Pesquisar
,

Na China, a IA não é desculpa para demitir trabalhadores

Na China, justiça condena empresa a indenizar trabalhador demitido após adoção de IA e estabelece decisão como modelo para casos similares

Gary Wilson
Trabalhadres de um fábrica em Zhuhai, na China. (Foto: Chris / Wikimedia Commons)
Trabalhadres de um fábrica em Zhuhai, na China. (Foto: Chris / Wikimedia Commons)

Na véspera do Dia Internacional dos Trabalhadores, um tribunal na China enviou uma mensagem clara aos patrões: a inteligência artificial não é um passe livre para demitir trabalhadores.

Em 30 de abril, o Tribunal Popular Intermediário de Hangzhou, na província de Zhejiang, ratificou uma decisão segundo a qual uma empresa de tecnologia de IA havia demitido ilegalmente um trabalhador chamado Zhou. Zhou estava empregado desde novembro de 2022 como supervisor de garantia de qualidade. Ele ganhava 25.000 yuans por mês (cerca de 19 mil reais).

Seu trabalho fazia parte da própria nascente indústria de IA. Ele cruzava consultas de usuários com grandes modelos de linguagem (large language models, a tecnologia por trás da maioria das IAs) e filtrava conteúdo ilegal ou que violasse a privacidade. Quando a empresa introduziu sistemas de IA capazes de realizar essas tarefas, não negociou uma transição adequada com o empregado. Não ofereceu reciclagem profissional. Ofereceu a ele outro cargo por 15.000 yuans (cerca de 11 mil reais) por mês — um corte salarial de 40%.

Quando Zhou recusou, a empresa o demitiu e alegou que a reestruturação impulsionada pela IA tornou a demissão necessária.

Zhou reagiu e venceu. A empresa recorreu e perdeu. O tribunal de Hangzhou ordenou que ela pagasse mais de 260.000 yuans (cerca de 200 mil reais) em indenização e elegeu o caso como decisão modelo para disputas semelhantes.

 Leia também – Dando de comer: como a China venceu a miséria e eleva o padrão de vida dos pobres 

A mensagem é simples: uma empresa não pode optar pela automação, embolsar a redução de custos e depois alegar que o trabalhador deve arcar com o ônus.

A Lei de Contratos de Trabalho da China restringe a demissão arbitrária. Ela permite a rescisão unilateral apenas sob condições muito restritas, incluindo uma “mudança significativa nas circunstâncias objetivas” que torne impossível o cumprimento do contrato original. O tribunal afirmou que a adoção voluntária da IA não atende a esse padrão. A automação não é uma força externa que atua sobre a empresa. É uma decisão de gestão tomada pela própria empresa.

Isso significa que o empregador ainda tem obrigações para com o trabalhador.

Essa é a parte que mais importa. Na China, as empresas que automatizam não podem simplesmente anunciar que a IA eliminou um emprego. Elas devem lidar com o trabalhador — por meio de consultas, negociações, treinamento, remanejamento razoável ou indenização legal — em vez de repassar o custo da tecnologia para o trabalhador.

E quando há um sindicato envolvido, o empregador não pode ignorá-lo. Para demissões em grande escala, as empresas devem explicar a situação ao sindicato ou a todos os trabalhadores com antecedência, solicitar opiniões e apresentar o plano de demissão às autoridades trabalhistas. Antes de uma rescisão unilateral, o empregador deve notificar o sindicato sobre os motivos. Se a empresa violar a lei ou o contrato, o sindicato tem o direito de exigir correção.

Isso não significa que toda disputa seja automaticamente vencida. Significa que a decisão do empregador de automatizar não é tratada como uma mera ordem privada. O trabalhador, e quando presente o sindicato, está dentro do processo. A tecnologia não elimina a negociação.

Isso é exatamente o que a empresa de Zhou tentou evitar. Ela tratou a IA como uma arma para forçar um corte salarial de 40%. Quando Zhou se recusou, foi demitido. Os tribunais disseram não.

O contraste com os Estados Unidos não poderia ser mais nítido.

Nos EUA, a regra geral no emprego do setor privado é a demissão sem justa causa. A maioria dos trabalhadores não tem sindicato, nem contrato individual, nem direito de negociar sobre a automação e nenhuma ação judicial quando a administração decide que uma máquina, um algoritmo ou um sistema de IA irá substituí-los.

A Lei de Notificação de Readequação e Reciclagem Profissional (WARN) exige aviso prévio antes de algumas demissões em massa, mas não impede as demissões. Ela não exige reciclagem profissional, remanejamento ou negociação. Ela não diz que a automação é uma decisão da empresa cujos custos não podem simplesmente ser repassados aos trabalhadores.

É por isso que as grandes empresas de tecnologia dos EUA puderam demitir quase 150 mil trabalhadores nos primeiros cinco meses de 2026, enquanto investem quase 700 bilhões de dólares em infraestrutura de IA. O dinheiro que antes pagava aos trabalhadores está sendo transformado em máquinas, centros de dados, chips e contratos de energia de propriedade das corporações. Os trabalhadores são descartados. O capital permanece.

Nenhum tribunal dos EUA considerou essas demissões ilegais porque a automação é uma escolha da administração, não uma necessidade externa. A legislação dos EUA não contém a proteção que a Lei de Contratos de Trabalho da China oferece.

A indústria de IA da China está se expandindo rapidamente. Os empregadores continuarão tentando usar a automação para cortar custos de mão de obra. Mas a automação não resolve a questão por si só. A empresa não é a única força no local de trabalho.

Essa é a verdadeira lição. A IA não apaga o trabalhador. Ela não apaga o contrato. Ela não apaga o sindicato. Uma empresa que deseja reorganizar o trabalho deve lidar com o trabalhador — e, quando o sindicato está envolvido, com o sindicato.

A disputa é sobre quem paga pela nova tecnologia. Os patrões querem os ganhos para si mesmos e os custos repassados aos trabalhadores. O caso de Zhou mostra que os trabalhadores não precisam aceitar isso como algo natural ou inevitável.

A IA não apaga a luta de classes. Ela dá aos patrões uma nova arma. A questão é se eles podem usá-la para cortar empregos e salários, ou se os trabalhadores e os sindicatos podem forçá-los a pagar pela tecnologia que escolhem.

Struggle-La Lucha

Continue lendo

Tela principal do app de IA Replika (Foto: Reprodução / Replika AI)
Minha namorada é uma IA, e ela me deixou
Imagem do relatório "A Predatory State", do Coletivo Feminista Palestino e da Internacional Progressista, que documenta a violência sexual de Israel contra palestinos desde 1948. (Imagem: Reprodução / A Predatory State)
Como Israel tem usado a violência sexual como arma do colonialismo de 1948 até hoje
Os presidentes dos EUA, Donald Trump, e Ucrânia, Volodymyr Zelenskyy, durante a Cúpula da OTAN em Ankara, na Turquia. (Foto: Daniel Torok / White House)
A abstração da guerra: Ucrânia e o apagamento da classe trabalhadora

Leia também

Quando transformamos livros em uma espécie de forragem ou combustível para as máquinas, evaporamos universos inteiros. (Imagem: Estúdio Gauche)
Bibliocídio: como as big techs queimam livros
Membros da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) – lefebvrianos – durante missa na Igreja de St. Jude, na Filadélfia. (Foto: jcapaldi / Flickr)
O primeiro racha na Igreja sob Leão XIV
Marx abordou o capitalismo do ponto de vista do trabalho assalariado; Weber, do ponto de vista dos proprietários do capital. (Imagem: Estúdio Gauche)
Marx e Weber: ângulos de visão
Pouco conhecida em comparação com as principais empresas do Big Tech (Google, Amazon, Meta, Apple), a Palantir Technologies é uma veterana no Vale do Silício. A pedra fundamental da empresa foi lançada pela agência de inteligência americana CIA por meio de seu fundo de investimento In-Q-Tel. (Imagem: Adrián Astorgano / El Salto)
Palantir: a empresa mais perigosa do mundo
18.12.2025 - Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante cerimônia de apresentação dos oficiais-generais promovidos. Clube do Exército – Sede Lago. Brasília (DF) - Brasil. (Foto: Ricardo Stuckert / PR)
Defesa nacional: a falsa solução dos gastos militares
Retrato de Muammar Gaddafi pintado em Lyon, na França. (Foto: Thierry Ehrmann / Flickr)
A Líbia pós-Gaddafi, 15 anos depois
São Paulo (SP), 11/09/2024 - 27ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo no Anhembi. (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)
Ser pobre e leitor no Brasil: um manual prático para o livro barato
Cristãos ortodoxos durante procissão de Domingo de Ramos em Gaza. 13/04/2014. (Foto: Joe Catron / Flickr)
“Morte aos cristãos”: a crescente violência anticristã em Israel