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50 anos após o golpe no Chile, o primeiro ano da Unidade Popular

50 anos após o golpe militar no Chile, um funcionário do governo Allende rememora as políticas da Unidade Popular para a habitação no primeiro ano de governo.

50 anos após o golpe militar no Chile, um funcionário do governo Allende rememora as políticas da Unidade Popular para a habitação no primeiro ano de governo. Por Taroa Zúñiga Silva | Globetrotter – Tradução de Pedro Marin para a Revista Opera
O arquiteto Miguel Lawner, funcionário no governo chileno da Unidade Popular, mostrando maquete do projeto de habitação da Villa San Luis, em 1973. (Foto: Cortesia de Miguel Lawner)

Dez dias após o golpe de 1973 contra o governo chileno da Unidade Popular (UP) do presidente Salvador Allende, os militares abriram o campo de concentração Río Chico, na Ilha Dawson, localizada no Estreito de Magalhães, próximo da ponta sul do Chile. A ilha havia servido como um campo de extermínio por uma ordem católica entre 1891 e 1911 para confinar os povos Selk’nam e Kawésqar, que lá morriam devido à superlotação, doenças e frio.

O regime golpista enviou 38 oficiais do governo da UP para a base naval da Companhia de Engenheiros do Corpo de Infantaria Marina (COMPINGIM) e, de lá, para o campo de Río Chico. O regime também enviou centenas de presos políticos para Punta Arenas, perto da Ilha Dawson. Os oficiais foram interrogados, torturados e forçados a trabalhar na infraestrutura da ilha. O campo de Río Chico foi desmantelado em 1974.

Um dos prisioneiros no campo era Miguel Lawner, um arquiteto que chefiava a Corporação de Melhoramentos Urbanos (CORMU) do governo. Durante sua prisão, Lawner costumava caminhar ao redor da prisão para calcular o tamanho de seu quarto, dos prédios do campo e do próprio campo. Ele chegou a desenhar a planta do campo, mas a destruiu por medo de que os guardas a descobrissem. Quando esteve em exílio na Dinamarca, em 1976, Lawner redesenhou a planta de memória. “A função cria o órgão”, diz ele. “Eu desenvolvi um órgão: o desenho, capaz de cumprir a função de deixar testemunho do nosso cativeiro”.

Durante seu tempo preso, Lawner me disse que temia que os militares o acusassem de corrupção por sua chefia da CORMU. “Eu tentava calcular quantos milhões de dólares tinham sido [gastos] em meu nome”, ele relembrou. “Calculei que tinha de ser algo entre 150 e 180 milhões de dólares. Depois, descobri que os militares gastaram seis meses me investigando e chegaram à conclusão de que, na realidade, me deviam uma diária!”

O governo chileno da Unidade Popular (1970-1973) tinha a perspectiva de usar os ministérios de Moradia e Obras Públicas como motores da economia, como “as duas instituições mais fáceis de mobilizar”, Lawner disse. Outras áreas, como industrialização, “requeriam estudos prévios mais prolongados”. “No caso da moradia”, me disse Lawner, “se você tem um terreno vazio, no dia seguinte já pode estar construindo”. Além disso, havia uma enorme demanda por moradias. A administração da CORMU decidiu acelerar os procedimentos burocráticos e autorizar a liberação imediata de recursos por meio de um dos funcionários, que era Lawner. “Nosso primeiro ano de governo foi um ano de irresponsabilidade maravilhosa”, Lawner me disse com um sorriso no rosto.

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Nunca se desvie dos fundamentos

Durante a campanha à presidência de 1970, Lawner acompanhou Allende a um acampamento às margens do rio Mapocho, onde o povo vivia “fora dos muros da sociedade”. Quando deixavam o acampamento, Allende disse para Lawner: “mesmo que as coisas corram mal para nós, vale tirar esses camaradas da lama – para isso, seria bom que eles me elegessem presidente.” Em um ano no governo, Lawner disse, “nós entregamos as primeiras casas da Villa San Luis. Em abril de 1972, tínhamos este projeto totalmente entregue: mil casas, a grande maioria das quais correspondiam a dois acampamentos, El encanto e El ejemplo, que ficavam às margens do rio Mapocho.” A principal tarefa do governo da UP, disse ele, era “resolver as demandas fundamentais dos setores que sempre foram despossuídos”.

O presidente do Chile, Salvador Allende, junto a funcionários liderados pelo arquiteto Miguel Lawner. (Foto: Cortesia de Miguel Lawner)

Sob a liderança de Lawner, os funcionários da CORMU – nem todos membros do projeto da UP – adiaram suas férias e trabalharam sem pagamento por horas extras. “Demos a todos esses funcionários a convicção de que estavam operando em benefício do bem comum e não, obviamente, para o enriquecimento de uma empresa privada ou dos bancos. Em outras palavras, eles sabiam que estavam trabalhando para que as pessoas vivessem melhor.” Além disso, disse, foi imposta a meta de “tornar as coisas bonitas”, sob o argumento de de “na habitação social a beleza não tem de ser um direito inato apenas dos ricos”.

A explosão do campo

Lawner relembrou seu grande orgulho pela nacionalização do cobre pelo governo de UP, sua entrega de casas e seu papel na “explosão do mundo agrário.” A reforma agrária e a lei de sindicalização camponesa foram aprovadas em 1962, antes do governo da UP. No entanto, os trabalhadores agrários “continuaram a existir como servos dos tempos feudais”, observou Lawner. Uma semana depois de assumir a presidência, Allende foi convidado pelos camponeses da região de Araucanía para uma reunião para a qual trouxe seu ministro da agricultura, Jacques Chonchol. Quando um líder indígena falou, Allende se inclinou para Chonchol e disse: “Ouça, ministro, acho que você deveria ficar aqui”. O ministro, que “tinha que mandar buscar até a escova de dente”, lá permaneceu três meses, iniciando seu mandato instalado no interior. Meio milhão de hectares foram cedidos aos sem-terra no primeiro ano de governo.

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O primeiro ano da UP, lembrou Lawner, foi um “ano de aspirações desenfreadas”. “Para uma pessoa como eu, que nunca foi funcionário público, a sensação de poder é infinita, e a convicção de que você é capaz de fazer qualquer coisa é igualmente infinita… prometemos mais do que podíamos fazer [tendo feito três ou quatro vezes mais do que já havia sido feito na história do Ministério da Habitação], mas tudo o que podíamos fazer foi feito por causa do que hoje falta: o empenho dos funcionários. Tem que ter uma boa liderança, é verdade, mas se não tiver o comprometimento da base, não tem o que fazer”.

Gerações contaminadas pelo modelo

Ao falar sobre as diferenças entre as experiências do final do primeiro ano da UP e do primeiro ano do governo progressista do atual presidente do Chile, Gabriel Boric, Lawner destacou que, no Chile, “há 50 anos nos enfiam goela abaixo a doutrina neoliberal, de uma formação contraditória ao que se exige em um governo progressista. Imperceptivelmente, formaram-se gerações que estão, a meu ver, corrompidas pelo modelo. Qualquer outra forma é incompreensível para eles.”

O atual presidente do Senado do Chile é Juan Antonio Coloma, um homem de extrema direita. “Quando o 50º aniversário do golpe chegar em setembro”, Lawner me disse, “Coloma será a segunda autoridade política mais importante do país.” A ascensão do fascismo, disse ele, é um fenômeno global, não ocorrendo apenas no Chile. Mas Lawner não se desespera. “Você não pode determinar quando haverá uma faísca que acenderá o fogo novamente, mas não há dúvida de que isso vai acontecer.”

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