agência de inteligência americana CIA por meio de seu fundo de investimento In-Q-Tel. (Imagem: Adrián Astorgano / El Salto)
Palantir: a empresa mais perigosa do mundo
18.12.2025 - Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante cerimônia de apresentação dos oficiais-generais promovidos. Clube do Exército – Sede Lago. Brasília (DF) - Brasil. (Foto: Ricardo Stuckert / PR)
Defesa nacional: a falsa solução dos gastos militares
Retrato de Muammar Gaddafi pintado em Lyon, na França. (Foto: Thierry Ehrmann / Flickr)
A Líbia pós-Gaddafi, 15 anos depois
São Paulo (SP), 11/09/2024 - 27ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo no Anhembi. (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)
Ser pobre e leitor no Brasil: um manual prático para o livro barato