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Egopolítica: Trump põe seu nome em edifícios, moedas, navios e aviões

Chantagear orçamentos e batizar navios de guerra: os contornos do narcisismo de Estado no segundo mandato de Trump

Álvaro Verzi Rangel
O presidente dos EUA, Donald Trump, durante as comemorações de 250º aniversário dos EUA. (Foto: Andrea Hanks / White House)
O presidente dos EUA, Donald Trump, durante as comemorações de 250º aniversário dos EUA. (Foto: Andrea Hanks / White House)

É evidente há muito tempo o desejo insaciável de Donald Trump – magnata e presidente dos Estados Unidos –, de incluir seu nome em tudo. E, como presidente, ele levou esse impulso ao extremo, batizando coisas em sua homenagem de maneiras que, ao que parece, nenhum outro presidente sequer sonhou em fazer. O republicano propôs liberar verbas para um túnel fundamental para Nova York em troca de dar seu sobrenome a uma estação de trem e a um aeroporto.

No que já se passou de seu segundo mandato presidencial, ele tem demonstrado uma inclinação peculiar para batizar grandes obras de infraestrutura com seu nome, às vezes simplesmente para a irritação de juízes. O sobrenome do republicano já pode ser visto na entrada do Instituto da Paz dos EUA ou nas placas do aeroporto de Palm Beach. E a ideia é que seu nome também apareça no casco dos 25 novos navios que a Marinha dos Estados Unidos (US Navy) pretende incorporar à sua frota. Mas a obra de maior porte que em breve levará seu nome é uma mega-rodovia marroquina que atravessa o Saara Ocidental.

No entanto, mesmo para seus próprios padrões, essa ânsia tomou um rumo desesperado e, aparentemente, nem um pouco prudente do ponto de vista político. Trump tentou – por meio do líder da minoria no Senado, Chuck Schumer – que o Congresso mudasse o nome do Aeroporto Internacional de Dulles, próximo a Washington, e da Estação Penn, em Nova York, para que levassem seu nome, como condição para liberar bilhões de dólares em fundos congelados destinados a um importante projeto de infraestrutura em Nova York. Schumer, democrata de Nova York, rejeitou a proposta.

Trump já atribuiu seu nome (legalmente ou não) a uma infinidade de coisas: desde o Centro Kennedy até o Instituto da Paz dos EUA, a uma classe de navios de guerra e a contas de poupança para crianças. Ele chegou a lançar uma plataforma de medicamentos chamada “TrumpRx”, no mesmo dia em que falou sobre seus planos de dar seu nome aos principais centros de transporte de Washington e Nova York.

O anúncio mais recente foi o de que ordenará a construção de dois navios de guerra que levarão seu nome e farão parte da chamada “frota de ouro”. Serão navios blindados 100 vezes mais potentes que os atuais. É assim que ele tenta revitalizar a indústria naval norte-americana. O anúncio foi feito, ao lado do secretário da Guerra, Pete Hegseth, e do secretário de Estado, Marco Rubio, em sua residência particular em Mar-a-Lago. É mais uma demonstração de como Trump não sabe separar suas propriedades privadas de sua função pública.

Ele transformou sua identidade em um elemento central de seu governo, fazendo das nomeações de edifícios e programas governamentais um batismo. Da mesma forma que fez com seu império empresarial e seus produtos de campanha. Mais do que megalomania, é quase um culto à própria personalidade.

Sem vergonha nem decoro, Trump deu seu nome ao Centro Kennedy, em Washington; imediatamente, mais de uma dezena de artistas cancelaram seus shows no antigo Centro depois que o nome de Trump foi acrescentado. Embora existam coisas que levam o nome de presidentes, não há precedente para nomear coisas em homenagem a um presidente em exercício. O The New York Times analisou os dados, confirmando que outros presidentes quase sempre esperam até deixarem o cargo. O fato é que o nome do centro havia sido estabelecido por lei em janeiro de 1964. O presidente John F. Kennedy havia sido assassinado apenas dois meses antes. Qualquer alteração precisa ser aprovada pelo Congresso.

Trump adora ver seu nome por toda parte. O único lugar onde ele lamenta que seu nome apareça é nos arquivos de quem foi seu amigo, Jeffrey Epstein. O condenado por tráfico sexual o persegue mesmo após a morte. Trump sempre optará por negar tudo, como um bom narcisista.

Em novembro do ano passado, o Departamento de Recursos Naturais apresentou o Passe para Parques Nacionais “America the Beautiful” de 2026, que traz uma imagem de George Washington e Trump lado a lado para comemorar o 250º aniversário da nação. Enquanto isso, o governo começou a processar pedidos de pais com filhos nascidos entre 2025 e 2028 para receber mil dólares do Departamento do Tesouro, que serão depositados em “contas Trump”. O governo também lançou o “Cartão Dourado Trump”, no valor de um milhão de dólares, que facilita a obtenção de autorizações para morar e trabalhar nos Estados Unidos por parte de estrangeiros.

O Departamento do Tesouro também planeja uma moeda de um dólar com a efígie de Trump para o 250º aniversário dos Estados Unidos. O próximo passo poderia ser associar o nome de Trump ao novo estádio do Washington Commanders.

Trump no Saara

Na semana passada, o Reino de Marrocos batizou uma rodovia costeira de 655 milhas (1.055 quilômetros) como “Rodovia Donald J. Trump”, em agradecimento direto ao presidente dos Estados Unidos por reconhecer formalmente a soberania marroquina sobre o território disputado do Saara Ocidental, reivindicado pelos saharauis. O presidente dos Estados Unidos agradeceu ao rei Mohamed VI pela homenagem e expressou seu desejo de viajar pela rodovia em breve.

O gesto de Marrocos de batizar a rodovia, que contou com um investimento de 1 bilhão de dólares, com o nome de Trump é uma resposta à decisão tomada por ele em dezembro de 2020, durante seu primeiro mandato (2017-2021), de reconhecer o Saara Ocidental – reivindicado pela Frente Polisário dos saharauis – como território marroquino.

A construção da rodovia Tiznit–Dajla teve início em 2015 e agora levará o nome de Donald Trump.

Essa medida ressalta a campanha diplomática que Rabat mantém para consolidar o controle internacional sobre o território, com a rodovia que liga a cidade de Tiznit, no Marrocos, à cidade de Dajla, a centenas de quilômetros dentro do Saara Ocidental. A disputa há muito tempo polariza a União Africana, dividindo profundamente os Estados-membros entre os aliados de Marrocos e os defensores da República Saharaui independentista.

A decisão de Trump – negociada em conjunto com os Acordos de Abraão em 2020, que também implicaram a normalização das relações de Marrocos com Israel – representou uma mudança histórica em relação a décadas de política externa estabelecida pelos Estados Unidos. Washington vinha mantendo anteriormente uma postura neutra em relação ao Saara Ocidental.

Pelos padrões que o próprio Trump estabeleceu, sua tentativa de renomear a estação ferroviária e o aeroporto está em outro nível. A diferença fundamental aqui é que o presidente tentou dar seu nome a essas instalações não por meio de uma ação executiva, mas por meio de pressão, negociando isso como um favor político. Existem boas razões para acreditar que ele está escolhendo esse caminho. Suas tentativas anteriores de dar seu nome a edifícios, como o Centro Kennedy, são possivelmente ilegais e poderiam ser facilmente revertidas, especialmente quando ele deixar o cargo. Seria uma surpresa se o próximo presidente democrata não retirasse o nome de Trump do Centro Kennedy.

Todos sabem que Trump gostava de deixar sua marca em seus bens. O Trump World, na Primeira Avenida, entre as ruas 47 e 48 em Manhattan, é seu edifício mais emblemático. Na entrada, vendem bonecos, chaveiros, bonés, camisetas… do universo trumpista. Já no primeiro mandato, ele deu a entender que não seria má ideia que sua efígie figurasse no Monte Rushmore. Mas é em seu segundo mandato que seu ego já está fora de controle, buscando sua maior glória, renomeando o Centro Kennedy e sem esquecer a reforma da Casa Branca para adicionar um mega salão de baile.

Os analistas apontam que se trata de um culto à personalidade doentio. Trump acredita que, como presidente, pode fazer e desfazer o que quiser sem ter que prestar contas. Como disse sua chefe de gabinete, Susie Wiles, à Vanity Fair: “ele tem a personalidade de um alcoólatra. Age com a convicção de que não há nada que não possa fazer. Nada”. Mais tarde, ela afirmou que suas declarações haviam sido tiradas do contexto. Na verdade, Trump tem uma personalidade narcisista: seu ego é gigantesco, ele se considera superior aos demais e digno de admiração. Ao mesmo tempo, nutre uma inveja doentia por qualquer pessoa que possa ofuscá-lo.

Segundo o professor Vicente Caballo Manrique, da Universidade de Granada, na Espanha, Trump “atende a todos os critérios diagnósticos do Transtorno de Personalidade Narcisista (TPN), uma doença mental caracterizada por uma tendência extrema de se valorizar, de se considerar diferente e de se sentir merecedor de um tratamento especial”. Em um artigo publicado na revista Behavioral Psychology, o professor destaca que “o narcisista não é simplesmente bom, ele é o melhor. Não é grande, é o maior. Não é honesto, é o mais honesto. Não é humilde, é o mais humilde”.

Também se observa seu transtorno no uso excessivo de conceitos grandiloquentes como “impressionante”, “fantástico” ou “surpreendente”. Ele se considera especial e único. Além disso, exige admiração excessiva e se preocupa com sua popularidade. A isso se soma a inveja pelas conquistas dos outros e, ao mesmo tempo, a crença de que todos os demais, na verdade, querem ser ele e como ele.

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