Onze dias após o início da Operação Epic Fury, Washington se enfrenta com um problema que criou para si mesmo: como sair de uma guerra que não pode vencer.
Os assessores de Trump estão, discretamente, pressionando-o a encontrar uma saída. O famoso jornal Wall Street Journal noticiou, em 9 de março, que autoridades próximas ao presidente estão incentivando-o a declarar sucesso no Irã e iniciar uma retirada controlada antes que os custos econômicos e políticos aumentem ainda mais.
A aprovação do trabalho de Trump está agora em menos 10 pontos, de acordo com uma nova pesquisa do The Hill – e essa pesquisa foi realizada antes que o impacto total dos aumentos nos preços da energia fosse sentido pelos eleitores.
O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, disse em 10 de março que seu país estava preparado para continuar lutando pelo tempo que fosse necessário. As negociações com Washington, disse ele, não estavam mais na mesa.
O problema, falando francamente, é o seguinte: o governo que iniciou esta guerra precisa de uma saída. E o país que atacou não está oferecendo uma.
A guerra para mudar o regime que não mudou o regime
Trump apresentou a guerra como uma chance de derrubar o governo do Irã desde o início. Em um discurso transmitido logo após os ataques de 28 de fevereiro, ele exortou os manifestantes a tomarem o poder, dizendo-lhes que “a hora da liberdade está próxima” e que, assim que os bombardeios terminassem, eles deveriam assumir o controle do Estado.
Os manifestantes a que ele se referia incluíam figuras da oposição monarquista, como Reza Pahlavi, filho do último xá do Irã, que vinha pedindo a queda da República Islâmica e buscando o apoio ocidental.
Trump repetiu o pedido dias depois. Em uma entrevista concedida em 5 de março à Axios, ele declarou que Mojtaba Khamenei – filho do falecido líder supremo – era “inaceitável” como sucessor e disse que deveria se envolver pessoalmente na escolha do próximo líder do Irã.
O primeiro passo da guerra apontou na mesma direção. A CIA passou meses rastreando o líder supremo Ali Khamenei antes do ataque que o assassinou em 28 de fevereiro, juntamente com vários outros altos funcionários.
A Assembleia de Especialistas do Irã nomeou Mojtaba Khamenei de qualquer maneira, alterando a Constituição para permitir sua nomeação.
A saída exige que Trump declare vitória. A guerra para mudar o regime não mudou o regime. Esses dois fatos são incompatíveis.
Um comando fragmentado
O sinal mais claro de incoerência estratégica não é o que Trump diz em público – é o atrito visível dentro do aparato estatal dos EUA.
Em 6 de março, poucas horas depois de Trump declarar aos repórteres que a campanha terminaria “em breve”, uma conta de mídia social administrada pelo Pentágono publicou um gráfico assustador de um lançamento de míssil sob as palavras “sem piedade”, com a legenda: “Ainda estamos começando a lutar”.
Não se tratou de uma simples falha de comunicação. Isso reflete uma divisão tática dentro de Washington. Enquanto o presidente busca uma saída política para estabilizar a economia doméstica e conter o choque nos preços de petróleo, as mensagens do Pentágono apontam na direção oposta, sinalizando que a campanha pode se expandir. Para eles, o assassinato da liderança do Irã não foi um “ataque cirúrgico” para forçar um acordo, mas o início de uma guerra regional de longo prazo para reafirmar o imperialismo dos EUA pela força.
A divisão surgiu depois que o plano inicial falhou. A estratégia de Washington era um ataque de decapitação: assassinar a liderança do Irã, paralisar suas forças de mísseis, manter o Estreito de Ormuz aberto e forçar um rápido colapso político.
Isso não aconteceu. O Irã continuou atacando bases americanas em toda a Ásia Ocidental. O transporte marítimo pelo estreito foi interrompido quase imediatamente. O petróleo subiu brevemente para 120 dólares o barril.
Só então Trump começou a insistir publicamente que a guerra terminaria “muito em breve” ou já estava “muito completa”. As declarações ajudaram a acalmar os mercados e sinalizar que o conflito não se tornaria uma interrupção prolongada do fluxo global de petróleo. As mensagens do Pentágono apontaram na direção oposta, enfatizando que as operações continuavam e que novos ataques ainda eram possíveis.
Essa contradição reflete a nova realidade dentro de Washington. A guerra em si não era o ponto de discórdia. A discussão começou somente depois que o plano para uma vitória rápida fracassou. Trump agora tenta restaurar a confiança de que o estreito pode reabrir e que o choque no preço do petróleo vai diminuir. A linha pública do Pentágono aponta na direção oposta: a guerra ainda está ativa e a escalada continua em jogo.
A ligação para Moscou
No dia 9 de março, Trump ligou para Vladimir Putin para discutir a guerra com o Irã. A ligação foi iniciada por Washington.
O comunicado do Kremlin disse que Putin apresentou propostas para uma “rápida solução política e diplomática”, com o objetivo de impedir que a guerra se espalhasse e suspender as sanções contra o Irã.
O fato de Washington agora estar consultando Moscou para uma saída diplomática é, por si só, uma medida de como a guerra tem se desenrolado. Washington lançou esta campanha com a expectativa de que uma força militar esmagadora suprimisse rapidamente as capacidades de mísseis do Irã e impedisse o Irã de fechar o Estreito de Ormuz. O Irã atacou mais de 27 bases em toda a Ásia Ocidental onde tropas americanas estão posicionadas. As bases americanas na região sofreram ataques contínuos e graves. A Embaixada dos EUA na Arábia Saudita foi abandonada.
O governo norte-americano disse ao público que o Irã estava ficando sem mísseis. O comandante aeroespacial do IRGC do Irã anunciou em 9 de março que, a partir de agora, o IRGC lançaria mísseis apenas com ogivas superiores a uma tonelada – e que a frequência, a escala e o alcance dos ataques também aumentariam.
O Irã também mudou sua ênfase nos alvos, disse um alto funcionário iraniano ao Drop Site News, reduzindo os ataques à maioria das bases americanas nos países árabes e expandindo as operações contra Israel. O funcionário disse que a liderança militar do Irã considera a primeira fase de sua campanha – degradar os sistemas de radar dos EUA e esgotar os estoques de interceptores – praticamente concluída.
A decepção de Omã
A recusa do Irã em negociar não existe no vácuo. É uma resposta direta a um ato calculado e enganoso.
No dia 27 de fevereiro – um dia antes do início dos ataques – os mediadores de Omã anunciaram um avanço diplomático. Autoridades americanas e iranianas, segundo foi noticiado, tinham chegado a um acordo provisório. Na manhã seguinte, aeronaves americanas e israelenses lançaram quase 900 ataques nas primeiras 12 horas da Operação Epic Fury.
Teerã não esqueceu a cronologia dos acontecimentos. O “avanço diplomático” foi anunciado enquanto os ataques já estavam sendo preparados. O Irã concluiu que Washington negociou de má-fé, usou o processo diplomático como cobertura e lançou uma guerra que já havia decidido travar. A declaração de Araghchi, em 10 de março, de que as negociações não estão mais na mesa é um reconhecimento de que, sob o imperialismo dos EUA, os tratados são meras pausas táticas em uma guerra permanente de agressão.
O petróleo e o relógio político
Antes dos ataques, o barril de petróleo Brent estava sendo negociado a cerca de 73 dólares.
Os mercados de petróleo entraram em pânico nos primeiros dias da guerra. O petróleo Brent subiu para 120 dólares o barril antes de recuar, depois que Trump afirmou que os combates terminariam “muito em breve”. Em 10 de março, o Brent havia caído para cerca de 90 dólares o barril.
Ainda há um aumento de 17 dólares. É o prêmio da guerra. Ele já está embutido nos custos de combustível, frete, alimentos e fertilizantes que os trabalhadores nos Estados Unidos e em todo o mundo estão absorvendo neste momento. O diesel subiu 22% desde o início da campanha. Os custos de transporte da Ásia para a Europa aumentaram cerca de 45%.
Os trabalhadores que abastecem seus tanques de gasolina não verão o petróleo a 90 dólares como uma conquista diplomática. Eles verão isso como um aumento de preço sem fim à vista. O Kuwait disse que pode interromper a produção de petróleo em poucos dias porque as rotas de exportação pelo Golfo estão interrompidas e os tanques de armazenamento estão cheios.
As instalações petrolíferas fechadas em condições de guerra não retomam seu trabalho rapidamente. Quanto mais tempo ficam fora de operação, mais tempo leva para reiniciar. Os preços mais altos do petróleo espalham o custo da guerra por toda a economia.
A saída que não existe
A reportagem do Wall Street Journal sobre as deliberações internas captura a armadilha com precisão. Alguns funcionários do governo Trump disseram que, enquanto o Irã continuasse atacando bases americanas e alvos regionais, os Estados Unidos não poderiam se retirar facilmente. O próprio Trump disse que estava preparado para continuar atacando o Irã se o país continuasse bloqueando o Estreito de Ormuz.
O Irã afirmou claramente que continuará bloqueando o estreito até que os ataques cessem. Os ataques não podem cessar até que o Irã pare de bloquear o estreito. Washington iniciou esta guerra com um plano em mente sobre como ela terminaria. Onze dias depois, esse plano não está funcionando.
Dentro do governo, a discussão agora é sobre como proceder. Funcionários do Pentágono e senadores que apoiaram a guerra estão pressionando por uma escalada. Trump tem interesses políticos em encerrá-la. O Irã não tem incentivo para ajudar nenhum dos lados.
Washington iniciou uma guerra para mudar o regime. Onze dias depois, o Irã tem um novo líder supremo e suas forças de mísseis estão aumentando em quantidade e frequência de ataques. A estratégia que deveria proporcionar uma vitória rápida resultou no oposto: uma guerra que Washington não conseguirá encerrar facilmente.
A guerra foi uma escolha de Washington. Mas, agora, é o Irã quem estabelece os termos para encerrá-la.
(*) Tradução de Raul Chiliani





































