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Fidel Castro entre a Guerra Fria e o não alinhamento

Mais do que um mero peão da Guerra Fria, Fidel aproveitou as fissuras do sistema internacional para elevar Cuba à posição de ator global desproporcional ao seu tamanho geográfico

Frei Betto
O então primeiro-ministro de Cuba e líder da Revolução Cubana, Fidel Castro, durante Assembleia Geral da ONU, em 1979, em Nova Iorque. (Foto: Bernard Gotfryd / Library of Congress)
O então primeiro-ministro de Cuba e líder da Revolução Cubana, Fidel Castro, durante Assembleia Geral da ONU, em 1979, em Nova Iorque. (Foto: Bernard Gotfryd / Library of Congress)

Neste ano de 2026, em que Fidel Castro completaria 100 anos, é importante lembrar que sua figura transcendeu as fronteiras de Cuba para se tornar um dos ícones determinantes da política internacional do século XX. Sua trajetória foi moldada por três eixos principais: relação de conflito permanente com os EUA, aliança estratégica com a União Soviética e atuação de liderança no Movimento dos Países Não Alinhados. E utilizou-os para garantir a sobrevivência da Revolução Cubana, projetar influência global e defender uma visão própria de soberania e anti-imperialismo.

A relação entre Fidel e os EUA definiu a política externa de Cuba e passou pela fase do confronto devido às nacionalizações das empresas estrangeiras (1959-1961). Foi o fator primordial que levou o país a se alinhar com o bloco soviético.

Após a vitória da Revolução, em 1959, as reformas implementadas por Cuba expropriaram terras e empresas de capital estadunidense e levaram a uma rápida deterioração das relações entre os dois países. Os EUA responderam com um plano para derrubar o regime cubano, que culminou na fracassada invasão da Baía dos Porcos, em 1961. Este episódio decisivo levou Fidel a declarar o caráter socialista da Revolução e a buscar abertamente o alinhamento com a União Soviética.

O ápice da tensão foi a crise dos mísseis (1962). Para deter novas invasões, Fidel aceitou a instalação de mísseis nucleares soviéticos em solo cubano. A descoberta pelos EUA causou uma crise que colocou o mundo à beira de uma guerra nuclear.

O bloqueio imposto a Cuba pela Casa Branca, na tentativa de sufocar a Revolução, caracteriza outra frente de batalha constante comandada por Fidel. Todos os anos a Assembleia Geral da ONU reitera sua condenação ao bloqueio, que perdura por mais de seis décadas como o pilar da relação bilateral, consolidando a resiliência cubana de resistência ao imperialismo ianque.

As relações conflituosas entre os dois países só conheceram um breve período de alívio a partir de 2014, quando o papa Francisco interveio junto aos governos de Barack Obama e Raúl Castro para o restabelecimento de relações diplomáticas e reabertura das embaixadas. Contudo, os governos Trump e Biden minaram as pontes de contato ao recrudescer o bloqueio, inclusive inserindo Cuba na lista dos países que supostamente promovem ações terroristas. 

A aliança com a União Soviética foi fundamental para a sobrevivência do regime cubano, embora marcada por conveniência estratégica, dependência e impasses. No início os soviéticos desconfiavam de Fidel, visto por alguns líderes comunistas como um “representante da alta burguesia”. A aproximação se deu de forma pragmática: após o fracasso da Baía dos Porcos, Fidel declarou o caráter socialista da Revolução Cubana e recebeu o apoio soviético, que via Cuba em posição geopolítica estratégica no quintal dos EUA. Em troca de açúcar, a URSS fornecia a Cuba petróleo, bens de consumo e apoio militar. 

A relação entre os dois países socialistas se aprofundou economicamente a partir dos anos 1970. Em 1972, Cuba ingressou no Conselho para Assistência Econômica Mútua (Comecon) e a Revolução conheceu seu melhor período de bem-estar do povo cubano. Porém, o colapso da União Soviética, em 1991, fez Cuba perder subitamente cerca de 85% do seu comércio exterior e entrar no severo “Período Especial”, uma crise econômica profunda. Fidel criticou veementemente as reformas de Mikhail Gorbachev (Perestroika e Glasnost), consideradas uma traição ao socialismo. A capacidade de sobrevivência do regime cubano após este choque testemunhou de novo a resiliência da Revolução.

Paralelamente à aproximação com os soviéticos, Fidel se destacou como liderança no Movimento dos Países Não Alinhados (MNA), fórum de países que buscavam não se alinhar formalmente a nenhum dos blocos da Guerra Fria. Para Cuba, o não-alinhamento nunca significou neutralidade passiva, e sim compromisso ativo com a luta anti-imperialista, anticolonial e pela soberania nacional.

Desde sua entrada no MNA em 1961, Cuba usou o fórum para denunciar a dominação dos EUA e apoiar movimentos de libertação na África e América Latina. O auge da liderança de Fidel ocorreu quando presidiu a 6ª Cúpula do MNA em Havana, em 1979. Tentou orientar o movimento para uma visão mais militante ao propor uma “aliança natural” com o bloco socialista. Este posicionamento gerou fortes divisões, especialmente com a Iugoslávia de Tito, que defendia certa equidistância.

Para muitos no Sul Global, Fidel permanece como um símbolo de desafio ao imperialismo ocidental, especialmente dos EUA. Seu apoio a movimentos de libertação em Angola, Namíbia e Nicarágua, internacionalismo nas áreas da saúde e da educação, e liderança na campanha internacional pelo cancelamento da dívida externa dos países periféricos conquistaram-lhe grande respeito. 

Seu maior feito geopolítico foi garantir a sobrevivência de um pequeno Estado socialista a apenas 150 km dos EUA, enfrentando bloqueio, invasão e inúmeras tentativas terroristas de desestabilização. Fidel soube utilizar a rivalidade das superpotências (URSS X EUA) e a solidariedade do Terceiro Mundo (MNA) como amortecedores.
Criou um paradigma de política externa baseado na soberania intransigente, no anti-imperialismo militante e no internacionalismo solidário. Mesmo após o fim da União Soviética manteve este discurso, criticando a expansão da OTAN e as intervenções ocidentais, como na Líbia em 2011.

Fidel foi um arquiteto geopolítico singular. A relação com os EUA foi o motor que definiu sua trajetória, conduzindo a Revolução Cubana para uma aliança estratégica com os soviéticos baseada no respeito mútuo. Ao mesmo tempo, exerceu papel de liderança no Movimento dos Não Alinhados ao propor uma agenda de soberania e oposição ao imperialismo.

Mais do que um mero peão da Guerra Fria, Fidel aproveitou as fissuras do sistema internacional para elevar Cuba à posição de ator global desproporcional ao seu tamanho geográfico. Assim deixou um legado que, seja como inspiração ou advertência, continua a reverberar nas relações internacionais do século XXI. 

Ao longo de sua vida, construiu a história de um líder que, ao desafiar uma superpotência vizinha às fronteiras de Cuba, tornou-se um expoente heroico e exemplar no tabuleiro mundial. Hoje, sua figura inconteste fortalece a resiliência do povo cubano frente às ameaças terroristas de Donald Trump.

(*) Frei Betto é escritor, autor de “Fidel e a Religião”, entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

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