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Religião e poder: uso da fé para oprimir

A religião é uma “preocupação última”, que tanto pode ser capturada pelo poder quanto transformada em horizonte de libertação

Frei Betto
O uso da religião como fator de opressão política é um fenômeno recorrente e persistente. Ao conferir legitimidade transcendente à ordem social, ao mobilizar sentimentos de culpa, obediência e sacralidade, a religião fornece recursos simbólicos poderosos para a manutenção de regimes autoritários e desigualdades estruturais. (Foto: Marko Milivojevic / Pixnio)
O uso da religião como fator de opressão política é um fenômeno recorrente e persistente. Ao conferir legitimidade transcendente à ordem social, ao mobilizar sentimentos de culpa, obediência e sacralidade, a religião fornece recursos simbólicos poderosos para a manutenção de regimes autoritários e desigualdades estruturais. (Foto: Marko Milivojevic / Pixnio)

A relação entre religião e política atravessa a história da humanidade. Revela-se, em muitos momentos, como mecanismo para legitimar a dominação. Se, por um lado, a religião desempenhou papéis de coesão social, resistência cultural e inspiração ética, por outro também foi instrumentalizada como ferramenta de opressão e sustentou regimes autoritários, como as ditaduras de Franco e Salazar em Espanha e Portugal, e justificou desigualdades. 

A análise desse fenômeno exige compreender tanto as estruturas simbólicas que a fé mobiliza quanto os interesses materiais e de poder que a instrumentalizam.

Max Weber já advertia que a religião, ao conferir sentido transcendente à vida, torna-se elemento poderoso de legitimação do poder. Em sua análise sobre a ética protestante, Weber demonstrou como determinadas crenças podem moldar comportamentos econômicos e políticos, justificando formas específicas de dominação. A ideia de que a autoridade é “querida por Deus” cria uma barreira simbólica contra a contestação e transforma a obediência em virtude espiritual. É o que Trump tanto almeja.

Marx reconheceu que a religião pode ter caráter libertador, mas também funcionar como “o ópio do povo” ao transferir da Terra para o Céu a promessa de libertação e exercer, neste mundo, função social de apaziguamento das tensões, ao oferecer consolo em vez de atitude transformadora.

Para Marx, a religião mascara a realidade das desigualdades materiais e reforça a aceitação da exploração, mantendo a ordem vigente. No entanto, ele reconhece que a religião tem dimensão libertadora por ser “o suspiro da criatura oprimida e o coração de um mundo sem coração”. 

 Leia também – Teologia vermelha: sobre a tradição cristã comunista 

A história mostra inúmeros exemplos da instrumentalização da religião para justificar práticas de poder e opressão, como foi o caso dos religiosos do Templo de Jerusalém que condenaram Jesus à pena de morte. Durante a Idade Média, a Igreja Católica consolidou-se como instância central de legitimação da autoridade monárquica, na lógica do “direito divino dos reis”. O juramento religioso de fidelidade ao soberano reforçava não apenas a ordem política, mas também uma hierarquia social vista como natural e imutável.

Michel Foucault observa que o poder não opera apenas por coerção, mas também pela produção de discursos que naturalizam a obediência. A religião, nesse sentido, constitui um dos mais eficazes dispositivos de poder, pois age no nível do corpo e da alma, da disciplina e da subjetividade. O pecado e a culpa tornam-se ferramentas políticas de sujeição.

Na colonização das Américas, a evangelização foi usada como instrumento de dominação cultural e política. Enrique Dussel descreve como a imposição da fé cristã sobre povos indígenas e africanos serviu de justificativa ideológica para a escravidão e o etnocídio. A promessa de salvação espiritual, combinada com a violência material, consolidou uma ordem colonial que ainda deixa marcas profundas em nosso continente.

No mundo atual, a relação entre religião e política não desapareceu. Ao contrário, observa-se em diversos países a ascensão de discursos políticos de caráter religioso, frequentemente articulados a projetos autoritários, como fazia Bolsonaro e faz Trump. A retórica da defesa da “tradição”, da “família”, dos “valores cristãos” serve como mecanismo de exclusão e perseguição de opositores e minorias.

José Casanova afirma que, longe de desaparecer com a modernidade, as religiões retornaram ao espaço público, muitas vezes disputando hegemonia moral e legitimidade política. Em diversas circunstâncias esse retorno sustenta políticas conservadoras, reforça hierarquias de gênero e marginaliza grupos dissidentes.

A associação entre religião e nacionalismo constitui outro terreno fértil para a opressão política. Benedict Anderson lembra que as comunidades nacionais são “imaginadas”, e a religião frequentemente participa dessa imaginação ao fornecer símbolos e narrativas de unidade. Entretanto, essa mesma unidade pode se converter em exclusão violenta contra aqueles que não compartilham da fé predominante, como acontece em Israel e em alguns países muçulmanos.

É necessário reconhecer, contudo, que a religião não é apenas instrumento de opressão. Em muitos contextos, tradições religiosas foram mobilizadas como força de resistência. A teologia da libertação na América Latina, como destaca Leonardo Boff, colocou a fé a serviço da emancipação dos pobres, ao enfrentar ditaduras e denunciar injustiças.

Essa ambiguidade revela a complexidade do fenômeno religioso, pois o mesmo discurso que pode legitimar a dominação também pode fundamentar a crítica social e a luta por justiça. Como ressalta Paul Tillich, a religião é uma “preocupação última”, que tanto pode ser capturada pelo poder quanto transformada em horizonte de libertação.

O uso da religião como fator de opressão política é um fenômeno recorrente e persistente. Ao conferir legitimidade transcendente à ordem social, ao mobilizar sentimentos de culpa, obediência e sacralidade, a religião fornece recursos simbólicos poderosos para a manutenção de regimes autoritários e desigualdades estruturais.

No entanto, como mostram as experiências históricas de resistência, também pode ser espaço de crítica e emancipação. O desafio contemporâneo, portanto, não é simplesmente separar religião e política, mas compreender criticamente como os discursos religiosos são apropriados, quem se beneficia deles e quais projetos de sociedade sustentam.

(*) Frei Betto é escritor, autor de “Fidel e a Religião” (Companhia das Letras), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

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