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Vietnã e a estratégia do bambu

Ascensão de Tô Lâm reabre debate sobre concentração de poder e futuro do modelo político no Vietnã

Daniel Kostzer
O então secretário-geral do Partido Comunista do Vietnã, e novo presidente do país, Tô Lâm. (Foto: Kremlin / Wikimedia Commons
O então secretário-geral do Partido Comunista do Vietnã, e novo presidente do país, Tô Lâm. (Foto: Kremlin / Wikimedia Commons

Em 7 de abril de 2026, a Assembleia Nacional do Vietnã elegeu por unanimidade Tô Lâm como Presidente do Estado para o mandato de 2026 a 2031. O fato poderia parecer apenas uma formalidade dentro de um sistema de partido único. Mas não é. Tô já era, desde 2024, Secretário-Geral do Partido Comunista do Vietnã, o cargo mais importante do sistema político vietnamita. A novidade é que agora sua figura reúne a liderança do Partido e a liderança formal do Estado.

Tô Lâm não vem da tradição econômica nem da diplomacia partidária clássica. É um general formado no aparato de segurança, ex-ministro da Segurança Pública, figura central da ofensiva anticorrupção e da reorganização administrativa do Estado. Sua ascensão não expressa apenas uma carreira pessoal. A pergunta que faremos neste artigo é se estamos diante de uma mutação do sistema de direção colegiada vietnamita. Um regime singular, historicamente apoiado no equilíbrio entre Partido, Estado, Assembleia, Frente Popular, Exército, províncias e organizações sociais.

O mito e o método

Desde a reunificação ocorrida há 50 anos, este país localizado no sudeste asiático organizou a sua condução política em torno de vários pilares: o Secretário-Geral do Partido, o Presidente do Estado, o Primeiro-Ministro e o Presidente da Assembleia Nacional. O Partido sempre foi o centro estratégico, mas a distribuição de cargos evitava que todo o poder recaísse permanentemente sobre uma única pessoa. Por isso, a questão não é apenas quem manda hoje no Vietnã. O mais interessante é entender como se organiza o comando em um país que derrotou a França em 1954, os Estados Unidos e o regime de Saigon em 1975, resistiu à invasão chinesa de 1979, atravessou a fome do pós-guerra, reformou sua economia sem abandonar o partido único e acabou se tornando um dos grandes conglomerados industriais da Ásia.

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O Vietnã desconcerta o novato porque não se encaixa confortavelmente em nenhuma categoria. Não é uma democracia liberal. Não é mais o socialismo de guerra que seus admiradores dos anos 70 imaginavam. Também não é simplesmente uma cópia da China. É um país que fez da organização política do povo uma forma de sobrevivência nacional. E talvez aí esteja a chave: o Vietnã não foi apenas uma revolução heróica que venceu uma guerra impossível. Foi uma revolução que aprendeu a governar enquanto lutava.

Para nós, que nos formamos politicamente nos anos 70, o Vietnã era uma presença cotidiana. Chegava pelos jornais, pelos noticiários, pelas fotos granuladas de camponeses armados ou carregando munições em bicicletas, pelas bombas de napalm destruindo aldeias, pelas fotos do massacre de My Lai, pelas imagens de helicópteros americanos fugindo, pelas canções, pelos cartazes e pelas discussões.

Em 30 de abril de 1975, a queda de Saigon condensou uma imagem que marcou uma geração: um povo pobre podia derrotar o império mais poderoso do planeta. Naquela época, eu militava na periferia do Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT) da Argentina e a experiência vietnamita era vista como uma escola política. Ficávamos impressionados com a capacidade do povo de organizar uma guerra longa, sustentá-la socialmente, dar-lhe condução política, construir legitimidade nacional e transformar a resistência em Estado. O Vietnã era mito, mas também método.

Visto da Argentina, aquele país parecia demonstrar que a revolução não podia se reduzir ao gesto heróico de um grupo armado. Exigia organização duradoura. Precisava de direção política. Enraizamento territorial. Instituições próprias antes de conquistar completamente o Estado. E precisava, acima de tudo, articular três dimensões: Exército, Frente e Partido. Essa era a singularidade vietnamita.

Exército, frente e partido

O Exército Popular do Vietnã não foi concebido como uma instituição militar profissional separada da sociedade. Sua legitimidade provinha de se apresentar como o povo em armas. O soldado não era um corpo estranho, mas a extensão do camponês, do trabalhador, da aldeia e da comunidade. O poder militar não repousava apenas na técnica, mas em uma relação territorial com a população. As aldeias forneciam informações, refúgio, logística, alimentos, quadros e legitimidade. A guerra não era apenas uma operação militar: era uma relação social organizada. Onde outros viam selva, arrozais ou túneis, havia uma estrutura política ramificada.

A figura de Võ Nguyên Giáp resume essa singularidade. Giáp não vinha de academias militares tradicionais. Era um quadro revolucionário que acabou construindo um dos exércitos mais eficazes do século XX. Dirigiu a ofensiva de Dien Bien Phu, entre março e maio de 1954, que selou a derrota colonial francesa na Indochina. Mas ele não agia como comandante autônomo. Seu comando estava integrado ao Partido e à estratégia nacional de Ho Chi Minh. O general Giáp também conduziu a guerra contra os ianques e a resistência à invasão chinesa. Em 2013, seu funeral reuniu centenas de milhares de pessoas que participaram do cortejo, muitas delas nascidas quando os feitos de Giáp já eram história.

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O segundo componente durante a guerra foi a Frente Nacional de Libertação. Não era uma fachada nem uma cobertura propagandística, mas um instrumento de unidade nacional. Permitia reunir os comunistas, juntamente com camponeses, trabalhadores, estudantes, intelectuais, setores religiosos, minorias nacionais e patriotas que enfrentavam o regime de Saigon e a intervenção norte-americana. A Frente desempenhava uma função decisiva: impedia que a revolução ficasse confinada a uma identidade partidária estreita. Transformava a luta em uma ampla causa nacional. Nas zonas libertadas, ela também administrava: organizava a justiça local, a segurança, a produção, a educação, a mobilização comunitária e formas básicas de governo. Onde o Estado de Saigon recuava, surgia uma autoridade alternativa.

O terceiro componente no processo de libertação era o Partido Comunista. Nem sempre foi o mais visível, mas constituía o núcleo decisivo. O Partido definia a estratégia, selecionava quadros, articulava a relação entre a luta militar e a política, garantia a disciplina e assegurava a continuidade. Nenhuma dessas dimensões funcionava plenamente sem as outras.

A influência dessa fórmula sobre o PRT foi profunda. No Vietnã, percebeu-se uma arquitetura possível. Por isso, criou-se a FAS, Frente Anti-imperialista pelo Socialismo, e concebeu-se uma tríade com o ERP, o Exército Revolucionário do Povo. Uma revolução precisava de partido, sim; precisava de força militar, também; mas precisava, acima de tudo, construir um povo organizado, legitimidade pública e representação social. A diferença, no entanto, era enorme. O Vietnã foi para nós uma escola e, ao mesmo tempo, um espelho impossível. Ensinava que não havia revolução sem organização; mas também mostrava que cada organização nasce de uma história concreta.

Da frente de guerra à oficina industrial

Após a vitória em 1975, o Vietnã se reunificou formalmente em 1976 e não viveu nenhum milagre econômico imediato. Pelo contrário, passou por mais de uma década de extrema pobreza, escassez de alimentos, isolamento internacional, inflação, destruição da infraestrutura e enormes dificuldades para integrar duas economias devastadas. O país era materialmente pobre. Muito pobre. No final dos anos 70, os organismos internacionais estimavam uma renda per capita baixíssima. Mas, ao mesmo tempo, apresentava indicadores sociais que não correspondiam a esse nível de renda: alta taxa de alfabetização, escolarização primária generalizada, aumento da expectativa de vida e queda da mortalidade infantil.

Essa aparente contradição diz muito. O Vietnã não era rico, mas tinha organização. Havia implantado uma estrutura política capaz de chegar até o último nível local. Por isso, a reconstrução não começou do zero. Apoiou-se em uma densa malha social que a própria guerra havia ajudado a formar.

A grande virada econômica ocorreu em 1986, com o Doi Moi, a política de renovação. O Vietnã abriu espaço para o mercado, permitiu maior iniciativa privada, atraiu investimento estrangeiro, reorganizou empresas estatais, impulsionou as exportações industriais e integrou-se progressivamente às cadeias globais de valor. Desde então, o país mudou de forma impressionante. Sua economia devastada transformou-se em uma plataforma industrial exportadora. Desenvolveu setores variados como têxtil, calçadista, eletrônico, montagem, agroindústria e manufaturas de alto dinamismo. Grandes multinacionais encontraram no Vietnã uma base de produção estratégica, especialmente no contexto da diversificação das cadeias fora da China.

Mas a reforma não significou uma retirada do Partido. O mercado se expandiu sob a direção de uma arquitetura política. O investimento estrangeiro cresceu, sempre sob condições definidas pelo Estado. A empresa privada ganhou espaço, sem deslocar o Partido como centro do sistema. Por isso, o Vietnã não se encaixa em rótulos: capitalismo de Estado? Socialismo de mercado? Comunismo com zonas capitalistas? Nacionalismo desenvolvista sob partido único? Todos dizem algo; nenhuma descrição é completa.

A comparação com a China surge imediatamente. O gigante asiático iniciou suas reformas antes, em 1978, sob Deng Xiaoping, em uma escala territorial, demográfica e geopolítica incomparável. Lá, permitiu-se que o mercado produzisse gigantescos campeões econômicos, que mais tarde o Partido procurou disciplinar ou subordinar. O Vietnã se assemelha à China na combinação de partido único, abertura econômica, planejamento estatal, investimento estrangeiro e controle político. Mas também se diferencia, pois o processo foi mais gradual, mais colegiado e mais condicionado por uma memória de guerra nacional. No Vietnã, foi o Partido que decidiu quais de seus quadros se tornariam atores centrais da economia, mas sempre sob o olhar atento da política. Essa é uma diferença decisiva. Tratava-se de processar internamente os conflitos antes de transformá-los em política pública. A abertura econômica não foi apresentada como uma ruptura ideológica, mas como uma forma de preservar a soberania e sustentar a legitimidade social do próprio sistema.

O discreto encanto da desilusão

Desculpem a autorreferência. Anos depois de ter conhecido o Vietnã como mito militante, tive a oportunidade de viajar como funcionário internacional a pedido de assistência técnica da Organização Internacional do Trabalho (OIT), onde trabalhava como especialista em questões salariais para a Ásia e o Pacífico. O tucumano que, aos 19 anos, comemorou nos corredores da faculdade a vitória vietnamita, nem mesmo em seus sonhos mais delirantes — que não foram poucos — teria imaginado caminhar pelos corredores do Ministério do Trabalho e ver hasteada a bandeira vermelha com a estrela amarela no centro. Era o ano de 2016 e eu havia sido convocado para ajudar a elaborar uma estratégia de gestão.

A primeira sensação foi um pouco estranha. Cheguei com minhas imagens de túneis, bicicletas, arrozais, Ho Chi Minh, Giáp, bombardeios e slogans, e me deparei com rodovias, fábricas, parques industriais, infinitas motos, cidades em transformação, cartazes da Frente da Pátria, hotéis novos, comércio intenso, gente sorridente e divertida, orgulho nacional e uma presença permanente do Estado-Partido na vida pública. Mesmo assim, a memória da guerra está em toda parte. O Vietnã surpreende porque nele coexistem diferentes temporalidades. Mas o país não vive preso ao passado glorioso. Até mesmo as pessoas comuns dizem que se reconciliaram com os ianques, mas sempre se lembram de que os derrotaram.

Uma nota: é muito interessante assistir ao documentário de Robert McNamara, The Fog of the War, onde o ex-ministro da Defesa norte-americano durante grande parte da guerra se mostra surpreso e confuso ao retornar ao Vietnã em 1995. McNamara vai a Hanói vinte anos depois com uma hipótese: ambos os lados poderiam ter alcançado seus objetivos sem a catastrófica perda de vidas. Nguyễn Cơ Thạch, seu homólogo durante o conflito bélico, rejeita essa premissa imediatamente: “Você estava totalmente errado. Nós lutamos pela nossa independência. Vocês lutavam para nos escravizar”.

A iconografia revolucionária coexiste com o investimento estrangeiro. Os slogans socialistas com as cadeias globais de abastecimento. A disciplina coletiva com o crescente consumo urbano. A velha austeridade revolucionária com uma economia acelerada e dinâmica. A gravidade do combate passado com uma alegria e um senso de humor que não são típicos do Sudeste Asiático.

Nas diferentes viagens que realizei a partir daquele momento, uma cena me pareceu especialmente reveladora. O Comitê Central do Partido Comunista aprovou uma reforma sobre a política salarial. Entre outros objetivos, propunha que o salário mínimo regional deveria ser “decente”, para garantir progressivamente um aumento do nível de vida dos trabalhadores e suas famílias. O notável foi que quem primeiro solicitou assistência técnica à OIT para discutir metodologias de estimativa desse “salário decente” não foram os sindicatos, mas a Câmara de Comércio e Indústria do Vietnã, a VCCI. “O Partido deu a ordem”, disse-me a Diretora de Relações Internacionais, hoje Secretária-Geral da Câmara.

Quando o Partido define uma orientação, as organizações econômicas e sociais começam a se preparar para cumpri-la antes mesmo que a discussão seja plenamente formalizada no Conselho Nacional de Salários ou na Assembleia Nacional. Os empresários não agiam por uma conversão espontânea ao igualitarismo. Eles agiam dentro de uma estrutura institucional em que a orientação do Partido organiza expectativas, comportamentos e margens de negociação, como parte de uma estratégia nacional de desenvolvimento. Existem contradições, desigualdades, tensões trabalhistas, exploração industrial, conflitos salariais e pressão competitiva, mas ocorrem dentro de uma matriz política específica. O Vietnã não abandonou a organização. Ele a deslocou para outro terreno.

Flexível na superfície, firme na raiz

A chegada de Tô Lâm deve ser lida nesse contexto. O Vietnã entra em uma etapa difícil. O modelo de crescimento baseado em mão de obra relativamente barata, investimento estrangeiro e exportações manufatureiras enfrenta limites tanto internos (demanda interna por progresso contínuo) quanto externos. O país precisa desenvolver tecnologia, aumentar a produtividade, melhorar os salários, sustentar a coesão social, controlar a corrupção, reduzir a burocracia e navegar por uma geopolítica cada vez mais perigosa. Está muito próximo da China para ignorá-la. Muito integrado ao comércio mundial para se desligar dos Estados Unidos. Muito dependente das cadeias globais para fechar sua economia. Muito orgulhoso de sua soberania para se tornar uma simples plataforma subordinada. É a famosa diplomacia do bambu: flexível na superfície, firme na raiz.

Mas a flexibilidade diplomática exige uma enorme capacidade interna de coordenação, o que constitui uma possível explicação para a concentração de poder. Tô Lâm parece expressar uma busca por eficácia decisória. Seu discurso insiste na reforma administrativa, na transformação digital, na inovação, em um novo modelo de crescimento, na luta contra a corrupção e em metas muito ambiciosas de expansão econômica. A concentração da liderança do Partido e do Estado pode ser interpretada como uma tentativa de acelerar as decisões em um momento de concorrência internacional feroz. A questão é o custo dessa ruptura do equilíbrio.

O Vietnã construiu boa parte de sua estabilidade sobre a liderança colegiada. Não porque fosse democrático no sentido liberal, mas porque o poder se exercia dentro de uma rede de contrapesos: Partido, Governo, Assembleia, províncias, Exército, segurança pública, empresas estatais, organizações sociais e Frente Patriótica. O processo que acaba de se iniciar pode facilitar reformas, disciplinar burocracias, acelerar investimentos, ordenar facções e melhorar os sinais de estabilidade para os capitais estrangeiros. Mas também pode reduzir a deliberação interna, aumentar o peso dos aparelhos de segurança e tornar o sistema mais dependente de uma figura individual.

O Vietnã se fortaleceu evitando que a revolução se reduzisse a um caudilho. Ho Chi Minh se erigiu como o fundador moral, mas não deixou uma dinastia pessoal. Giáp foi o grande estrategista militar, mas não governou como chefe supremo. Le Duan liderou a reunificação, mas sempre como peça-chave de uma estrutura partidária. Nguyen Phu Trong acumulou enorme autoridade, mas o fez em nome da disciplina e da campanha anticorrupção. Tô Lâm abre uma nova etapa e a questão está em aberto: pode um sistema construído sobre a organização coletiva concentrar poder sem alterar sua própria lógica histórica?

O Vietnã continua sendo uma revolução difícil de classificar, mas seu dilema hoje já não é apenas como resistir. O desafio consiste em como governar o sucesso. Crescer sem romper a coesão social. Incorporar o mercado sem entregar a soberania. Aumentar a produtividade sem submeter os trabalhadores à mão de obra barata. Modernizar o Estado sem militarizar a política. Manter a disciplina sem sufocar a deliberação interna. Manter a independência, manobrando entre a China e os Estados Unidos. Passar de uma fábrica global para uma economia tecnológica, sem abandonar a promessa social que legitimou a revolução.

Talvez o Vietnã esteja buscando uma liderança mais unificada para uma etapa de reformas aceleradas. Talvez o Partido acredite que a fragmentação dos poderes internos já não seja suficiente para enfrentar a concorrência tecnológica, a pressão geopolítica e as demandas de uma sociedade mais complexa. Talvez veja na concentração de poder uma forma de preservar o sistema, não de liquidá-lo. Mas a história vietnamita deixa uma grande lição. Sua força nunca esteve apenas em um líder, mas em uma arquitetura de poder. Não venceu porque teve heróis, mas porque organizou uma sociedade capaz de produzi-los, substituí-los e sobreviver a eles.

Revista Crisis

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