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De Gaza a Hollywood: como ex-espiões de Israel se consolidaram no mercado de segurança para celebridades

A proliferação de empresas de segurança israelenses vinculadas a crimes de guerra em Gaza e os dilemas das celebridades que confiam suas vidas a ex-espiões

Alan Macleod
Soldados das Forças de Defesa de Israel (IDF) durante treinamento na Polônia, em junho de 2018. (Foto: Aaron Good / Michigan National Guard)
Soldados das Forças de Defesa de Israel (IDF) durante treinamento na Polônia, em junho de 2018. (Foto: Aaron Good / Michigan National Guard)

De Taylor Swift e Kim Kardashian a Jennifer Aniston e Lionel Messi, celebridades de todo o mundo estão contratando equipes de guarda-costas israelenses compostas por ex-membros do Shin Bet, do Mossad e das forças especiais israelenses.

Mas até que ponto é seguro confiar sua vida e seus detalhes mais íntimos a agentes de agências de espionagem com um longo histórico de infiltração, vigilância e chantagem contra alvos estrangeiros?

Nesta matéria, o MintPress News explora como a segurança israelense tomou conta de Hollywood e do mundo.

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Agentes do serviço secreto israelense não morrem nem desaparecem, escreve o jornal The New York Post. Em vez disso, eles se mudam para Hollywood. O fluxo de Tel Aviv para a Cidade das Luzes há décadas está bem estabelecido, e hoje há uma infinidade de agências de segurança israelenses, tanto em Los Angeles quanto em todo o mundo, protegendo muitas das figuras mais ricas, famosas e influentes do planeta.

O astro do futebol do Inter Miami, Lionel Messi – que, em 2020 tornou-se o garoto-propaganda de uma empresa israelense de inteligência artificial cuja equipe é composta por espiões das Forças de Defesa de Israel (IDF) – é acompanhado por uma força seleta de ex-agentes israelenses aonde quer que vá.

Os astros de Hollywood Brad Pitt e Jennifer Aniston são conhecidos por contarem com os serviços de segurança israelenses, assim como as estrelas pop Madonna, Pink e Jennifer Lopez.

A atriz Lucy Liu, por sua vez, é seguida por toda parte por uma equipe de guarda-costas israelenses.

E a relação do cantor canadense Justin Bieber com a segurança israelense ganhou destaque público em 2013, depois que ele supostamente agrediu seu ex-supervisor das IDF, Moshe Benabou, o CEO da Israguard Security Services.

 Leia também – Gaza: se não é genocídio, é guerra total 

Em resumo, os guarda-costas israelenses são muito requisitados. “Há demanda em todo o mundo, e com razão. A segurança israelense é como a Coca-Cola”, disse Roman Tukh, cofundador da Guise Security, “Você não precisa fazer propaganda – você já tem um nome. A questão é se você consegue mantê-lo ou não. É por isso que é mais fácil para nós, como israelenses.”

Guarda-costas não saem baratos. Os serviços que Tukh e outros como ele prestam custam entre 125 dólares e 1,5 mil dólares por hora, dependendo do nível de segurança necessário.

Dois outros nomes famosos que conhecem bem os serviços de segurança israelenses são Bill Maher e Charlie Kirk. Em uma conversa de 2025, o primeiro revelou que passou todas as suas férias na Europa “espremido entre esses dois gigantescos guarda-costas israelenses o tempo todo”. “Quando fui para a Europa em 2015, eu tinha tipo dois guarda-costas israelenses e meu próprio segurança”, disse ele ao influenciador conservador. “Se você quer segurança, os israelenses sabem o que estão fazendo”, respondeu Kirk, com ar de quem sabe das coisas.

Maher editou essa conversa e a retirou do vídeo que divulgou ao público. Ela só existe como um vídeo de reação no canal oficial de Kirk, que parece não ser mais atualizado desde a morte dele.

Apenas alguns meses depois, Kirk seria assassinado publicamente. Sua morte, e sua relação específica com Israel e a segurança israelense, geraram todo tipo de especulação na internet.

Estrelas e espiões

Um dos pioneiros desse esquema foi Moshe Alon. Ex-oficial de longa data das Forças de Defesa de Israel (IDF) e veterano do Serviço Secreto israelense, Alon foi para os Estados Unidos em 1984 como chefe da equipe de segurança que protegia os atletas israelenses nas Olimpíadas de Verão de Los Angeles.

Ele nunca mais foi embora, fundando a Professional Security Consultants (PSC) no ano seguinte e trazendo um grande número de ex-colegas para proteger a realeza de Hollywood. Hoje, a PSC é licenciada em mais de 40 estados e emprega mais de 4 mil pessoas em todo o país, e o próprio Alon forneceu segurança para Elizabeth Taylor, Michael Caine, Armand Hammer e Goldie Hawn.

Muitos guarda-costas vêm de unidades de elite das Forças Armadas de Israel ou do sistema de segurança nacional, que cometeram graves crimes de guerra em Gaza e em outros lugares. No entanto, essas ligações não são vistas nos EUA como um ponto negativo, mas sim como um diferencial.

Kfir Goldin, diretor da Safe Security e guarda-costas de Nick Jonas e Priyanka Chopra, se orgulha de seu passado como membro da unidade de elite das Forças de Defesa de Israel (IDF), a Brigada Givati. A Brigada Givati é conhecida por demolir em massa e incendiar casas de civis palestinos. “Em todos os lugares por onde [nossos] soldados passam, o local se transforma em terra arrasada”, declarou o comandante da Givati, Avraham Zeriviv.

Enquanto isso, antes de se tornar guarda-costas de celebridades, Lior Raz serviu na notória Unidade Duvdevan das Forças de Defesa de Israel (IDF), um grupo de elite de espiões que vivem profundamente infiltrados em comunidades árabes, espionando-as secretamente. Raz mudou-se para os EUA e tornou-se o guarda-costas pessoal de Arnold Schwarzenegger e Maria Shriver. Mais tarde, ele criou “Fauda”, uma série de TV que glamouriza a vida e o trabalho dos agentes da Duvdevan.

“Israel é reconhecido mundialmente como um sucesso no combate ao terrorismo, então isso faz sucesso no exterior. A questão é o que acontece na prática, qual é o resultado que se obtém. A Duvdevan é algo que as pessoas valorizam por causa de ‘Fauda’”, disse Yechiel Salomon, um veterano das Forças Especiais israelenses cuja empresa, a BHS Security, protege celebridades como Helen Mirren, Michael Douglas e Catherine Zeta-Jones. “As pessoas querem guarda-costas ‘como em “Fauda”’. É um ótimo marketing”, acrescentou ele.

Outro agente da Duvdevan que se tornou guarda-costas de celebridades é Aaron Cohen. Nascido no Canadá, Cohen imigrou para Israel aos 17 anos e serviu por três anos na Duvdevan, onde aprendeu árabe e participou de mais de 200 missões de infiltração em comunidades árabes.

Vindo de uma família de roteiristas, ele se mudou para Los Angeles e fundou a IMS Security Consultants, e prestou serviços de segurança para uma série de estrelas, incluindo Britney Spears, Katy Perry e Brad Pitt.

E depois que ela foi assaltada à mão armada em 2016, Kanye West encarregou Cohen de reformular a segurança de sua então esposa, Kim Kardashian. Dada a trajetória política de West, é notável que, há menos de 10 anos, ele pagasse a um ex-espião israelense armado para acompanhar cada um de seus movimentos, confiando-lhe sua vida.

Mas não é preciso descer ao nível de paranóia de West para levantar sérias preocupações sobre a relação problemática entre espiões israelenses e a elite das celebridades mundiais.

A Duvdevan é uma força de espionagem de elite israelense encarregada de se infiltrar profundamente em território inimigo por anos, fazendo-se passar por amigos ou por um de seus alvos. Durante todo esse tempo, eles coletam secretamente informações e dados sobre esses alvos, a fim de controlá-los, extorqui-los, chantageá-los ou até mesmo matá-los. Por que qualquer celebridade desejaria ter alguém assim por perto – especialmente um estrangeiro de um país conhecido por suas operações de espionagem internacional – é uma questão em aberto.

Ameaça à Segurança Nacional

Costuma-se dizer que ninguém se aposenta de verdade do mundo da espionagem. O caso de Cohen merece destaque especial, já que ele batizou sua empresa de segurança de “Cherries” – a tradução em inglês da palavra hebraica “duvdevan”.

É injusto perguntar a quem – ao Estado ou à celebridade – esses ex-comandos israelenses devem lealdade? Essa questão ganhou destaque em 2023, quando, após os ataques de 7 de outubro, uma série de seguranças de alto nível deixou seus empregos nos Estados Unidos para se reincorporar às suas unidades.

O mais notável deles foi o guarda-costas de Taylor Swift, que discutiu suas razões para retornar à sua unidade das Forças de Defesa de Israel (IDF) com o veículo de imprensa local Israel Hayom. “Tenho uma vida muito boa nos Estados Unidos, um emprego dos sonhos, ótimos amigos e uma casa confortável. Eu não precisava vir para cá, mas não podia ficar de braços cruzados enquanto famílias eram massacradas e queimadas vivas em suas casas… Não podia ficar parado sem fazer nada”, disse ele.

Outro exemplo é Oded Krashinsky, fundador da Advanced Security Concepts e guarda-costas pessoal de Nicole Kidman. Krashinsky já havia servido por muitos anos como oficial em uma unidade operacional não identificada do Serviço Secreto das FDI. Em 2023, ele largou tudo para lutar por Israel. “Vim para cá para ajudar minha unidade. O ânimo está tenso. A principal ameaça é a invasão — temos que desviá-la, combatê-la e nos proteger contra ela”, disse ele, “sou quem sou porque vim daqui. No fim das contas, trata-se de experiência, tomada de decisões, táticas e liderança — foi isso que senti que poderia contribuir e é isso que faço agora.”

As pessoas e empresas às quais as estrelas de Hollywood confiam suas vidas e seus segredos mais íntimos vêm de algumas das mesmas organizações que se tornaram notórias por criar e disseminar malwares e spywares (vírus de computador) direcionados a dezenas de milhares de figuras notáveis, incluindo líderes políticos, jornalistas e membros da realeza. Ex-agentes do grupo de elite das Forças de Defesa de Israel (IDF), a Unidade 8200, lançaram o Pegasus, um software que atacou os dispositivos de chefes de Estado, proporcionando ao governo israelense conhecimento detalhado das atividades tanto de seus inimigos quanto de seus aliados. Entre as vítimas conhecidas estão o presidente Emmanuel Macron, da França, o primeiro-ministro Imran Khan, do Paquistão, e o presidente iraquiano Barham Salih.

Governos autoritários em todo o mundo usaram o Pegasus para reprimir seus inimigos. O primeiro-ministro indiano Narendra Modi utilizou o software para desenterrar podres sobre seus oponentes pessoais. Enquanto isso, o governo da Arábia Saudita teve como alvo do programa o jornalista do Washington Post Jamal Khashoggi, antes de desmembrá-lo com uma serra.

Agentes das Forças de Defesa de Israel (IDF) também espionam a população árabe palestina, lendo suas mensagens de texto e ouvindo suas ligações com fins de chantagem e extorsão. Se descobrissem que um alvo era homossexual ou traía o cônjuge, essa informação seria usada contra ele. Um denunciante das IDF revelou que, como parte de seu treinamento, eles eram obrigados a memorizar diferentes palavras em árabe para “gay”, a fim de poderem identificá-las em conversas.

A própria Hollywood, porém, tem sido um bastião de apoio a Israel. Uma investigação da MintPress News, baseada em e-mails vazados e publicados pelo Wikileaks, descobriu que grandes produtores de cinema coordenavam com autoridades do governo e das forças armadas israelenses a melhor forma de promover o país nos Estados Unidos e como eliminar vozes pró-palestinas dentro da indústria.

Portanto, não deveria ser surpresa que muitos em Hollywood não vejam grande problema em contratar ex-agentes israelenses para prestar serviços de segurança. Talvez mais surpreendente, no entanto, seja a quantidade de ex-agentes secretos de um país estrangeiro que os Estados Unidos permitem que vivam e operem dentro de suas próprias fronteiras.

Se fosse qualquer outro país, isso seria, sem dúvida, considerado um enorme risco à segurança. Considerando, porém, a rapidez com que os Estados Unidos e Israel estão começando a se fundir – a Câmara dos Deputados acaba de aprovar um projeto de lei de 1,5 trilhão de dólares que integra as forças armadas dos dois países –, é provável que vejamos mais situações semelhantes no futuro.

O fato de celebridades não enxergarem o risco de confiar sua segurança mais íntima a estrangeiros de agências notórias por vigilância secreta e extorsão de alvos de alto valor é profundamente preocupante. Taylor Swift e Kim Kardashian: que sirva de aviso.

Mintpress News O MintPress News é uma organização jornalística independente que monitora notícias e fornece reportagens originais

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