Pesquisar
, ,

Quando eu morrer

Com o assassinato de Marielle Franco, uma trupe de criaturas amorfas, que só conseguem se indignar por meio do espetáculo, tem surgido para "prestar homenagens" que apagam a razão fundamental de seu assassinato e sua razão de vida: sua luta.

por Pedro Marin | Revista Opera
(Foto: Mídia Ninja)

Fred Hampton, líder do Partido dos Panteras Negras em Illinois, fez um discurso em 1968, no qual dizia: “Se você pensa em mim e você não está disposto ao ato revolucionário, esqueça de mim. Eu não quero estar na sua mente se você não for trabalhar pelo povo. […] Eu não acredito que eu tenha nascido para morrer em um acidente de carro. Eu não acredito que eu vá morrer escorregando em um cubo de gelo. Eu não acredito que eu vá morrer por um infarto, não acredito que eu vá morrer por câncer no pulmão. Eu acredito que eu serei capaz de morrer fazendo as coisas para as quais eu nasci. Eu acredito que eu vá morrer pelo povo, acredito que vá morrer como um revolucionário na luta proletária revolucionária internacional. […] Por que você não vive pelo povo? Por que você não luta pelo povo? Por que você não morre pelo povo?”

Um ano depois, Fred Hampton seria assassinado enquanto dormia ao lado de sua mulher, aos 21 anos de idade. Mais de 90 tiros foram disparados pela polícia no apartamento em que descansava, dos quais dois foram disparados contra a sua cabeça, a queima-roupa.

1969. Policiais sorriem ao carregar o corpo morto de Fred Hampton. (Associated Press)

Ontem, a vereadora pelo PSOL do Rio de Janeiro, Marielle Franco, foi morta com quatro tiros de 9mm na cabeça. Tudo cheira a execução. Marielle, como Hampton, sabia que sua atuação poderia levá-la à morte. Ainda assim, partiu à ação. Com seu assassinato, uma trupe de criaturas amorfas, que só conseguem se indignar por meio do espetáculo, tem surgido para “prestar homenagens” que apagam a razão fundamental de seu assassinato e sua razão de vida: a luta.

“Se você pensa em mim e você não está disposto ao ato revolucionário, esqueça de mim. Eu não quero estar na sua mente se você não for trabalhar pelo povo”, disse Hampton. Em outras palavras, a única forma de honrar Marielle é sendo tão ou mais dura do que ela foi.

Continue lendo

Tela principal do app de IA Replika (Foto: Reprodução / Replika AI)
Minha namorada é uma IA, e ela me deixou
Os presidentes dos EUA, Donald Trump, e Ucrânia, Volodymyr Zelenskyy, durante a Cúpula da OTAN em Ankara, na Turquia. (Foto: Daniel Torok / White House)
A abstração da guerra: Ucrânia e o apagamento da classe trabalhadora
Manifestação do "movimento das baratas" em 19 de julho de 2026. (Foto: Pelph Hots)
“Movimento das Baratas”: a geração na Índia que se recusa a se ajoelhar

Leia também

Quando transformamos livros em uma espécie de forragem ou combustível para as máquinas, evaporamos universos inteiros. (Imagem: Estúdio Gauche)
Bibliocídio: como as big techs queimam livros
Membros da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) – lefebvrianos – durante missa na Igreja de St. Jude, na Filadélfia. (Foto: jcapaldi / Flickr)
O primeiro racha na Igreja sob Leão XIV
Marx abordou o capitalismo do ponto de vista do trabalho assalariado; Weber, do ponto de vista dos proprietários do capital. (Imagem: Estúdio Gauche)
Marx e Weber: ângulos de visão
Pouco conhecida em comparação com as principais empresas do Big Tech (Google, Amazon, Meta, Apple), a Palantir Technologies é uma veterana no Vale do Silício. A pedra fundamental da empresa foi lançada pela agência de inteligência americana CIA por meio de seu fundo de investimento In-Q-Tel. (Imagem: Adrián Astorgano / El Salto)
Palantir: a empresa mais perigosa do mundo
18.12.2025 - Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante cerimônia de apresentação dos oficiais-generais promovidos. Clube do Exército – Sede Lago. Brasília (DF) - Brasil. (Foto: Ricardo Stuckert / PR)
Defesa nacional: a falsa solução dos gastos militares
Retrato de Muammar Gaddafi pintado em Lyon, na França. (Foto: Thierry Ehrmann / Flickr)
A Líbia pós-Gaddafi, 15 anos depois
São Paulo (SP), 11/09/2024 - 27ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo no Anhembi. (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)
Ser pobre e leitor no Brasil: um manual prático para o livro barato
Cristãos ortodoxos durante procissão de Domingo de Ramos em Gaza. 13/04/2014. (Foto: Joe Catron / Flickr)
“Morte aos cristãos”: a crescente violência anticristã em Israel