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O inimigo necessário: China e a expansão militar dos EUA

Governo Trump usa a retórica da “ameaça da China” para justificar um orçamento militar recorde e aprofundar a militarização da política externa dos EUA.

Megan Russel
A maior contradição na corrida tecnológica entre EUA e China é que os Estados Unidos minam cada vez mais seus próprios pontos fortes em nome de defendê-los. (Foto: Nacho Arenas / Flickr)
A maior contradição na corrida tecnológica entre EUA e China é que os Estados Unidos minam cada vez mais seus próprios pontos fortes em nome de defendê-los. (Foto: Nacho Arenas / Flickr)

Na semana passada, o secretário da Guerra dos EUA, Pete Hegseth, instou o Congresso a aprovar um orçamento do Pentágono para 2027 no valor de 1,5 trilhão de dólares. Ele justificou o aumento afirmando que precisamos de forças armadas modernizadas e com alta tecnologia para fazer frente à China.

Há anos que os legisladores dos EUA vêm usando a China como pretexto para aumentar o orçamento militar e como a principal justificativa para a formulação de políticas. A competição com Pequim é invocada para justificar a expansão militar, novas alianças regionais, o desenvolvimento de armas com inteligência artificial, restrições aos semicondutores e o aumento dos gastos com energia nuclear. Em Washington, apresentar uma política como necessária para “enfrentar a China” tornou-se uma das formas mais rápidas de garantir apoio bipartidário no Congresso. Como resultado, a retórica da “ameaça chinesa” se prolifera enquanto o orçamento militar dispara.

Na verdade, a China não é a ameaça existencial que Hegseth e outros afirmam que seja. Para começar, a postura militar da China permanece muito mais regionalmente restrita do que a dos Estados Unidos, cuja presença militar global abrange centenas de bases em todo o mundo. A China, por outro lado, moldou ativamente suas forças armadas em torno da “defesa ativa”, com uma marinha projetada para permanecer próxima de suas costas e defender o país caso ocorra qualquer invasão. Qualquer aumento nos gastos com defesa da China não deve ser surpresa, considerando o fortalecimento militar dos EUA ao longo da chamada primeira cadeia de ilhas, bem próxima à costa chinesa. A China também declarou expressamente, tanto em palavras quanto em ações, que não tem desejo algum de entrar em guerra. Já se passaram quase cinquenta anos desde que a China se envolveu no seu último conflito. Não há sinais de uma mudança de política no que diz respeito à busca da China por soluções diplomáticas, e não há sentido em fazer projeções de “e se” sem qualquer base histórica ou evidência.

Portanto, não, a China não é uma ameaça militar, mas é uma ameaça ao equilíbrio de poder político e econômico dos EUA. O crescimento da China na última década é sem precedentes, e sua economia está prestes a ultrapassar a dos Estados Unidos. Não só isso, mas a China se tornou líder global em pesquisa e avanço tecnológico. Embora isso não represente uma ameaça real para o povo americano, perturba a classe dominante e a elite empresarial que dependem do comportamento imperialista dos EUA para manter o monopólio sobre as fontes de receita da tecnologia avançada. Essa é uma das razões pelas quais gigantes da tecnologia dos EUA, como a Palantir, estão atualmente pagando milhares de dólares a criadores de conteúdo para promover uma iminente “ameaça da IA chinesa” e defender o apoio às empresas americanas de IA.

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Os EUA alegam que a “corrida tecnológica” entre EUA e China diz respeito à segurança nacional, mas trata-se, na verdade, de uma disputa pelo controle de recursos, poder econômico e acumulação de riqueza. Em vez de beneficiar o povo americano, essa postura impulsiona a militarização e prejudica o próprio progresso científico que os Estados Unidos alegam buscar.

Historicamente, os EUA têm respondido a ameaças externas, militares ou de outra natureza, por meio da força. Quando projetos socialistas surgiram pelo mundo, em vez de estabelecer acordos diplomáticos com seus líderes, os EUA lançaram intervenções e operações de mudança de regime. Isso prejudicou economias e forçou governos a aderir aos interesses dos EUA. Em resposta ao crescimento econômico da China na última década, os EUA reagiram militarizando toda a região Ásia-Pacífico. Uma simples operação de mudança de regime não funcionaria, então era necessária uma operação mais longa e estratégica. Ao longo da última década, uma campanha constante e bem financiada convenceu o público em geral de que a China é a maior ameaça à segurança do povo americano. Ela tem sido amplamente bem-sucedida, e é por isso que usar a China como motivador de ações políticas funciona tão bem.

A verdade é que o orçamento de guerra de 1,5 trilhão de d não se destina a proteger o povo americano, mas a promover a agenda da classe dominante. Os EUA não estão tentando “dissuadir” uma futura ameaça da China; estão se preparando para uma guerra que tentarão concretizar caso tudo o mais falhe.

A tecnologia avançada definirá o futuro. E, atualmente, os EUA e a China estão construindo seus próprios ecossistemas tecnológicos, especialmente nos campos da inteligência artificial, semicondutores e computação quântica. Os EUA se referem a isso como uma “rivalidade estratégica” com implicações mais amplas para a segurança nacional. Essa perspectiva só existe porque a China é considerada uma rival. Mas a China não precisa ser vista como rival. Ela poderia muito bem ser considerada uma parceira de desenvolvimento. E, de fato, deveria ser, pois a cooperação em tecnologia é a única via possível para garantir a sobrevivência do planeta.

Em vez disso, a corrida tecnológica está exacerbando a militarização e a guerra, ao mesmo tempo em que impõe custos severos ao meio ambiente. Os EUA ainda dependem fortemente da China para obter minerais de terras raras e outros recursos essenciais para sistemas de armas e desenvolvimento tecnológico. Para compensar essa dependência, os EUA voltaram-se para outras regiões do mundo — especificamente a Venezuela e o Irã — em busca de acesso a petróleo e minerais de terras raras.

O Irã, em particular, possui um potencial significativo e inexplorado de elementos de terras raras. Em 2023, Teerã relatou a descoberta de 8,5 milhões de toneladas de argila hectorita rica em lítio. Suas reservas de zinco, cobre e ferro estão entre as maiores do mundo, assim como a Venezuela abriga a maior reserva de petróleo do globo. Esses alvos não são coincidência nem têm como objetivo “neutralizar uma ameaça potencial”, como costumam alegar os líderes dos EUA. Eles se encaixam em um plano estratégico mais amplo para obter independência de recursos, promover interesses comerciais e se preparar para uma possível guerra contra a China.

Se os EUA realmente querem vencer uma corrida tecnológica contra a China, estão dando um tiro no próprio pé. O progresso científico neste país é financiado de acordo com sua aplicabilidade militar. Assim, em vez de buscar avanços científicos que poderiam melhorar a vida cotidiana e o bem-estar das pessoas, ele é buscado exclusivamente para fins militares. Há muitas possibilidades que não são exploradas porque o lucro potencial não é alto o suficiente.

Além disso, os EUA lançaram uma guerra contra cientistas e acadêmicos chineses nos Estados Unidos. No ano passado, Marco Rubio anunciou que o governo começaria a revogar intensivamente vistos de acadêmicos chineses em “áreas críticas”, como ciência e tecnologia. Desde então, inúmeros acadêmicos chineses que estudavam em universidades por todo o país foram interrogados, detidos e deportados.

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Ainda no mês passado, o pesquisador de semicondutores Dr. Danhao Wang teria caído do terceiro andar de um prédio da Universidade de Michigan após ser alvo das autoridades federais. Embora as circunstâncias em torno da morte do Dr. Wang continuem sob investigação, o incidente intensificou as preocupações entre os pesquisadores chineses, que já se sentem cada vez mais vigiados e indesejados nos Estados Unidos.

A perseguição a acadêmicos chineses acaba prejudicando o avanço tecnológico dos EUA. Em sua tentativa desesperada de excessivamente securitizar o setor, os EUA estão destruindo sistematicamente os caminhos que historicamente utilizaram para progredir. Muitos acadêmicos chineses já retornaram à China; outros agora têm medo de vir aos EUA por receio de perseguição.

Além disso, os EUA continuam a impor sanções à tecnologia chinesa para proteger as indústrias americanas. Isso é especialmente absurdo quando se tratam de tecnologias críticas, como veículos elétricos e painéis solares. Em vez de possibilitar a transição para sistemas acessíveis e sustentáveis, o planeta é continuamente sacrificado em nome do lucro.

A maior contradição na corrida tecnológica entre EUA e China é que os Estados Unidos minam cada vez mais seus próprios pontos fortes em nome de defendê-los. A colaboração científica é atormentada pela desconfiança, o progresso tecnológico é subordinado à militarização e as tecnologias verdes urgentemente necessárias são restringidas em nome da ganância corporativa. O resultado é um enfraquecimento autoinfligido dos próprios sistemas necessários para enfrentar as crises do futuro.

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