A guerra, desprovida de eufemismos, consiste em dominar o adversário e impor-lhe a vontade. Vence quem consegue ditar as condições; perde quem é obrigado a aceitá-las. De acordo com esse padrão histórico, os conflitos costumam ser encerrados de três maneiras, separadas ou combinadas: uma resolução militar — com vitória, derrota e eventual capitulação —; um acordo de paz negociado, formalizado em um documento diplomático; ou uma cessação indefinida das hostilidades, sem assinatura nem garantias explícitas.
No conflito contra o Irã aberto em 2025 com a guerra dos doze dias, nenhum desses desfechos se apresenta com clareza. Essa zona cinzenta é o território preferido de Donald Trump: ali ele pode transformar o fracasso em espetáculo, a ameaça em manchete e a retirada em vitória imaginária. A guerra expôs, além disso, a fissura entre Washington e Tel Aviv: Trump buscou uma vitória relâmpago que incluísse uma mudança de regime em Teerã; Benjamin Netanyahu, por outro lado, aproveitou a conjuntura para prolongar a ofensiva contra o chamado Eixo da Resistência, articulado pelo Irã para deslocar a fronteira bélica para países terceiros.
Trump tenta encobrir esse fracasso com barulho. Ele faz isso recorrendo a uma tática já clássica da guerra híbrida: a inundação do cerco. O método é simples e brutal: saturar a agenda pública com falsidades, meias verdades e contradições deliberadas até tornar difícil qualquer interpretação dos fatos. Aconselhado no momento por Steve Bannon, o inquilino da Casa Branca não comunica: ele atordoa. Ele inunda o ecossistema midiático para desorientar seus adversários internos e, de quebra, confundir as autoridades persas.
Desde o início da segunda etapa do conflito, em 28 de fevereiro de 2026, Trump anunciou em 38 ocasiões que havia alcançado algum tipo de acordo de paz com o Irã. Teerã não confirmou nenhum. A paz existia sobretudo em seus microfones.
Durante a última semana, Trump voltou a oscilar entre a ameaça total e a promessa de distensão. Primeiro, disse estar disposto a destruir o Irã, bombardear infraestruturas civis críticas e ocupar a ilha de Kharg, ponto nevrálgico das exportações petrolíferas da República Islâmica. Pouco depois, proclamou outro acordo que Teerã voltou a ignorar. A incoerência não é um acidente retórico: é o sintoma de uma impotência estratégica. As Forças Armadas mais poderosas do planeta não conseguiram impor sua vontade ao Irã.
E esse tropeço externo está ligado a uma deterioração interna que atinge onde mais dói: o bolso do eleitorado que votará em novembro. 61% dos americanos consideram a incursão bélica um “erro”, enquanto os empresários afetados pelas tarifas de importação — posteriormente eliminadas pela Suprema Corte — começam a reivindicar a devolução de 130 bilhões de dólares arrecadados pelo atual governo.
A esse mal-estar interno somou-se a decisão de Teerã de apontar seus mísseis e drones para as monarquias vizinhas da Península Arábica, o mesmo território onde os senhores tecnofeudais ergueram centros de dados dedicados à inteligência artificial e onde o Pentágono mantém bases militares. Amazon, Microsoft, Google e Oracle investiram ali cerca de 50 bilhões de dólares.
Essas corporações já não veem Trump como garantidor da ordem, mas como o causador do incêndio que ameaça seus ativos sob a égide da Pax Silica, a aliança internacional destinada a garantir minerais essenciais para os semicondutores de inteligência artificial. A essa fragilidade soma-se um perigo que a grande mídia prefere tratar em voz baixa: a possível destruição dos cabos submarinos que transportam 90% do tráfego de dados entre a Europa e a Ásia, e cerca de 20% do tráfego mundial de Internet.
O mal-estar dos tecnofeudais se soma ao alarme das monarquias aliadas de Washington — Arábia Saudita, Bahrein, Kuwait, Catar e Emirados Árabes Unidos —, todas pressionadas a conter os bombardeios e reabrir o Estreito de Ormuz. Na semana passada, os ministros das Relações Exteriores dos Estados árabes do Golfo Pérsico exigiram de Washington e Teerã um “cessar-fogo imediato” das hostilidades. Por trás dos repetidos apelos à paz não há uma estratégia reconhecível, mas sim um choque de pressões: a improvisação do Pentágono, a resiliência persa, a neutralidade europeia, o maximalismo bélico de Israel e o medo dos investidores de perder negócios regionais.
Os cenários possíveis que se abrem a partir das últimas declarações de Trump são três. Nenhum deles permite exibir a vitória que ele pretende anunciar. O primeiro é uma trégua precária, semelhante ao padrão observado desde o final de fevereiro, com a continuidade da ofensiva israelense sobre o Líbano. Se essa variante prosperar, Trump a apresentará como um triunfo para ocultar a frustração estratégica. O segundo cenário é uma nova escalada, com riscos crescentes para a infraestrutura energética, militar e digital da região.
O terceiro é um acordo de paz negociado, embora sustentado por garantias frágeis devido à desconfiança semeada por Washington. Essa desconfiança não surgiu do nada: tem um antecedente direto no Plano de Ação Integral Conjunto de 2015, conhecido como 5+1, que Trump abandonou durante seu primeiro mandato. Quem destruiu a ponte agora pretende cobrar pedágio para reconstruí-la.
A pressão final para se chegar a algum tipo de entendimento — e talvez a mais decisiva — vem do círculo familiar do magnata nova-iorquino. Jared Kushner, genro do presidente, recebeu um investimento de 2 bilhões de dólares do fundo soberano da Arábia Saudita para sua empresa de capital privado, a Affinity Partners. Donald Trump Jr., por sua vez, integra o conselho da Unusual Machines, uma empresa dedicada à fabricação e venda de drones que já conta com pedidos de compra de diversos países árabes do Golfo.
A paz trumpista, então, não surge como resultado de uma arquitetura diplomática consistente, mas como consequência de uma derrota não admitida, de pressões econômicas cruzadas e de interesses familiares que tornam urgente a construção de uma narrativa vitoriosa.





































