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Argentina: as ruas puseram um freio aos saques de Milei

Derrota no Congresso e nas ruas: a hegemonia libertária de Javier Milei começa a se desintegrar em seu terceiro ano à frente do governo na Argentina

Julian Bokser
O presidente da Argentina, Javier Milei, durante participação no congresso do Partido VOX, da Espanha. (Foto: Vox España / Flickr)
O presidente da Argentina, Javier Milei, durante participação no congresso do Partido VOX, da Espanha. (Foto: Vox España / Flickr)

O governo de Javier Milei sofreu recentemente uma derrota dupla. A primeira ocorreu nas ruas, com a mobilização massiva em protesto contra seu projeto de liberar a compra de terras por estrangeiros. A segunda, nos corredores do Congresso argentino, onde ele não conseguiu reunir votos suficientes para aprovar a lei tal como foi apresentada. Ambas apontam para o mesmo sentido: um projeto de poder que começa a mostrar os limites de sua força.

A lei que o governo buscava impor, sob o nome de “Lei da Inviolabilidade da Propriedade Privada”, não era uma iniciativa isolada nem um simples ajuste normativo. Fazia parte de uma série mais ampla de ataques à soberania nacional: habilitar mecanismos para aprofundar a estrangeirização da terra, facilitar o controle externo sobre recursos estratégicos e abrir caminho para que o território argentino, seus bens comuns e a capacidade de decisão sobre eles fiquem cada vez mais subordinados a interesses alheios ao país.

Nas ruas, milhares de pessoas se mobilizaram contra essa ofensiva. O governo respondeu como sempre responde quando o povo se organiza: com gás lacrimogêneo e balas de borracha, com feridos e detidos. A repressão não foi um excesso isolado. É um método. Sempre que o ataque encontra resistência, o Estado mostra sua face mais violenta para tentar disciplinar aqueles que não consegue convencer.

Porque é isso que começa a se desintegrar: a hegemonia, a capacidade de convencer. Nas ruas, percebe-se o cansaço diante de um ajuste econômico que castiga as maiorias populares enquanto beneficia um punhado de setores concentrados. Essa austeridade não é um capricho técnico nem um desvio de um plano bem-intencionado. É a forma que assume, na Argentina, uma estratégia mais ampla da nova direita internacional para subjugar os povos do Sul Global: reduzir salários, entregar recursos naturais, desmantelar direitos e chamar a pilhagem de “modernização”. Milei não administra essa estratégia a partir de uma posição autônoma; ele a executa como aliado incondicional de um hiperimperialismo que hoje atravessa uma fase decadente e, por isso mesmo, mais perigosa: precisa se apropriar do que resta ao Sul Global para sustentar uma ordem que já não consegue garantir o bem-estar nem mesmo em seus próprios centros.

No Congresso, a outra frente, o governo também não conseguiu o que buscava. As tentativas de comprar votos parlamentares, de formar maiorias à base de cargos, promessas e pressões, não deram certo. Ele teve que recuar. Primeiro, em relação ao cerne da mal chamada “Lei da Inviolabilidade da Propriedade Privada”. Depois, com a reforma da Lei de Combate a Incêndios, resignando-se a uma versão reduzida. Dois recuos que revelam a fragilidade de um projeto que se acreditava imbatível.

 Leia também – Que fatores podem levar Milei a perder as próximas eleições na Argentina em 2027? 

A mobilização contra a estrangeirização da terra revelou algo mais profundo do que a rejeição a uma lei específica. Mostrou um ponto de ruptura na capacidade da classe dominante de organizar o consenso em torno de uma ordem social que beneficia apenas a ela mesma. Esse consenso, que durante meses pareceu sólido, começou a se romper. Resta saber qual será o caminho de organização dessa raiva que se tornou visível sob a chuva, ao redor do Congresso.

Vijay Prashad vem apontando, a partir do Instituto Tricontinental, que o ciclo atual do capitalismo global não oferece saídas dentro de suas próprias regras: a crise é administrada transferindo seus custos para o Sul Global, enquanto as burguesias locais, transformadas em parceiras secundárias dessa ordem, aplicam internamente as receitas que o capital financeiro internacional elabora externamente. Prashad insiste que nenhum ajuste desse tipo se sustenta sem uma batalha cultural paralela, destinada a apresentar como inevitável o que é, na realidade, uma opção política a serviço de interesses concretos. Quando essa batalha cultural começa a perder terreno, como ocorreu na Argentina, abre-se uma fresta que nenhuma repressão consegue fechar por completo.

Algo disso ficou evidente na bandeira que circulou repetidamente entre milhares de pessoas na multidão, a mesma que os jogadores da Seleção desfraldaram após a vitória contra a Inglaterra na última Copa do Mundo, com o slogan “As Malvinas são argentinas”. Desde a Guerra das Malvinas, em 1982, essa partida não é mais apenas mais um jogo. O de 1986, poucos anos após a guerra, foi inesquecível: é a partida da “Mão de Deus” e do melhor gol da história, ambos assinados por Diego Maradona. O futebol carrega consigo a reivindicação das Ilhas Malvinas, hoje transformadas em base da OTAN sob domínio britânico e em plataforma para a pilhagem de petróleo e outros bens comuns do Atlântico Sul. Essa bandeira tocou uma fibra sensível do povo argentino, a de uma soberania cuja reivindicação nunca foi totalmente abandonada, nem mesmo quando o poder vigente insiste em negociá-la.

Mas nenhuma fibra sensível, por si só, é suficiente para mudar o rumo de um país. A revolta que se viu nas ruas precisa se organizar, encontrar um canal, transformar-se em projeto. Caso contrário, corre o risco de se esgotar na própria intensidade do momento, de se dissipar em frustração assim que a onda da mobilização baixar. A tarefa que se coloca, então, não é apenas resistir ao próximo ataque. É construir a força política capaz de sustentar ao longo do tempo o que as ruas mostraram em meio à tempestade: que há um limite, que esse limite deve ser defendido e que a Pátria não se vende.

Globetrotter O Globetrotter é um serviço independente de notícias e análises internacionais voltado aos povos do Sul Global.

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