O mês de maio começou com o endurecimento da política de Trump em relação a Cuba. No mesmo dia em que o governo norte-americano anunciou a aprovação de uma nova ordem executiva destinada a impor sanções a funcionários da ilha “responsáveis pela repressão e por ameaças à segurança nacional dos Estados Unidos”, o presidente, em um jantar na Flórida, declarou sua vontade de “assumir o controle da ilha quase imediatamente”. Em sintonia com a linha política vigente desde janeiro, o trumpismo voltou a mostrar as garras.
No primeiro trimestre do ano, as tensões entre Washington e Havana não pararam de aumentar. Após a operação cirúrgica que culminou no sequestro de Nicolás Maduro, a Casa Branca multiplicou suas ameaças ao governo cubano, ao mesmo tempo em que impôs um bloqueio petrolífero que levou à semiparalisação da economia da ilha. A partir de então, as declarações ameaçadoras de Trump e sua equipe — especialmente as do secretário de Estado Marco Rubio — têm se alternado com informações vazadas sobre encontros mantidos entre autoridades governamentais das duas nações em conflito.
Neste momento, está em debate se as ameaças de uma ação militar contra a ilha se concretizarão. As variáveis em jogo são muitas, num arco que inclui a dinâmica geopolítica global e as manobras que, no âmbito doméstico, se articulam no interior dos Estados Unidos. A incerteza está sobre a mesa, embora, narrativamente, a justificativa para agredir a ilha já esteja servida.
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A deriva violenta do trumpismo é uma questão a ser levada em conta. As palavras agressivas dirigidas à Venezuela e ao Irã se concretizaram e aí estão os resultados, desde o dano ao exercício da soberania por parte de Caracas até a destruição que as bombas causaram à nação persa. Convém, portanto, não subestimar Trump e sua retórica incendiária, ainda mais em um contexto em que seu fracasso contra Teerã poderia incentivar o interesse em buscar uma vitória fácil no Caribe. No entanto, há variáveis que permitem identificar o ataque a Cuba como um cenário repleto de conflitos que podem tirar o sono do inquilino da Casa Branca.
Em primeiro lugar, não está nada claro se uma operação como a realizada na Venezuela funcionaria na ilha, não apenas pelo desaparecimento do fator surpresa, mas também pela comprovada capacidade de resistência das tropas cubanas, o que ficou evidente no combate travado na madrugada de 3 de janeiro. Se um confronto violento se concretizou em solo sul-americano — num cenário em que, de forma suspeita, o sistema defensivo que deveria proteger Caracas falhou —, é de se imaginar que, em solo cubano, a luta não seria tão fácil assim. Por sua vez, surge a questão de que tipo de sequestro ou decapitação poderia colocar a liderança antilhana em um estado de terror e paralisia que a levasse a aceitar, sem questionar, os ditames do Sr. Trump.
Como segundo aspecto, surge a realidade já palpável no Irã. A ofensiva aérea tem sérias limitações quando se trata de provocar uma mudança de regime. Muitas bombas podem cair — com todo o rastro de destruição e sangue que tal procedimento implica — sem que isso leve à rendição incondicional do adversário. Em consonância com tais circunstâncias, surge como opção o lançamento de uma operação militar que implique o desembarque em grande escala de tropas em Cuba; decisão que, se tomada, obriga a arcar com todos os riscos que ela acarreta, em primeiro lugar a possibilidade de uma resistência séria na ilha com base nos princípios da guerra irregular, núcleo básico da doutrina de defesa cubana desde os anos de tensão com o governo Reagan na década de 80 do século passado. Tanto o bombardeio quanto a invasão implicariam, além disso, a responsabilidade dos Estados Unidos pela reconstrução do país, questão certamente pouco simpática para o contribuinte norte-americano. A isso somam-se as complicações decorrentes de um potencial êxodo migratório de cubanos para os Estados Unidos, tendo em conta a proximidade geográfica. As crises de Mariel e dos balseros são antecedentes importantes a serem levados em conta.
Os conflitos apontados poderiam levar Trump a continuar sua política de pressão máxima sobre a ilha por meio do estrangulamento econômico. O bloqueio intensificado pode, em algum momento, atingir o objetivo almejado de provocar uma revolta em massa em Cuba que cause a implosão do sistema. Por outro lado, existe a possibilidade de se articular um esquema de negociação que permita a redução das tensões e talvez o estabelecimento de um modus vivendi duradouro entre Washington e Havana, propósito esse que, até o momento, é sabotado pelo próprio governo norte-americano, que não apenas quebra a confiança da parte cubana com seu discurso agressivo e os vazamentos recorrentes para a imprensa, mas também com a apresentação de exigências prejudiciais à soberania da ilha, muito difíceis de aceitar para um governo que construiu parte de sua legitimidade na defesa de uma posição de princípios diante das ameaças históricas do poderoso vizinho imperial.
No âmbito da interação bilateral entre Cuba e os Estados Unidos, intervêm outras duas variáveis de peso. De um lado, manifesta-se a fratura do consenso político no interior da ilha, derivada da prolongada crise econômica, seu agravamento no último sexênio, o impacto no cotidiano dos cubanos de situações como os extensos cortes de energia elétrica e as falhas do governo, não apenas em reformar a economia, mas também em criar espaços de participação que deem voz a uma sociedade cada vez mais plural. Paralelamente, a emigração — especialmente a concentrada no sul da Flórida — continua liderada por um setor extremista constituído em lobby que pressiona contra qualquer abertura com Havana que não se expresse por meio da chamada “mudança de regime”. Por sua vez, dentro do exílio parece ter começado a corrida pela presidência do país que surgiria após o colapso do sistema.
Cuba vive dias muito difíceis como resultado da agressão trumpista e do acúmulo de problemas internos que não conseguiram ser resolvidos dentro dos marcos sistêmicos. As pessoas comuns sofrem em seu cotidiano o impacto das sanções de Washington e o estado precário das políticas de bem-estar social gestadas pela Revolução. No âmbito de um sistema que se mostrou incapaz de mudar na medida necessária, tanto no plano econômico quanto no político, o desânimo e o tédio dos cidadãos alimentam a polarização política, aquela que permite compreender que, na mesma Havana, coexistam uma pessoa que — exercendo plenamente sua vontade — decidiu participar dos atos oficiais convocados pelo governo para celebrar o 1º de Maio e outra que, em algum canto da cidade, espera que “São Donald” realize o milagre de um país melhor, mesmo que isso implique na queda de bombas sobre a terra que a viu nascer.





































