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IAs, riqueza fictícia e guerra: o que alimenta os recordes de Wall Street

Entre inteligência artificial, capital especulativo e economia de guerra, Wall Street alcança novos recordes e reacende temores de uma bolha financeira

Gary Wilson
Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). (Foto: Rafael Matsunaga / Flickr)
Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). (Foto: Rafael Matsunaga / Flickr)

Wall Street atingiu um novo pico no início de junho. Os índices S&P 500 e Nasdaq fecharam em níveis recordes no dia 2 de junho, depois dos três principais índices terem batido recordes simultaneamente no dia anterior. Wall Street considerou isso uma boa notícia. Para os trabalhadores, é um sinal de alerta.

O primeiro sinal de alerta é o quanto os preços das ações se distanciaram dos lucros. No início de junho, as ações estavam sendo negociadas a cerca de 40 vezes o lucro médio das empresas na década anterior. Em 155 anos, esse índice só foi claramente mais alto no auge da bolha da internet em 1999, pouco antes do crash que eliminou trilhões em riqueza virtual.

A quem pertence o boom?

Os 10% mais ricos detêm cerca de 87% das ações corporativas e cotas de fundos mútuos. Somente o 1% mais rico detém cerca de metade. É para eles que tudo isso serve. A maioria dos trabalhadores não possui nada.

O preço de uma ação é um direito sobre lucros que uma empresa ainda não obteve. Marx chamou isso de capital fictício — direitos no papel sobre mais-valia futura, comprados e vendidos como se fossem riqueza.

A riqueza real é produzida em outro lugar, pelo trabalho que utiliza máquinas, materiais e terra. Sem trabalhadores, as máquinas não criam valor; elas apenas ficam paradas.

No entanto, os preços das ações subiram muito mais rápido do que os lucros que os trabalhadores estão produzindo. Os salários ficaram estagnados. O mercado mede a fortuna da classe proprietária, não das pessoas que realizam o trabalho.

Hoje, a maior aposta de Wall Street é a inteligência artificial

A Nvidia, fabricante de chips que ocupa uma posição central no boom da IA, vale cerca de 5 trilhões de dólares. Microsoft, Amazon, Alphabet, Meta e outras empresas estão injetando centenas de bilhões de dólares em chips, data centers e energia. O Goldman Sachs estima que os gastos de capital com IA chegarão a 765 bilhões de dólares em 2026.

O boom se assenta numa base estreita. Quase todo o crescimento recente do PIB dos EUA provém do investimento em tecnologia, enquanto o investimento no resto da economia diminuiu. Um punhado de empresas ligadas à IA detém agora uma enorme parcela dos lucros corporativos e do valor do mercado de ações.

Os centros de dados, os chips e os sistemas elétricos representam uma construção real em escala gigantesca. Mas Wall Street já precificou lucros que talvez nunca venham a ser obtidos.

Esta é a contradição apontada por Marx. O capital continua substituindo trabalhadores por máquinas, mas o trabalho é que é a fonte de novo valor. Quanto mais capital fica imobilizado em máquinas, edifícios, chips e fornecimento de eletricidade, mais difícil se torna manter a mesma taxa de lucro. Essa é a tendência de queda da taxa de lucro.

Os patrões respondem a isso de maneiras já conhecidas. Eles cortam empregos, aceleram o ritmo de trabalho, atacam os sindicatos e pressionam para reduzir os salários. Exigem subsídios, contraem empréstimos, apostam e buscam contratos de guerra. Transformam lucros futuros em riqueza imaginária.

É isso que é o boom da IA: uma expansão real envolta em uma mania especulativa. A tecnologia pode sobreviver à bolha. Os preços dessas ações, não.

A economia de guerra permanente está por trás do boom

O orçamento total do Pentágono para 2026 atingiu 1 trilhão de dólares pela primeira vez. A previsão para 2027 chega a 1,5 trilhão de dólares — a maior da história dos EUA e um salto de cerca de 44%. O custo da guerra contra o Irã, iniciada em 28 de fevereiro com a “Operação Fúria Épica, não está contabilizado nessa solicitação. Stephen Semler, do Instituto de Reforma da Política de Segurança, estimou o custo da guerra em quase 72 bilhões de dólares nos primeiros 60 dias — cerca de 1,2 bilhão por dia —, incluindo armas, equipamentos perdidos e subsídios a Israel. O Pentágono informou ao Congresso que o valor era de 25 bilhões de dólares. Semler chamou isso de mentira.

Wall Street trata essa situação como crescimento. Mas a produção bélica esgota os trabalhadores e enfraquece a base produtiva da qual o capitalismo depende.

A produção militar consome mão de obra, aço, microchips e combustível, mas não produz bens que os trabalhadores possam usar nem bens que ampliem a produção útil. Ela transforma os meios de produção em meios de destruição. Um míssil ou um sistema de mira com IA é comprado, usado e destruído. O capitalismo cresce ao reinvestir o lucro na produção; os gastos com a guerra quebram esse ciclo, consumindo riqueza que não é devolvida à produção útil e desgastando a base produtiva sobre a qual repousa o poder dos EUA.

Trata-se da decadência imperialista. Enquanto o capital dos EUA é queimado em armas, a China — um país socialista em desenvolvimento, não um rival imperialista — direciona investimentos para a produção, infraestrutura, transporte, indústria e tecnologia. Um caminho expande a base produtiva. O outro a queima.

Esse fato não torna os gastos com a guerra não lucrativos para os monopólios de armas. Torna-os muito lucrativos para eles. Pedidos de mísseis, navios de guerra, drones e software de campo de batalha alimentam a Lockheed Martin, a RTX, a Northrop Grumman, a General Dynamics, a Palantir e a Anduril, juntamente com os fundos de investimento cujas ações elevam os índices da bolsa. No entanto, esses lucros repousam sobre uma perda para a sociedade. A mesma mão de obra e os mesmos materiais poderiam ter produzido casas, hospitais, trens, escolas, sistemas de energia e maquinário útil. Em vez disso, são consumidos pela guerra.

Não há como prever o dia de um colapso. Mas quando os preços das ações sobem tanto à frente dos lucros, a história dá um aviso. Todas as vezes anteriores em que a diferença atingiu esse nível, o mercado acabou despencando.

As perdas virão na forma de demissões, congelamento de contratações e fechamento de fábricas, armazéns e escritórios — e por meio dos planos 401(k) e fundos de pensão para os quais os trabalhadores foram empurrados depois que as aposentadorias foram destruídas; um ingresso forçado para um cassino que eles nem possuem nem controlam.

Os trabalhadores que nunca participaram do boom serão chamados a se sacrificar quando a bolha estourar. Os trabalhadores não têm motivo para comemorar os recordes de alta de Wall Street.

Struggle-La Lucha

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